"A Maldição de Golias", de Luke Kemp, retoma “narrativas” em voga — o legado do colonialismo como origem da fragilidade do Sul — e oferece perspectivas originais — a "benesse" que foi a Peste Negra.
É fácil depreender que Luke Kemp não tem uma ideia favorável do conceito de Estado, quando se lê a definição que dele dá na pg. 14: “um conjunto de instituições centralizadas que impõe regras e extrai recursos de uma população num dado território”. É uma visão cínica e lúgubre do Estado: impõe (é tirânico), extrai (é ganancioso) e, nalguns casos, pouco ou nada dá em troca (é parasitário). Todavia, Kemp concede que “os Estados também podem fornecer bens públicos, quer sejam estradas, pontes ou (em casos mais tardios) educação e serviços de saúde” (pg. 506).
O que nos vale, nesta peculiar óptica, é que os Estados não duram para sempre: mais tarde ou mais cedo, colapsam (em média, ao fim de 326 anos, segundo as contas de Kemp). Kemp define “colapso” como “contracção e fragmentação relativamente rápida de diferentes sistemas de poder. Isto resulta em grandes perdas em termos de hierarquia, densidade populacional e captação energética” (pg. 505).
A maioria das pessoas habituou-se a pensar que os Estados são, globalmente, benéficos (mesmo que não tratem muito bem os cidadãos comuns) e que os colapsos são sempre indesejáveis. Porém, Kemp escreveu A Maldição de Golias para defender a ideia oposta e explica que o apreço (injustificado) pelos Estados resulta de “a maior parte de nós não se [sentir] confortável em reconhecer o elemento mais comum da civilização: governar por dominação” (pg. 15). Para Kemp, um Estado é, antes de mais, “um sistema de violência”, a que dá o nome de “Golias”, inspirado no nome do brutamontes bíblico abatido pelo jovem David. Os “Golias” nasceram de um “movimento no sentido de organizar as sociedades humanas, à semelhança de muitos dos nossos primos chimpanzés, sob a forma de hierarquias de dominação, ou seja um sistema de estratificação social no qual um grupo ou indivíduo se situa acima dos outros graças à sua capacidade de impor sanções, incluindo por meio da violência” (pg. 16).
Mesmo o leitor que, munindo-se de imensa boa vontade e abertura de espírito, tenha aceitado a possibilidade de algumas crises económicas poderem ter, a longo prazo, um balanço positivo, dificilmente estará preparado para um capítulo intitulado “Abençoados com a Peste Negra”, em que Kemp explica que a pandemia de peste bubónica que varreu a Eurásia e o Norte de África em meados do século XIV foi um evento “incrivelmente traumático, mas foi também uma benesse para os que tiveram a sorte de lhe sobreviver. Cortar a população em metade quis dizer que, em média, todos tinham o dobro de tudo, desde navios a terras e cereais” (pg. 288). Aplicando esta impecável lógica ao ambiente doméstico, eis uma hipótese que se deixa à consideração de quem nos lê: já lhe ocorreu que se assassinar o seu cônjuge e der os seus dois filhos para adopção é como se a sua casa ficasse com o quádruplo da área? (escusa de agradecer a sugestão; mas se a puser em prática, por favor não revele que a obteve aqui).
A Morte visita uma vítima da peste: iluminura no manuscrito “Le trésor de sapience”, atribuído ao teólogo Jean Gerson (1363-1429)
Prossegue Kemp: “Os salários duplicaram ou até triplicaram em muitas regiões, e a disparidade salarial entre homens e mulheres reduziu-se. As pessoas ficaram mais altas e mais saudáveis. A esperança de vida aumentou e a estatura cresceu de um mínimo de 168 centímetros, durante a Peste Negra, para um pico de 174 centímetros” (pg. 288). Percebemos agora como foram insensatas as medidas tomadas para conter a covid-19 – os antivaxxers e os que rejeitavam usar máscaras e acatar normas de “distanciamento social” e confinamento, estavam, afinal, certos (ainda que invocassem razões diversas). Se se tivesse deixado a pandemia seguir livremente o seu curso, estaríamos hoje a atravessar um período de prosperidade inaudita.
Os casos pontuais de hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius causaram frisson nos canais de televisão, mas foram rapidamente esquecidos, dado que a baixa probabilidade de transmissão do vírus entre humanos torna o controlo deste vírus relativamente fácil. Em contrapartida, há alguma esperança no surto de ébola na República Democrática do Congo e no Uganda, que a OMS classificou, a 16 de Maio passado, como “uma emergência de saúde pública mundial”. É certo que, entretanto, também o ébola desapareceu dos noticiários, escorraçado pelos terramotos na Venezuela, o campeonato do mundo de futebol, as vagas de calor na Europa Ocidental e a abertura da temporada dos incêndios florestais. Todavia, o ébola, com a sua taxa de mortalidade média de 50%, deve ser visto como uma oportunidade de incrementar substancialmente os salários, a riqueza per capita e a estatura média e de diminuir a disparidade salarial entre homens e mulheres – e, no caso português, também de resolver uma crise da habitação que tem resistido a todas as medidas do governo para a debelar.
A peste numa cidade da Antiguidade, por Michiel Sweerts (c.1652-54)
A tese é triplamente disparatada: 1) Não há razão para que os copistas fossem mais susceptíveis à peste do que qualquer outro grupo da sociedade, pelo que terão perecido na mesma proporção que os escritores, os leitores e os coleccionadores de livros – não há, pois, motivo para que o equilíbrio entre a procura e a oferta de livros fosse alterado pela peste; 2) Gutenberg imprimiu o seu primeiro livro em 1452-54, um século após o fim da Peste Negra, tempo mais do que suficiente para formar novos copistas para substituir os que (supostamente) teriam perecido em excesso na pandemia; 3) O que desencadeou a produção em massa de livros foi o facto de a prensa de tipos móveis ser muito mais rápida do que os copistas e, assim, permitir que o preço dos livros baixasse, estimulando a procura por livros e extinguindo a profissão de copista num ápice. A prensa de tipos móveis ter-se-ia imposto, tivesse ou não ocorrido uma pandemia de peste um século antes.
● Na pg. 272, analisando a história do Império Bizantino, Kemp refere que este atingiu a sua máxima extensão por volta de 541, altura em que foi “atingido pela peste bubónica e pela Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia”, sofrido invasões de avaros e eslavos e travado uma guerra com o Império Sassânida. Porém, na página seguinte, quando fornece explicações para a longevidade do Império Bizantino (que duraria até 1453), a Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia passa de infortúnio a bênção: “criou condições mais frias e húmidas que favoreciam a criação de gado e o cultivo de cereais. Isto significava mais comida, uma população mais saudável e menores probabilidades de fome”. É tentador ficar a matutar no que levará um autor a sentir-se obrigado a explicitar que “mais comida” implica “menos fome”, mas o que é realmente revelador da integridade intelectual de Kemp é o à-vontade com que extrai leituras opostas do mesmo facto em páginas adjacentes.
Foi durante o reinado de Justiniano I (527-65) que o Império Bizantino atingiu a sua máxima extensão. Detalhe de mosaico na Basílica de San Vitale, Ravena, 547
● Em A Maldição de Golias, as incongruências surgem, por vezes, com apenas uma ou duas linhas de intervalo. Por exemplo, na pg. 287 lê-se: “A maior parte do excedente criado pela tecnologia e pelo crescimento económico foi absorvido pelas elites. Uma estimativa relativa à França medieval (1100-1250) sugere que 20% da produção era destinada à construção de igrejas e catedrais. Essencialmente, tudo o que não era utilizado para alimentar pessoas foi para a construção de igrejas e para a expansão de mosteiros”.
A construção da catedral de Santiago de Compostela, segundo iluminura nas Grandes chroniques de France (c.1515-25), de Guillaume Crétin
É verdade que, numa sociedade autocrática, rigidamente hierarquizada e desigual, as elites absorvem boa parte do que é gerado pelo labor dos súbditos, independentemente do estádio de desenvolvimento tecnológico. No Antigo Egipto, parte substancial da riqueza gerada pelos férteis campos agrícolas do Nilo foi convertida em imponentes monumentos funerários, cuja única finalidade era assegurar a (suposta) eternidade de uma minúscula elite, e em nada contribuía para o melhoramento do miserável quotidiano do típico camponês egípcio. O povo da Europa medieval foi vítima de um ludíbrio análogo, ainda que, neste caso, as promessas de vida eterna a troco de gigantescas construções em pedra beneficiassem (supostamente) todos, não apenas o faraó e a elite administrativa e sacerdotal. Porém, afirmar que as igrejas e mosteiros absorviam “tudo o que não era utilizado para alimentar pessoas” é um rematado disparate, e mais disparatado é a equiparação entre esse “tudo” e 20%.
Na verdade, os belicosos Estados medievais da Europa gastavam a maior parte do orçamento em despesas militares: equipar e alimentar soldados e mercenários e pagar-lhes o soldo, erguer e reparar fortificações, construir e manter frotas. Além destas gastos, a imagem de poderio e prestígio que reis e grandes senhores precisavam de projectar requeria palácios sumptuosos e roupas e adereços a condizer, bem como coroações, casamentos, baptizados, entradas triunfais, banquetes, caçadas, torneios e outros divertimentos e extravagâncias; era também preciso garantir o apoio da nobreza e da hierarquia do clero mediante generosa distribuição de presentes, pensões e prebendas, e adquirir relíquias, obras de arte, animais exóticos e curiosidades vindas de terras distantes. No domínio das relações internacionais, havia que impressionar rivais e aliados com embaixadas imponentes e presentes dispendiosos. A burocracia de um reino medieval era, pelos padrões actuais, incipiente, mas ainda assim era preciso montar e manter uma administração que cobrasse impostos, fizesse cumprir a lei e dispensasse (alguma) justiça. E havia que construir, expandir e reparar estradas, pontes, portos, diques, açudes, barragens, canais, pontes e outras infra-estruturas.
Em 1378, o rei Carlos V de França recebeu Carlos IV, o sacro imperador germânico, e o seu filho, o rei Venceslau IV da Boémia, com magnificentes banquetes no Palais de la Cité, em Paris. Na iluminura, o banquete é abrilhantado por uma reencenação da tomada de Jerusalém pela I Cruzada
● Nas pg. 298-99, ao discorrer sobre o Império Azteca (outro “Golias”), Kemp menciona a “introdução de novas armas na [Mesoamérica], como as espadas de pedra”, que designa, mais à frente como “espadas de obsidiana”, e que terão sido importantes para aumentar o poderio militar azteca face aos seus Estados-vassalos e vizinhos. A ideia de uma “espada de pedra” desafia o mais elementar bom senso e é muito provável que as espadas a que Kemp se refere sejam as macuahitl, uma espada de madeira em cujo gume foram embutidas pequenas lascas afiadas de obsidiana; as macuahitl, ainda que sendo incapazes de medir-se com as espadas de aço dos conquistadores espanhóis, representavam um progresso em relação às macana, as espadas de madeira que tinham, até então, dominado o arsenal mesoamericano.
Guerreiros aztecas empunhando macuahitl, na Historia general de las cosas de Nueva España (c.1540-1585), supervisionada por frei Bernardino de Sahagún
Há muito que os historiadores discutem o que terá levado a que, a partir do século XIII e, com maior ímpeto, a partir do século XVI, a Europa tomasse a dianteira em termos de inovação tecnológica e superioridade militar, face aos poderosos impérios otomano e chinês, o que levou a que estes fossem progressivamente definhando e acabassem por colapsar, sob a pressão das potências europeias, no início do século XX.
No magistral The wealth and poverty of nations: Why some are rich and some are poor (1998, A riqueza e pobreza das nações), David S. Landes elabora uma convincente lista de factores que explicam o “excepcionalismo europeu”, entre os quais está a fragmentação do território e do poder: “Na Europa também abundavam os despotismos, mas eram mitigados pela lei e pela partição territorial e, dentro dos Estados, pela divisão de poder entre o centro (a coroa) e a autoridade senhorial local. A fragmentação deu origem à competição e a competição favoreceu o zelo pelo bem-estar dos súbditos. Se maltratados, estes podiam escolher viver noutro lugar” (pg. 36).


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