Entre golos e palavras perdidas, Marco Neves explica porque é que o português ficou com “esquecer” e o espanhol com “olvidar”. Pelo caminho, há vermelho, encarnado, betos e um livro do século XVIII.
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Português Suave, sempre na Rádio Observador, com episódios à quarta-feira e ao domingo. Olá, Marco Neves, bem-vindo.
Cá estamos. Hoje vamos falar da língua portuguesa, mas com a ajuda dos nossos ouvintes, como é habitual à quarta.
Estamos com muitas dúvidas, não é?
Estamos com muitas dúvidas, mas mesmo assim vamos ter a estrutura habitual: a língua nas notícias, o mapa da língua, mitos e origens, e vamos acabar com um livro da língua portuguesa, sobre a língua portuguesa, muito especial.
Tens uma história muito interessante para contar sobre isso.
Tenho, sobre o livro. Então, vamos começar com a língua nas notícias. E vamos pedir ajuda ao Zé Maria, que nos envia uma segunda dúvida. Esta é uma dúvida sobre a dúvida. Vamos ver o que o Zé Maria nos diz.
Olá, Português Suave, daqui fala o Zé Maria de Viseu. Em relação ao último programa em que estiveram a discutir a origem da palavra golo, eu, da minha humilde perspectiva, sempre estive a crer que a palavra golo viesse, sim, da palavra inglesa goal, como foi dito, mas com o significado de baliza, ou seja, o local onde queremos que a bola entre e não tanto o significado de objetivo. Eu confesso que fiz aqui uma breve pesquisa na internet, mas, claro está, não consegui chegar a uma resposta consensual. E vinha aqui pedir o favor ao Marco de ressuscitar o debate em torno da origem da palavra golo. De qualquer das formas, queria deixar em público um agradecimento do fundo do coração ao Marco por ser aqui claramente um autêntico professor de todos os portugueses e por estar sempre à nossa disposição para o esclarecimento de toda e qualquer dúvida. Um grande abraço ao Marco, ao João e a toda a equipe do Português Suave.
E um abraço ao Zé Maria.
São elogios, Marco. O Marco está a babar neste momento.
Eu devo dizer que esta dúvida está na língua das notícias porque está a decorrer o mundial. Essa é a justificação.
Até 19 de julho vamos ter muitas dúvidas a surgir.
Sim, sobre este tema. O que eu ia dizer? Devo dizer que, na verdade, e vamos ressuscitar a questão, mas para dizer que aquilo que o José Maria diz não invalida. Na verdade, o goal, em inglês, é a baliza por ser o objetivo. E é daí que vem o golo português, que é a bola entrar na baliza. Podemos pensar: mas qual é que é exatamente o percurso, se primeiro foi a baliza e se depois foi o gol?
Como é que chegamos até aqui?
Procurei e não consegui perceber exatamente qual foi o primeiro uso, mas provavelmente foi mesmo uma nuvem de usos. Reparem, no Brasil, a palavra gol é usada também para o significado baliza. Na verdade, o que deve ter acontecido foi, no início do uso de termos sobre futebol, aquele goal inglês, que era o objetivo, a baliza, foi usado de forma muito imprecisa, tanto para o sítio onde a bola entrava, como para o próprio ato de entrar. Depois é que começou a especializar-se. Em Portugal, acabou por ser o tento, como às vezes os comentadores usavam. Não sei se ainda usam.
Eu acho que sim, eu acho que ainda se usa. E há mais variantes que se calhar não conhecemos, porque há comentadores que não inventam palavras, mas se calhar expressões que entram na moda.
Acho que é uma área da língua portuguesa pouco investigada. Provavelmente até já há algumas teses, algumas investigações, mas não tanto como poderia haver, porque a língua portuguesa borbulha nos relatos da bola. Isto para dizer que provavelmente começou como algo muito indefinido. Depois, em Portugal, o golo acabou por se especializar na questão de ser a palavra que representa o tento. No Brasil, representa o lugar, o objetivo, mas não deixa de ser sempre o objetivo. O objetivo do jogo é marcar um gol. Devo também dizer outra coisa, já agora aproveito. Quando nós vamos olhar para os textos mais antigos, quando os estrangeirismos aparecem, os estrangeirismos na área do futebol, alguns deles acabaram por desaparecer. Aliás, é uma daquelas áreas onde acabamos por deitar fora alguns estrangeirismos e usar, por exemplo, o corner, passou a ser pontapé de canto. Houve um momento em que houve alguns estrangeirismos que caíram, curiosamente, no futebol. Outros, não. Futebol, para começar, o nome futebol. Mas eu só queria chamar a atenção que há um processo que me ajuda a explicar ou ajuda a responder uma dúvida que eu também tenho recebido nos últimos tempos, porque há uns tempos fiz um vídeo sobre o kiwi e há pessoas que me perguntam por que razão que agora aparece escrito kiwi, às vezes com Q-U-I-V-I, em vez de ser com K, e as pessoas ficam um pouco intrigadas. Na verdade, é o processo de todos os estrangeirismos. Os estrangeirismos começam por ser escritos como na língua original, em geral, e depois vão sendo adaptados ao longo do tempo. Devo dizer que também me parece que atualmente há uma muito maior estranheza das pessoas em relação a essas adaptações, porque também estamos muito mais habituados a ler em inglês. Os termos na língua original do inglês.
Já estamos familiarizados.
Que é a língua que nos dá a maior parte dos estrangeirismos atuais. Aquilo, para nós, é tão natural que começa a ser difícil adaptar à ortografia portuguesa. E isto é um processo cada vez mais lento e cada vez mais difícil, porque as pessoas estranham a adaptação ortográfica, que na verdade sempre foi feita em todos os estrangeirismos. Por isso é que nós escrevemos futebol com U e não com dois O, como se escrevia no início. Basta olhar para os primeiros símbolos dos clubes de futebol e aparece futebol com dois O. Vamos avançar.
Sim, um abraço para o Zé Maria, de Viseu. Faz sempre questão de falar aqui da terra de Viseu, que come-se muito bem, aliás, em Viseu. Vamos avançar para o mapa da língua. João, temos aqui uma dúvida do André Vasconcelos, que nos deixou este áudio. Vamos ouvir?


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