Executivo defende que a regulação do trabalho por aplicativo seja discutida com cuidado e lamenta a relação atribulada com os concorrentes
Priorizar nos meus resultados Google
O presidente do iFood, Diego Barreto, discute os desafios de mercado e a urgente regulação do trabalho por aplicativo. Ele defende uma abordagem cuidadosa para evitar desequilíbrios, fala sobre a contribuição previdenciária, a dinâmica com concorrentes e o crescimento do setor, destacando o papel social da plataforma.
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O tamanho do mercado de entregas por aplicativo não tem como passar despercebido. As mochilas térmicas são praticamente onipresentes sobre motos e bicicletas nas ruas de cidades de todos os tamanhos. Pioneiro e líder do segmento no Brasil, o iFood é comandado há dois anos por Diego Barreto, executivo que enfrenta uma série de pressões regulatórias e concorrenciais. A empresa movimenta cerca de 0,6% do produto interno bruto, segundo estimativa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), e 600 000 pessoas compõem sua base de entregadores ativos — mais do que o quadro de funcionários de qualquer empresa brasileira. Há uma tentativa do governo de regular esse trabalho, mas Barreto defende que “não dá para criar fórmulas mágicas com base no comportamento médio dos entregadores”. O risco, afirma ele, é a aprovação de uma lei que rompa o equilíbrio de oferta e demanda no setor. A concorrência crescente com as chinesas 99Food e Keeta ajuda a elevar a temperatura desse mercado. Ainda assim, Barreto é otimista e afirma que o negócio do iFood vai continuar crescendo nos próximos anos.
A economia brasileira está desacelerando e os juros seguem muito elevados. Como isso afeta o negócio do iFood? A volatilidade da renda e os juros no Brasil, sem dúvida alguma, geram um efeito negativo, porque tiram poder de consumo das pessoas e capacidade de investimento do comércio. Com juros de 14,25%, os donos de restaurantes têm uma dificuldade maior para financiar a expansão de seu negócio. Mesmo que essas condições possam impactar nosso crescimento, elas não vão nos fazer encolher.
A regulamentação do trabalho por aplicativo foi uma promessa da campanha de Lula e, após anos de discussão, ela ainda não saiu do papel. Como vê essa demora? O mundo todo está discutindo esse tema e não há um modelo definitivo para inspirar a legislação brasileira. Não acho que o projeto de lei que está no Congresso esteja caminhando em um ritmo lento demais, considerando que o tema não é nada trivial. Longe disso.
Qual é o principal empecilho para a regulamentação avançar? O grande entrave é a tentativa de enquadrar todos os entregadores em uma mesma caixa. O comportamento dessas pessoas é muito diverso. Tem gente que trabalha na plataforma oito horas por dia e outros que trabalham oito horas por mês. A grande maioria dos entregadores usa o aplicativo como um complemento de renda. Temos pedidos de 200 reais e outros de 20 reais. Não dá para criar fórmulas mágicas com base no comportamento médio dos entregadores.
“Não há um modelo definitivo para inspirar a legislação sobre trabalho por aplicativo. O grande entrave é a tentativa de enquadrar todos os entregadores em uma mesma caixa”
Nesse caso, qual é a saída para garantir que todos os colaboradores possam ter dignidade no trabalho? O parâmetro do Brasil se chama salário mínimo. O Estado brasileiro definiu que essa é a nossa referência de dignidade. O ganho do trabalhador de qualquer plataforma tem que ser proporcional a isso. O que não dá para fazer é colocar um ganho fixo mínimo de 10 reais por entrega, como o governo propôs, porque inviabilizaria vários pedidos na operação de delivery, especialmente os de menor valor.
Quanto um entregador do iFood ganha por mês? O entregador que se dedicar à plataforma oito horas por dia, cinco dias por semana, vai fazer dois salários mínimos líquidos. Nós possibilitamos essa renda ao equilibrar a oferta e a demanda, ou seja, impondo um limite regionalizado à quantidade de entregadores na plataforma para não depreciar o trabalho dele. Outro desafio é ocupar o entregador com mais entregas para ele ganhar mais.
Um ponto da regulamentação que gera polêmica é a contribuição previdenciária dos entregadores. Qual é a posição do iFood sobre esse tema? Nenhum ser humano em sã consciência é contra a aposentadoria digna para quem chegou a uma idade avançada. Somos a favor da contribuição por parte da plataforma. Isso não é uma questão para nós. Se tivéssemos aprovado a regulamentação, a nossa arrecadação previdenciária chegaria a 1 bilhão de reais já em 2027, e está tudo bem. Tem que fazer e ponto-final.
Como o senhor avalia o impacto da plataforma no mercado de trabalho? Se uma pessoa de baixa escolaridade perdesse o emprego quinze anos atrás, ela teria que imprimir um monte de currículos e entregá-los quase aleatoriamente nas empresas. Hoje, o desempregado pode entrar no aplicativo e gerar alguma renda, seja enquanto busca um novo emprego, seja por tempo indeterminado. O trabalho exposto à demanda em tempo real existe desde sempre. A beleza da tecnologia é organizar a demanda para ocupar a maior parte do tempo desse trabalhador e ele ter uma renda digna. Além disso, digo com algum nível de confiança que o iFood deve ser o maior receptor de egressos do sistema prisional do Brasil. Ao contrário de 99% das empresas, nós não temos preconceito contra essas pessoas.
Empresas concorrentes acusam o iFood de dominar 80% do mercado brasileiro de delivery. Qual é a fatia de mercado do aplicativo hoje? Quem usa esse número só quer chamar atenção. O mercado de entregas tem três canais principais: aplicativos, WhatsApp e telefone. Se considerarmos todos os canais, estimamos que temos algo entre 23% e 25% do mercado brasileiro. O percentual que os concorrentes citam se refere apenas ao mundo dos aplicativos, sendo que a maioria dos pedidos de comida no Brasil não é feita através de aplicativos, mas por mensagem ou telefone.
O iFood teme perder espaço para novos concorrentes, como as chinesas 99Food e Keeta? A chegada de outras empresas é supernatural e não gera nenhuma dificuldade para nós. O mercado de delivery ainda está em fase inicial. Tem muita coisa para acontecer nesse segmento, incluindo um aprofundamento das mudanças de padrão de consumo da sociedade. As pessoas comem noventa vezes por mês, ou seja, tem mercado para todo mundo. Crescemos na casa de 30% no último ano e vamos repetir a dose em 2026.
No entanto, no fim de maio, o iFood processou a Keeta, acusando a concorrente de espionagem. O que houve? Isso é terrível. Eu me sinto em um faroeste corporativo que nunca imaginei viver. A espionagem é um fato e está documentada na nossa ação. Eles tiveram “conversas remuneradas” com funcionários nossos para falar sobre números e estratégias do iFood. O problema não é haver concorrência. Concorri com Uber Eats, Rappi, Glovo e outras empresas e não tive nenhum problema. Esse processo (contra a Keeta) vai render muito assunto.
“O iFood deve ser o maior receptor de egressos do sistema prisional do Brasil. Ao contrário de 99% das empresas, nós não temos preconceito contra essas pessoas”
O iFood é acusado de exigir exclusividade irregular com restaurantes, apesar de acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Como o senhor responde a isso? Em nenhum momento o Cade nos puniu por entender que nossa conduta era equivocada. O que existe é uma investigação. Não encaramos os contratos de exclusividade como um problema, porque eles têm o investimento como contrapartida. O dono do restaurante que quer uma segunda unidade e não tem dinheiro pega um empréstimo conosco e se compromete com a exclusividade, que já tem limites definidos pelo Cade.
Os entregadores estão sujeitos a todo tipo de perigo nas ruas. O que o iFood faz para zelar pela segurança dessas pessoas? Nossa primeira decisão controversa nesse sentido foi limitar o tempo máximo on-line em doze horas diárias. Foi uma decisão criticada por boa parte dos entregadores, que gostariam de não ter esse limite. Também monitoramos aspectos como velocidade, desaceleração e frenagem de motos e bicicletas. Cobramos, acima de tudo, um comportamento correto no trânsito. Além disso, se o entregador sofrer um acidente e ficar temporariamente impedido de trabalhar, pode receber até 15 000 reais de reembolso de despesas médicas e até 3 000 reais de indenização.
Em relação à segurança dos clientes da plataforma, como evitar que eles sejam vítimas de fraudes ou golpes por parte de falsos entregadores? A quantidade de fraudes ligadas a pedidos no iFood é ínfima. Recebemos poucas dezenas de relatórios por ano ante 1,3 bilhão de entregas. Entregadores que cometem fraudes ou golpes são prontamente removidos da plataforma. Na esmagadora maioria das vezes, quem aplica o golpe não é um entregador do iFood, mas do próprio restaurante. Hoje, cerca de 60% das entregas do aplicativo são feitas por pessoas dos próprios restaurantes.
Qual é a diretriz do iFood para situações em que o cliente quer que o entregador suba ao apartamento com o pedido? A decisão depende da legislação local e das normas do condomínio, mas a gente recomenda que a entrega seja feita no primeiro ponto de contato, ou seja, que o cliente vá buscar o pedido na portaria do condomínio ou do prédio. Lançamos uma campanha chamada “Bora Descer” para incentivar as pessoas a fazerem isso. Antes, no Rio de Janeiro, a maioria dos cariocas, por exemplo, não tinha esse hábito, o que não é mais o caso.
No ano passado, houve um vazamento de dados de 1,2 milhão de usuários do iFood. Como a empresa pretende evitar episódios assim? Os usuários podem confiar em nossa segurança. Temos um programa de privacidade robusto e com os melhores padrões de mercado. Um exemplo é a geração de códigos aleatórios para o cadastro de cartões de crédito, tornando o vazamento dessas informações impossível. O incidente recente envolveu dados cadastrais básicos, não financeiros. A segurança da nossa comunidade é, e continuará sendo, a nossa prioridade.


0 Comentário(s)
Deixe seu comentário