Palpitações, tonturas, sensação de desmaio e falta de ar costumam ser atribuídas ao estresse, ao cansaço ou à idade. O problema é que, em alguns casos, esses sintomas podem ser um sinal de que o coração não está batendo como deveria

Compartilhar matériaUma tontura ao levantar-se da cama. Uma sensação de fraqueza ao fazer um agachamento na academia. Um mal-estar ao abaixar para pegar uma panela no armário da cozinha. Um coração acelerado sem motivo aparente enquanto você assiste televisão. Situações como essas acontecem todos os dias e, quase sempre, encontramos uma explicação rápida para elas.

Os idosos costumam pensar que é consequência da idade. Muitas mulheres atribuem os sintomas ao excesso de tarefas, à falta de sono ou à sobrecarga da rotina. Adolescentes frequentemente acreditam que é ansiedade, hormônios ou algo emocional. Já muitos homens preferem culpar uma noite mal dormida, uma refeição pesada ou o excesso de bebida do fim de semana.

E, de fato, muitas vezes essas explicações estão corretas. Mas nem sempre.

Em alguns pacientes, sintomas aparentemente simples escondem uma condição cardíaca que merece atenção: a arritmia. O desafio é que nem sempre é fácil perceber quando o problema está relacionado às emoções e quando ele pode estar vindo diretamente do coração.

As arritmias são alterações no ritmo normal dos batimentos cardíacos. O coração pode bater rápido demais, devagar demais ou de forma irregular.

Dependendo do tipo de arritmia, os sintomas podem ser discretos e esporádicos. Em alguns casos, a pessoa sente apenas uma palpitação ocasional. Em outros, surgem tonturas, sensação de desmaio, falta de ar, cansaço excessivo ou desconforto no peito.

O problema é que esses sinais são pouco específicos.

Uma pessoa que trabalha sob pressão pode associar a palpitação ao estresse. Uma mãe que cuida dos filhos, trabalha fora e dorme pouco pode acreditar que o cansaço é apenas consequência da rotina. Um adolescente pode imaginar que tudo faz parte da ansiedade típica da idade.

Como os sintomas aparecem e desaparecem, muitas vezes eles são ignorados por meses ou até anos. Segundo a American Heart Association, algumas arritmias podem permanecer sem diagnóstico por longos períodos justamente porque seus sintomas são confundidos com problemas menos preocupantes.

A ansiedade pode provocar manifestações físicas intensas. O cérebro libera substâncias como adrenalina e cortisol, que aumentam a frequência cardíaca, aceleram a respiração e provocam uma sensação real de alerta.

Por isso, crises de ansiedade e determinadas arritmias podem parecer muito semelhantes. Mas existem algumas características que merecem atenção.

Enquanto os episódios de ansiedade costumam estar associados a preocupações, tensão emocional ou situações estressantes, algumas arritmias podem surgir sem qualquer gatilho aparente.

O paciente está tranquilo, assistindo a um filme, lendo um livro ou até dormindo quando sente o coração acelerar abruptamente.

Outro ponto importante é a presença de tonturas recorrentes, episódios de desmaio, sensação de quase desmaio, histórico familiar de morte súbita ou doenças cardíacas conhecidas.

Nessas situações, a investigação cardiovascular se torna ainda mais necessária.

Vale lembrar que ansiedade e arritmia não são condições mutuamente exclusivas. Algumas pessoas apresentam ambas, o que torna a avaliação médica ainda mais importante.

Uma das maiores dificuldades no diagnóstico das arritmias é que elas nem sempre acontecem durante a consulta.

Muitas vezes, quando o paciente chega ao médico, o coração já voltou ao ritmo normal. Por isso, exames como eletrocardiograma, Holter de 24 horas, monitorização prolongada e dispositivos modernos de registro cardíaco desempenham papel fundamental na investigação.

A boa notícia é que a maioria das arritmias pode ser diagnosticada e tratada com segurança quando identificada adequadamente. O mais importante é não normalizar sintomas recorrentes sem uma avaliação apropriada.

Nem toda palpitação é sinal de doença. Nem toda tontura indica um problema cardíaco. Nem toda sensação de mal-estar merece preocupação. Mas também não devemos assumir automaticamente que tudo é ansiedade, estresse ou consequência da correria do dia a dia.