Em artigo à CNN Infra, Rinaldo Mancin analisa os desafios da mineração até 2050 e defende que decisões tomadas hoje sobre investimentos, tecnologia e sustentabilidade serão determinantes para o futuro do setor

A mineração é um negócio cujos horizontes são medidos em décadas, mas cujas decisões fundamentais frequentemente sucumbem aos ciclos curtos das cotações de commodities, das trocas de governo e do ruído da opinião pública.

Esse descompasso entre a temporalidade do investimento e a volatilidade do momento presente é, hoje, o maior desafio estratégico do setor.

Uma mina que entrar em operação nos anos 2040 está sendo pensada, desenhada, financiada e submetida ao licenciamento exatamente agora. Trata-se de um setor em que o tempo de maturação se dilatou drasticamente: o prazo médio entre a descoberta de um jazimento e o início da lavra comercial triplicou em pouco mais de três décadas, saltando de seis para aproximadamente dezoito anos.

Em um cenário tão estendido, os executivos e formuladores de políticas públicas que optam por esperar a incerteza se resolver para tomar decisões já nascem atrasados.

O pano de fundo global dessa equação é amplamente conhecido, mas suas consequências operacionais ainda são subestimadas.

A demanda global por minerais críticos é impulsionada simultaneamente pelo avanço da urbanização nos países emergentes, pela expansão acelerada dos data centers e da inteligência artificial, pelo rearmamento global e pelas metas imperativas da transição energética. Apenas a demanda por cobre, metal central para a eletrificação, pode crescer cerca de 50% até 2040.

No entanto, enquanto a demanda exige volume e velocidade, a oferta enfrenta restrições estruturais severas. Em primeiro lugar, o teor médio de cobre nos minérios lavrados caiu cerca de 40% desde 1990.

Além disso, depósitos de classe mundial na superfície tornaram-se raridades, fazendo com que as novas reservas fiquem cada vez mais profundas e geograficamente complexas.

Para completar esse quadro de gargalos institucionais, cerca de 60% dos grandes projetos de mineração em desenvolvimento no mundo enfrentam atrasos crônicos, grande parte diretamente associada a entraves nos processos de licenciamento e conflitos socioambientais.

A consequência física disso é direta: para obter a mesma tonelada de metal refinado, a indústria é obrigada a movimentar volumes massivos de rocha.

Mais rocha movimentada traduz-se em maior consumo intensivo de energia, maior captação de água e volume exponencialmente superior de rejeitos gerados, a menos que a inovação tecnológica altere profundamente a lógica operacional.

Para organizar essa complexidade, um estudo recente conduzido pela Systemiq e ERM, com o apoio do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) e da Fundação Moore, construiu três cenários estratégicos para 2050.

Não se trata de futurismo ou previsões determinísticas, mas de um exercício analítico que cruza o ritmo da inovação tecnológica com o modelo de governança dominante.

O primeiro cenário, denominado Fracture (Fratura), representa a fragmentação geopolítica em blocos rivais. Nele, os governos tratam os recursos minerais estritamente como ativos de segurança nacional e soberania, flexibilizando salvaguardas socioambientais para garantir suprimento rápido, enquanto a inovação tecnológica avança de forma tímida e incremental.

O resultado é um atendimento parcial das metas de oferta ao custo da degradação acelerada: estimativas indicam um aumento de 25% no número total de minas operacionais e elevações de 35% a 50% no desmatamento, na geração de rejeitos e nas emissões de gases de efeito estufa em relação às projeções de linha de base para 2050.

No extremo oposto está o cenário Flywheel (Impulso), focado na máxima eficiência e sustentabilidade. Nele, prevalecem governança equilibrada, regras internacionais transparentes, rastreabilidade rigorosa da cadeia de suprimentos e aceleração tecnológica disruptiva, desde o uso de Inteligência Artificial e sensores avançados na exploração até a mineração de alta precisão e a eletrificação total das frotas industriais.

Com processos mais eficientes, seriam necessárias menos minas abertas, os licenciamentos seriam ágeis por conta da clareza dos dados e registrar-se-ia um desmatamento até 25% menor, redução de até 35% no consumo de água e uma queda expressiva de aproximadamente 90% nas emissões operacionais de Escopos 1 e 2.

Por fim, o cenário Space Race (Corrida Espacial) desenha um mundo em que a intensa competição tecnológica entre potências impulsiona avanços rápidos, porém desprovidos de governança global unificada.

As regras tornam-se assimétricas, regiões que priorizam a conservação ambiental utilizam a tecnologia para mitigar e isolar impactos; já regiões focadas em receitas e urgência de suprimento aplicam técnicas avançadas para viabilizar extrações altamente agressivas, inclusive acelerando a exploração minerária no fundo dos oceanos.

Estes cenários não funcionam como um cardápio do qual se escolhe o preferido, mas sim como um teste de estresse. Para um conselho de administração ou para um ministério de Estado, a pergunta fundamental não é prever qual cenário prevalecerá, mas sim definir quais decisões estratégicas tomadas hoje se mantêm sólidas e viáveis em qualquer um deles.