Uma década após o referendo do Brexit, muitos dos efeitos sobre a economia, o comércio e a política britânica continuam visíveis. Hoje, a maioria dos britânicos votaria pela reentrada na União Europeia.

Há exatamente dez anos, um terremoto político, econômico e social abalou o Reino Unido quando uma pequena maioria dos eleitores decidiu que o país deveria deixar a União Europeia, sob a promessa de um futuro melhor fora do bloco de países.

Muitos dos que votaram a favor do Brexit (apelido dado a essa saída) no referendo buscavam maior autonomia para tomar decisões políticas, comerciais e econômicas sem a interferência da União Europeia. Também esperavam reduzir a imigração e ampliar o peso do Reino Unido no cenário geopolítico internacional.

Uma década depois, a União Europeia já não influencia diretamente as decisões britânicas. Mas muitas das consequências desse rompimento estão longe daquilo que os defensores do Brexit prometeram aos eleitores britânicos.

O número 10 de Downing Street (residência e escritório do primeiro-ministro britânico) viu passar seis primeiros-ministros ao longo desses dez anos e se prepara para receber o sétimo ainda neste verão, após o anúncio da renúncia de Keir Starmer na segunda-feira (22/6), uma situação incomum na política britânica das últimas décadas.

A saída do maior mercado comum do mundo, a União Europeia, também trouxe consequências significativas para a economia e o comércio do Reino Unido. E, ao contrário do que prometiam alguns defensores do Brexit, não reduziu os fluxos migratórios. Pelo contrário: eles aumentaram e mudaram profundamente de perfil.

Hoje, muitos dos que votaram pelo Brexit há dez anos se arrependem da decisão. Entre aqueles que não puderam votar, por ainda serem menores de idade, mas que convivem com as consequências do Brexit, o desejo de retornar ao bloco é amplamente majoritário, segundo pesquisas de opinião.

Os últimos dez anos foram marcados por fortes turbulências em todo o mundo. A pandemia e a guerra na Ucrânia afetaram as economias globais, e não apenas a britânica. A fragmentação política e a ascensão do populismo também não são fenômenos exclusivos do Reino Unido, mas tendências observadas em diversos países.

Mas especialistas alertam que, no caso britânico, o Brexit intensificou os efeitos negativos dessas transformações globais.

A seguir, quatro grandes mudanças no país nesses últimos 10 anos:

Durante décadas, o Reino Unido foi visto como um exemplo de previsibilidade e estabilidade. Conservadores e trabalhistas se alternavam no poder em um sistema marcado pelo bipartidarismo e por poucos sobressaltos políticos.

Os eleitores de classe média alta tendiam a apoiar o Partido Conservador, enquanto os trabalhadores costumavam votar no Partido Trabalhista. O Brexit rompeu essa lógica ao introduzir uma nova divisão no eleitorado: sair ou permanecer na União Europeia.

Desde então, seis primeiros-ministros tentaram conduzir o país sem conseguir permanecer no cargo por mais de dois anos, na melhor das hipóteses.

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"O Brexit foi tóxico para a política britânica", afirmou Jun Du, diretora do Instituto de Produtividade do Reino Unido, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Para a economista, a saída da União Europeia aprofundou divisões que já existiam antes do referendo e "trouxe mais instabilidade, mais polarização política e mais divisões na economia e na sociedade, com um impacto profundo, persistente e estrutural".

Se é verdade que referendos podem produzir consequências imprevisíveis, poucos casos ilustram isso tão bem quanto o de David Cameron (2010-2016), que há dez anos ocupava o cargo de primeiro-ministro e se tornou a primeira vítima política do Brexit.

Cameron convocou o referendo na expectativa de que os britânicos apoiassem a sua posição favorável à permanência na União Europeia e, assim, neutralizassem as vozes populistas que ganhavam força à direita de seu partido, lideradas por Nigel Farage (que em 2016 liderava o partido UKIP, um partido de direita criado para lutar pela saída do Reino Unido da União Europeia) e por setores do próprio Partido Conservador.

O plano não deu certo.

Cameron renunciou, e coube à sua sucessora, Theresa May, negociar com a União Europeia uma separação extremamente complexa. Ela enfrentou um Parlamento dominado por parlamentares contrários ao Brexit e um governo comprometido com a implementação da saída em uma data previamente definida, um processo que também acabaria lhe custando o cargo.