No "Realpolitik", Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro falam sobre a moção de censura do Chega e sobre a vitória da AfD na Alemanha.

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Bem-vindo ao Realpolitik, uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.

Eu sou o Sérgio Azevedo.

E hoje nós vamos falar sobre dois temas. Mais daqui a pouco vamos conversar um pouco sobre o resultado das eleições na Alemanha no domingo, que deram uma vitória à AFD, ao partido de extrema-direita. Mas antes, Sérgio, as coisas realmente importantes: tivemos uma moção de censura na terça-feira, moção de censura do Chega por causa de Luís Neves. A moção de censura foi chumbada, o governo anunciou que nos vai distribuir umas esmolas até o fim do ano. Olhando para o que aconteceu, o ponto clássico é: o governo saiu fragilizado ou saiu fortalecido? E até onde é que isto trouxe o Chega? Isso foi uma boa estratégia do Chega avançar pra moção de censura ou não? Como é que o ministro fica? Não sei, destes pontos todos, qual é aquele ponto do qual te custa menos falar?

Uma vez que esta semana só vamos tratar desgraças, vamos tentar uma abordagem positiva.

A esmola que tu referiste. Sempre que vem uma moção de censura, a reação do governo passa pela distribuição de esmolas pelos necessitados.

Bacalhau ao petaco. Lá vai haver o aumento extraordinário de pensões.

400 milhões não é isso. 400 milhões acho que é os impostos.

Assim as pessoas não se baralham nas contas e dão 400 milhões cada uma. É isso.

E uma baixa de impostos até o sexto escalão, que custa 400 milhões. 400 milhões é nada. 400 milhões é uma reduçãozinha, equivale mais ou menos à gloriosa e triunfante entrada do Estado no capital da REN. Mas pronto, é assim. Eu começo logo pelas esmolas pra isto não ser demasiado depressivo. As moções de censura do Chega parecem quase aqueles eventos anuais, como o 5 de Outubro, os fregados religiosos, há sempre.

Festa do Avante. Há sempre. Nós temos quase todos os anos uma moção de censura.

Ano passado tivemos duas. Uma do Chega e uma do PCP.

Espera lá, então estou a ver isto mal. Tens razão. Eu na minha inocência só fui ver as do Chega, mas afinal também a do PCP.

O PCP também gosta de apresentar moções de censura.

1 de julho de 22, contra António Costa, rejeitada. 15 de setembro de 23, contra António Costa, rejeitada. Tudo Chega. 18 de fevereiro de 25, contra Luís Montenegro, rejeitada. E 2 de setembro de 2026, rejeitada, também do Chega. Isto só são o Chega. Mas os outros também têm direito, de vez em quando dar sua moçãozinha de censura.

O sol quando nasce é pra todos.

Mas o que é engraçado é que cada vez que estas iniciativas ocorrem, são tratadas num estado de paroxismo e comoção nacional: "Moção de censura, lá vamos nós pra mais uma moção de censura!" Pois bem, passa-se aquela tarde, o resultado previsível confirma-se. O governo continua.

Até hoje só houve uma moção de censura aprovada.

Que foi contra Cavaco Silva, que depois levou à primeira maioria absoluta.

Alguém disse, até não sei se não teremos sido nós, que já tivemos 34 moções de censura desde que alguém criou essa importante figura. O que é espantoso é que é tal a falta de disponibilidade e hábitos de discutir coisas importantes, que estamos sempre a elaborar e a entrar em transe, transe nacional de moção de censura. Quem ganhou? Quem perdeu? Quem conseguiu? Quem naufragou? O Chega, se tivesse sido bem-sucedido nessa moção de censura, que nunca seria, como é evidente, tinha logrado um grande objetivo nacional, que era em quatro anos termos cinco eleições, que é uma das coisas que nós, pra juntarmos aos problemas que temos e que não conseguimos resolver, passávamos a viver em permanente estado de campanhas eleitorais. Aliás, é o modo de vida do Chega, adora campanhas. O Chega está em campanha durante a campanha. Quando acaba a campanha, ninguém o avisa e continua em campanha. Depois vem a moção de censura, retoma a campanha, é uma campanha permanente. E depois o líder da oposição, como não se presta a este papel, o melhor líder da oposição agora é o próprio Ventura, porque tem o partido mais votado. Mas e o PS? O PS. Mas nem se vê o PS. O PS não faz política assim. Se fizesse, era engraçado, ainda tínhamos mais moções de censura. O país era uma fantochada politicamente ingovernável. E já agora vamos falar de eleições. Janeiro de 22, março de 24, maio de 25. Isso se não fosse o feliz desfecho de ontem, do chumbo da moção e da distribuição de Como é que tu dizias?