Paulo Briguet“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleMoraes e Dino querem resgatar o diploma obrigatório de jornalismo para conter informações incômodas divulgadas por cidadãos livres. (Foto: Joedson Alves/Agência Brasil)Ouça este conteúdo
No longínquo ano de 1989, poucos meses antes da eleição presidencial, tive a minha mais importante aula no curso de jornalismo, ministrada pela saudosa professora Maria Helena Viana. Na ocasião, graças a ela, este futuro cronista de sete leitores, que era um moleque bobo de 19 anos, com a estrelinha do PT no peito, aprendeu a definição de lead, ou seja, aquelas seis perguntinhas a que todo texto jornalístico deve responder: Quê? Quem? Como? Quando? Onde? Por quê?
O problema foi a aula do dia seguinte, quando um professor comunista veio e apresentou a famosa 11ª tese sobre Feuerbach, formulada pelo jovem Karl Marx em 1845:
“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo”.
Quase todas as aulas que tive durante os quatro anos de curso foram um prolongamento da frase de Marx, e não da aula de Maria Helena. Em outros termos: se quisesse ser jornalista, bastar-me-ia aquela primeira aula. Infelizmente, o maior objetivo dos cursos de jornalismo não é preparar bons jornalistas, amantes da verdade factual, mas sim adestrar militantes de redação. E foi isso que eu me tornei, até abandonar as ilusões esquerdistas pelas razões que já descrevi em meus livros e crônicas.
A frase de Marx, aparentemente inocente, teve gravíssimas consequências, não apenas para o jornalismo, mas para a própria civilização. Como explica Olavo de Carvalho em seu magistral “O Jardim das Aflições”, a 11ª tese sobre Feuerbach significa “a abolição do conceito de verdade objetiva e submissão de toda atividade cognitiva às metas e critérios da práxis revolucionária; a absorção da lógica na retórica, da ciência na propaganda ideológica”.
O decreto que impôs a obrigatoriedade de diploma para o exercício do jornalismo foi promulgado em 1969, durante a vigência do AI-5. Era uma forma que os militares da ditadura, com sua estupidez positivista, encontraram para controlar as redações de jornais. O efeito foi exatamente o contrário: duas décadas do tal decreto, a maioria das redações estava dominada pela militância petista (como denunciava, naquele ano de 1989, o grande jornalista sem diploma Paulo Francis).
A esquerda, com sua estratégia gramsciana de ocupação de espaços, transformou quase todas as redações em valhacoutos de militantes esquerdistas, com poucas e honrosas exceções, como esta Gazeta do Povo. Uma pesquisa realizada em 2022 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que 81% dos jornalistas brasileiros se declaram de esquerda, e apenas 4% dizem ser de direita. Levando-se em conta que no Brasil até a direita é de esquerda, imagino que o quadro real seja ainda mais devastador.
É por isso que Alexandre de Moraes e Flávio Dino querem agora desenterrar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Trata-se de uma medida preventiva para evitar que qualquer informação incômoda para o regime venha a ser divulgada por cidadãos livres que amam a verdade, e não a ideologia. No fim das contas, tudo se resume, como bem lembrou um amigo, o professor Eduardo Cabette, ao diálogo entre Alice e Humpty Dumpty no capítulo VI de “Alice Através do Espelho”:
— Quando eu uso uma palavra — disse Humpty Dumpty, num tom bastante desdenhoso —, ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique... nem mais, nem menos.
— A questão é — disse Alice — se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.
— A questão — disse Humpty Dumpty — é saber quem é que manda... e ponto final.
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Flávio Dino e a ditadura democrática do BrasilO que significa votar em Lula nas atuais circunstâncias?Carta não autorizada a um tirano de togaPaulo BriguetPaulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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