Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.
Role, Da BBC News Brasil em LondresPublished 5 agosto 2026Tempo de leitura: 9 minA dois meses das eleições presidenciais, o Brasil enfrenta um momento sem precedentes nas relações internacionais, com conflitos diplomáticos abertos com dois de seus mais tradicionais parceiros: Argentina e Estados Unidos.
No mesmo dia em que o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires, os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em mais sinais do desgaste nas relações entre os países.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.
Na terça-feira (05/08), após repetidos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Itamaraty informou ao embaixador argetino, Guillermo Daniel Raimondi, que agora o governo fará tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília.
Segundo diplomatas, com o rebaixamento, Raimondi não deve continuar no Brasil, mas a decisão brasileira não representa uma expulsão formal.
Também na terça, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com isso, a diplomata terá que solicitar um novo visto para entrar no país, caso saia dos EUA.
5 agosto 2026Quem é Daniel Perez, indicado de Trump para embaixada em Brasília e pivô de crise — e o que ele disse sobre o Brasil5 agosto 2026'Disputa crescente': como imprensa internacional noticiou revogação do visto de embaixadora do Brasil pelos EUA5 agosto 2026Fim do content
O ato, segundo apurou a BBC, foi em resposta à demora do governo brasileiro em autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa autorização é a concessão de um agrément.
Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.
Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão do republicano ainda avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano.
Rubens Barbosa, diplomata aposentado e ex-embaixador em Londres e Washington, afirma que o Brasil jamais enfrentou uma crise diplomática com os Estados Unidos como a atual ao longo do período republicano.
Da mesma maneira, diz, apesar de muitos momentos de tensão e desencontro ao longo dos anos, a relação diplomática entre Brasília e Buenos Aires nunca havia sido rebaixada desta maneira, pelo menos nas últimas décadas.
"Partidarismos e ideologia estáo tendo um papel muito importante em ambas as crises, e isso não deveria acontecer. A diplomacia existe para resolver questões pontuais, não agravar a crise", avalia.
Acompanhe apuração em tempo real
Fim da Promoção da eleição 2026
Para Felipe Krause, professor da Universidade de Oxford e coordenador do Programa de Estudos Brasileiros mantido pela instituição acadêmica britânica, o atual momento também é sintoma da aliança de líderes conservadores na América do Sul ao redor de Donald Trump.
"É um momento gravíssimo para as relações internacionais do Brasil com EUA e Argentina, e um momento muito grave, infelizmente, para as relações internacionais na nossa região, nas Américas", diz.
O analista aponta também para a crescente internacionalização das eleições brasileiras, com mais declarações de líderes estrangeiros e atenção no exterior.
"A internacionalização das eleições e a crescente importância das relações internacionais e da política externa para o processo eleitoral brasileiro são bastante inéditos", afirma.
Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, argumenta ainda que as atuais crises, embora inéditas até pela sua simultaneidade, não chegam a ser uma surpresa.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário