Foi nos anos 1990 que as barrinhas de cereais viraram um fenômeno: elas ajudaram a popularizar o hábito de beliscar entre as refeições, redefinido pela ent?...
Foi nos anos 1990 que as barrinhas de cereais viraram um fenômeno: elas ajudaram a popularizar o hábito de beliscar entre as refeições, redefinido pela então chamada nutrição funcional.
Era algo para levar na bolsa ou no bolso, abrir e ter uma pequena refeição fácil, prática; e com a promessa de ser mais saudável do que o que se encontrava nas prateleiras dos supermercados.
Ainda que tenham surgido algumas décadas antes, com a febre das granolas e outros cereais (que lhes deram o nome mais completo no Brasil), foi há duas ou três décadas que ficaram mais presentes na nossa alimentação.
Nos anos 1980, eram vendidas como "snacks" e ajudaram a criar toda uma categoria. Nos anos 2000, entraram na onda do "clean": menos processados, menos açúcar, sem glúten.
Agora é a vez das barrinhas funcionais: proteína e fibra dividem espaço com prebióticos, probióticos, colágeno, creatina e outros ingredientes. E das barrinhas que já nem são barrinhas: vêm em todos os tipos de formatos e texturas, uma das grandes inovações do setor.
Tudo com a promessa de fornecer o que precisamos e, em alguns casos, até "substituir uma refeição". Nesse novo posicionamento, elas saem das academias e do universo dos adeptos da "alimentação saudável" para explorar um nicho muito maior: todo mundo que come.
Estamos vivendo o que alguns especialistas chamam de "snackização" da nossa alimentação. Para isso, as indústrias tiveram (e continuam tendo) que inovar muito: não basta ter 20 g de proteína ou ser rico em fibras. Os snacks precisam oferecer diversidade e uma solução para cada momento em que alguém pensa em comer.
A indústria também busca novas maneiras de tornar esses produtos mais desejáveis, apostando menos na disciplina e mais no prazer imediato. A expressão da vez é healthy indulgence: em vez da velha barrinha com cara de dieta, densa e ascética, surgem produtos que imitam sobremesas e doces.
A promessa ficou mais fácil: ninguém precisa abrir mão do prazer, basta encontrar uma justificativa nutricional para ele. Por isso entram queijos, tortas de limão, manteiga de amendoim e outros sabores que levam para o corredor dos snacks referências antes mais associadas a sobremesas, pratos de restaurante ou ao junk food, que sempre trabalhou com sabores muito apelativos para vender mais.
Há também uma nova forma de trabalhar texturas que proporcionem satisfação imediata. A empresa Takeaways, por exemplo, usa bolinhas crocantes de proteína do leite em suas barras salgadas.
Se antes a função (ser saudável) precisava convencer o consumidor, agora a indústria quer que o prazer faça esse trabalho. E aí há uma discussão preocupante.
Um estudo publicado este ano por pesquisadores das universidades de Michigan, Duke e Harvard encontrou paralelos entre a engenharia dos cigarros e a dos alimentos ultraprocessados, sobretudo na categoria de snacks e petiscos.
Assim como fabricantes de tabaco calibraram a dose e a velocidade de entrega da nicotina, a indústria de alimentos aprendeu a ajustar combinações de gordura e carboidratos, sabores e texturas para aumentar a recompensa e estimular o consumo repetido.
As duas também tornaram seus produtos baratos, duráveis, portáteis e disponíveis em praticamente toda parte. E, quando passaram a ser questionadas, responderam com versões apresentadas como melhores para a saúde: dos antigos cigarros light aos snacks low-fat, sem açúcar ou enriquecidos com proteína e fibras.
Existe ainda uma questão primordial de velocidade num mundo que não sabe parar. Enquanto o cigarro foi desenvolvido para entregar nicotina rapidamente e produzir uma recompensa intensa, mas breve, estimulando o próximo cigarro, muitos ultraprocessados seguem uma lógica parecida.
São fáceis de mastigar, dissolvem-se rapidamente na boca e entregam sabores e nutrientes em pouco tempo. A promessa de saúde ajuda a convencer na hora da compra e, quando se come, o prazer chega rápido — e dura pouco o suficiente para abrir espaço para mais.
Talvez o paralelo mais evidente, entretanto, esteja na conveniência. Os snacks ultraprocessados não precisam de cozinha, talheres ou mesa, duram meses na prateleira e estão disponíveis quase o tempo todo.
Poucos produtos levaram essa lógica tão longe quanto a barrinha e os snacks de bolso, que podem ser comidos caminhando, trabalhando ou dirigindo.
Basta abrir a embalagem para ingerir as proteínas de uma refeição — ainda que, junto com elas, venham aromatizantes, emulsificantes e tantos outros aditivos que preferimos ignorar nas letrinhas pequenas.
Nesta era de urgências e eterna correria, esses snacks conseguiram também nos "libertar" da mesa e dos horários das refeições, transformando algo semelhante a uma refeição (ou pelo menos a promessa nutricional de uma) em algo que se pode ingerir a qualquer hora, em qualquer lugar.




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