No dia 18 de setembro o Teatro Nacional D. Maria II reabre ao público. Neste contexto, a Sala Estúdio acolherá, de 23 a 27 de setembro, uma peça participativa encenada por Keli Freitas. Um retrato de Lisboa por pessoas que a fazem mover. Em O Último Telefone …

Em O Último Telefone Público de Lisboa, sete imigrantes tentam ultrapassar a barreira do som: expressão metafórica para a limitação da língua ou das dificuldades laborais e habitacionais com que se deparam aqueles que chegam vindos de outro país. Falamos da peça que está na Sala Estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, de 23 a 27 de Setembro, com hipótese de futuras reposições. Uma imponente cabine telefónica é o único elemento fixo. do cenário. Olha-nos, tal como o grupo de não-atores que vêm do Irão, Brasil, São Tomé e Príncipe, Bangladeche e Nepal. Há ainda um filho de imigrantes, que muitas vezes prefere o silêncio da sua surdez a certos ruídos e discursos que se escutam na opinião pública. Existem sons repetidos até à exaustão para que percebamos que podem ter tanto de importante como de lúdico e irónico. «Porque é que vieste para Lisboa?» é a pergunta que, em polifonia, fazem uns aos outros. E são muitas e variadas as respostas: pastéis de nata, Costa da Caparica, comprar casas para viver da especulação, bacalhau com natas, andar apertados nos transportes, conduzir um TVDE…

Para a sua reabertura a 18 de setembro, o Dona Maria II, pediu a Keli Freitas que concebesse um espetáculo sobre imigração. O foco escolhido incidiu sobre os imigrantes da capital. Entre as mais de 250 pessoas com que falou, a criadora artística escolheu este septeto, que ajudou a construir O Último Telefone Público de Lisboa. São as suas histórias que nos vão sendo contadas, como a de Domingas, que durante 34 anos passou à porta do teatro a caminho do trabalho, sem nunca pensar que um dia pudesse lá entrar. quanto mais ser atriz. Alguns destes episódios biográficos surgem como chamadas telefónicas, que fazem uns aos outros ou para familiares. A ideia de escuta foi um mote para a encenadora, juntamente com a ideia de barreira ou fronteira. «Para as audições levava sempre um telefone antigo e pedia para eles fazerem um telefonema para quem quisessem. O telefone não era uma decisão minha. Foi ficando até ser um elemento da peça. Entrava com a palavra “escuta” e saía com a palava “barreira”. Ia colecionando palavras. Num outro dia foi a palavra “som”. As palavras hoje não são mais ouvidas. Onde é que a escuta pode ser um ponto de partida radical e os sons que alimentam a nossa vida se tornam fundamentais?» Ficou a expressão barreira do som. A barreira que Keli Freitas ultrapassou na construção da peça. «Como é que a gente também se consegue conhecer?, perguntava-me. Esta peça é uma colagem possível dos nossos encontros.» Em O Último Telefone Público de Lisboa, nasce uma comunidade e um universo ricos, que não esquece outra pergunta basilar dos ensaios que ficou para a peça: «Qual foi a palavra que chegou atrasada na tua vida?» «Para mim, o retrato de Lisboa são estas sete pessoas que fazem esta cidade mover-se», conclui Keli Freitas.