Para Helena Ferro Gouveia, a Europa não deve prescindir da aliança com Washington devido à dependência defensiva e aos valores comuns. Salienta ainda os ataques híbridos da Rússia contra solo europeu.
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Gabinete de Guerra, na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de atenção na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise da especialista em Relações Internacionais, Helena Ferro Gouveia. Boa noite, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Olá, muito boa noite.
Queria começar por falar na guerra da Ucrânia. A revista britânica The Economist avança que Vladimir Putin receia ser morto caso não consiga atingir o objetivo mínimo de capturar a região do Donbass, ou seja, as regiões de Donetsk e Luhansk. A revista explica que Vladimir Putin opera pela lógica histórica dos regimes russos, em que não há espaço para falhanços a nível geopolítico, especialmente de invasões grandes como esta. Putin terá mesmo dito aos conselheiros: "Eles vão enforcar-me". Sabemos que desde que foi eleito como sucessor de Boris Yeltsin, em 2000, Putin construiu uma cleptocracia, ou seja, inverteu a dinâmica oligárquica dos anos 90 e o Estado passou a controlar os oligarcas russos. Esses oligarcas mantêm os ativos e gerem os ativos russos, desde que se mantenham leais a Vladimir Putin. E para além destes oligarcas, existem os siloviki, que são ex-agentes do KGB e altos comandantes, normalmente leais a Putin, a quem o poder económico foi transferido. E são também estes siloviki que podem ser uma ameaça para Putin, isto por controlarem também parte das Forças Armadas. Também temos a revisita do diretor da CIA e foi por uma ameaça russa, um país da NATO na região do Baltico para 2029. Com isto tudo pode vir um escalar da guerra, porque Putin não quer falhar. Fala-se de um envio entre 300 a 400 mil homens para as linhas da frente. Sem alarmismos, tendo em conta que há um desespero por parte de Vladimir Putin, é altura para a Europa, a NATO e a União Europeia se prepararem para um cenário de guerra que desta vez os envolva?
Boa tarde, Martim. Eu tenho vindo a dizer há muito tempo que este cenário é um cenário bastante provável e plausível também. Vladimir Putin insere-se num sistema de poder, como o Martim bem descreveu na introdução a este programa, que não perdoa fracasso. E neste momento, a guerra na Ucrânia, que começou por ser uma operação militar especial que seria de curta duração, de acordo com o planeamento de Putin, está-se a revelar um fracasso com um impacto bastante grande na Federação Russa, um impacto, sobretudo, em termos humanos. Nós estamos a falar de pesadas perdas humanas de soldados, que já se tornam impossíveis de esconder. Estamos numa guerra que já é mais longa que a Primeira Guerra Mundial e que está a ter impacto sobre o dia a dia, sobre o quotidiano russo, por via da economia. E Putin tem nesta guerra, uma guerra existencial. Se para a Ucrânia a guerra é existencial porque estava em causa a sua existência enquanto país, a sua soberania, para a Federação Russa, isto é existencial porque significa o fim de um projeto de poder, e neste caso, é um projeto de poder pessoal de Vladimir Putin. Face a isto, nós temos vindo a assistir a um escalar do conflito e estes ataques que têm acontecido nas últimas semanas contra as cidades ucranianas, aproveitando a aqui a vulnerabilidade ucraniana no sentido de não ter a necessária defesa antiaérea, e vemos o apertar sobre a população ucraniana. Vemos uma escalada também retórica e Putin vai-nos entretendo uma vez mais com a questão do nuclear, que é sempre aquela ameaça velada que vai estando na sala para preocupar as opiniões públicas. Mas vemos, e isso também me parece muito importante referir, também um acelerar daquilo que é a guerra híbrida, que já deixou de ser tão híbrida assim. O ataque que houve contra o aeroporto de Leipzig/Halle, onde parte da ajuda europeia para a Ucrânia sai de lá, é uma base bastante importante, é uma base da NATO, além de ser um hub importantíssimo de uma das maiores companhias aéreas mundiais, que é a DHL, que não é apenas uma companhia de logística, mas tem uma importante frota de aviões. Ao atacar este tipo de alvos em pleno solo europeu, ao imiscuir-se em processos eleitorais, ao fazer ciberataques, ao cortar cabos submarinos, a Federação Russa já declarou uma guerra à Europa. E agora há aqui várias leituras ou várias análises. Há quem considere que possa haver uma intensificação deste tipo de operações de guerra híbrida. Há quem tema que haja mesmo uma guerra no sentido cinético, que haja uma invasão, por exemplo, da Moldova, que haja uma incursão nos Bálticos. Temos aqui um cenário, mas sim, teremos de preparar para isso, quer a Europa, e quando nós conversamos ou quando nós olhamos para a Europa de Leste, quando olhamos para a Polónia, quando olhamos para os Bálticos, vemos que a perceção deles da ameaça é diferente da nossa e eles estão preparados e estão a observar a Federação Russa e a observar com cada vez maior preocupação.
Falando também nesta ameaça que a Helena descrevia, para além disto, Putin disse hoje que quer aprofundar as relações com a China depois de uma reunião que teve com Xi Jinping. O presidente russo tinha dito que os Estados Unidos estão enfraquecidos por estarem com uma guerra no Médio Oriente. Ora, já se viam duas fações no mundo, o Ocidente contra o Oriente, com a China e a Rússia cada vez mais unidas e com uma Europa agora, pelo menos, mais distante a nível político dos norte-americanos. A Europa não pode prescindir desta relação com os Estados Unidos. O que é que pode a Europa fazer agora para ficar bem vista aos olhos de Trump? Deve apoiar, por exemplo, a ofensiva no Médio Oriente e as sanções impostas pelos norte-americanos ao Irão, tendo em conta que pode ser visada como um alvo por parte dos iranianos? Pergunto-lhe se esta é mesmo uma relação que a Europa não pode prescindir.
Não, não pode prescindir, respondendo de uma forma direta. Agora indo à sua questão, as alianças estão em reconfiguração ou em reconstrução. Nós vemos aqui uma China que tem uma visão da ordem mundial que desafia aquilo que é o domínio ocidental, ou o que a China considera ser o domínio ocidental, a ordem liberal definida pelos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial, e que defende a construção de um sistema internacional multipolar, deixando a bipolaridade que acabou com a queda do Muro de Berlim com a implosão da União Soviética, para termos aqui vários centros de poder, sendo que um dos centros de poder era aquilo que se chama o Sul Global, apesar deste Sul Global Ser bastante heterogêneo naquilo que é a sua composição. Mas a China desafia claramente o poder norte-americano. A Europa há que gerir aquelas que são as suas alianças. A Europa precisa dos Estados Unidos, não apenas do ponto de vista militar e de defesa, porque nós vamos precisar talvez de uma década para termos todas as capacidades militares que necessitamos para nos defender. Apesar de haver aqui um chapéu nuclear francês e britânico, que, aliás, já está disponível para proteger outros países, e nós vemos um conjunto de países que realmente se uniram a franceses e britânicos no sentido de ter aqui este chapéu nuclear. Mas nós não temos defesa antiaérea, não temos um conjunto de capacidades que necessitamos. De uma forma muito prosaica, nós precisamos dos Estados Unidos. Mas mais importante que isso, são os valores que partilhamos. Os Estados Unidos, e apesar deste presidente, continuam a ser uma democracia, ou se quisermos, uma espécie de exemplo daquilo que é o modelo de sociedade liberal. Eu sei que se fala muito na decadência americana e há sinais preocupantes, há um crescendo autoritarismo. Há aqui uma série de questões que foram levantadas no primeiro mandato de Donald Trump e estão a ser levantadas agora neste segundo mandato de Donald Trump, mas os Estados Unidos continuam a ser um país com checks and balances, onde o sistema judicial funciona, onde há uma imprensa livre. Continuamos a ter aqui realmente uma referência e uma referência ocidental. E isso parece-me que face ao avanço das autocracias e destes dois eixos onde se está a consolidar a ordem mundial neste momento, temos um eixo de democracias liberais, a Europa, os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Coreia do Sul, um conjunto de países que integram o Ocidente, e temos aqui um alinhar de autocracias ou de países que não sendo autocracias, como é o caso do Brasil, que é uma democracia, mas que têm alguma simpatia por este grupo de autocracias. E neste reajustar da ordem mundial que se está a desenhar, a Europa terá que fazer escolhas. E a mim, parece-me que a escolha que melhor serve aquilo que é o projeto europeu, aquilo que é a matriz europeia, é a proximidade com os Estados Unidos. Proximidade, ou amizade, ou aliança, não significa anuir a tudo que os Estados Unidos entendam. E mesmo entre amigos, e esta expressão é do chanceler alemão, mesmo entre amigos, há espaço para visões diferentes e há espaço para dizer que sim ou espaço para dizer que não. Em relação à questão do Irão, vamos ver como é que se desenvolve este conflito, se vamos ter a breve trecho negociações, porque vejo o Irão cada vez mais enfraquecido, apesar de ter respondido aos ataques norte-americanos a Kharg e a Larrak, mas está claramente enfraquecido por via também da sua economia. E nós não nos podemos esquecer que quer a Federação Russa, quer o Irão, enfrentam desafios econômicos muitíssimo importantes e os impérios caem muitas vezes por via da economia. Foi o que aconteceu à União Soviética. O Irão está numa situação econômica também muito difícil. Vamos continuar a assistir ao desenvolvimento deste conflito e perceber onde é que, enquanto Europa, temos que nos posicionar. Agora, que também há a ameaça real de um ataque iraniano a um país europeu, eles não fizeram gala e escondeu, e ameaçaram mesmo países, por exemplo, como a Bulgária ou como o próprio Chipre, que fazem parte da União Europeia. No caso hipotético, e eu estou só aqui a falar em cenários de um ataque desse, a Europa teria que se posicionar e parece-me que a única posição possível não seria a neutralidade, mas posicionar-se ao lado dos Estados Unidos.
Vejamos qual é essa decisão da Europa. Falamos também agora um pouquinho sobre o Médio Oriente, isto devido a um vídeo partilhado por Donald Trump, com recurso a inteligência artificial, que mostra um ataque à ilha iraniana de Kharg, com a descrição: "A ilha de Kharg vai ser reduzida a pedaços". Ora, J.D. Vance diz que Donald Trump estava a enviar uma mensagem quando partilhou este vídeo. As palavras de J.D. Vance são mesmo: "O presidente gosta de mudar um pouco as redes sociais. Seria o primeiro a dizer que o presidente Trump não faz anúncios sobre ações militares nas redes sociais, mas acho que ele está a enviar uma mensagem para os iranianos." De acordo com a Fox News, a mensagem seria para prevenir o Irão de realizar ataques contra navios comerciais no estreito de Ormuz, ou seja, uma ameaça. Eu pergunto à Helena, qual é a mensagem?
Trump habituou-nos àquilo que é uma diplomacia digital transgressora, ou seja, utiliza o que são as redes sociais para fazer anúncios que tenham um grande impacto e não faz uma comunicação clássica ou uma diplomacia clássica. Quando ele partilha estes vídeos gerados por inteligência artificial, o que não é nada de novo, quando nós vamos acompanhando, Trump antes usava o Twitter, que agora é X, e depois criou a sua própria rede social, a Truth, usa-o precisamente para transmitir estas mensagens que antigamente eram feitas na diplomacia clássica, de uma forma muito mais ponderada, talvez mais sensata. Donald Trump usa aqui a sua forma de comunicar, utiliza provocações geopolíticas diretas, tem sempre aquilo que é impactante, porque as redes sociais, como se dirigem à emoção e não à racionalidade, têm logo um impacto. Ele ao publicar estes vídeos de inteligência artificial, com a destruição da ilha de Kharg, está a dizer ao regime dos aiatolas, está a dizer a Teerão, que os Estados Unidos não estarão a brincar e que têm uma capacidade de fogo suficiente para, se for necessária uma intervenção mais musculada, e não essas operações militares bastante precisas contra os lançadores de foguetes, os Estados Unidos poderão fazê-los. Mas isto vai sendo forma de comunicar de Donald Trump, que veio revolucionar, e eu não estou a dizer que isto é positivo ou que é negativo, não estou a fazer aqui juízo de valores, estou apenas a observar. Que veio aqui alterar a forma como se faz diplomacia e, sobretudo, como se contorna. E acho que esta é uma reflexão que também deve ser feita pelos media tradicionais. Como se contornam os media tradicionais? Todos nós nos recordamos que antes um chefe de Estado ou de governo, quando tinha algo importante a anunciar, convocava uma conferência de imprensa e sentava os jornalistas à sua volta e fazia um anúncio. Nós vimos com o Trump, e não só com o Trump, mas vimos esta comunicação passar para as redes sociais, passar para o X. A União Europeia, quando quer comunicar alguma coisa, ou os chefes de Estado e de governo, mesmo europeus, fazem-no também no X. Donald Trump utiliza a sua rede social, vai é um pouco mais longe na forma disruptiva, transgressora, se quisermos, de comunicar.
É, de facto, uma maneira diferente de se comunicar. Tem-nos habituado a isso desde 2016 e não deixa de ser também uma maneira que leva a questões, essa forma direta de Donald Trump comunicar. Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise da especialista em relações internacionais, Helena Ferro Gouveia. Agradeço-lhe pela análise.
O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã, fica também disponível em podcast.


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