"Quando é bem gerida, a energia permite reduzir simultaneamente custos e incerteza, o que tem um impacto direto na capacidade...
Em entrevista ao Link to Leaders, Susana Pires explora as razões que continuam a levar os líderes a tomar decisões energéticas sem informação suficiente sobre os consumos, e explica de que forma a monitorização permanente, a análise de dados e a contratação de equipas especializadas permitem identificar desperdícios invisíveis.
A Youdera é uma empresa especializada em soluções de energia descentralizada e modelos Energy-as-a-Service. Qual a vossa proposta diferenciadora para o mercado?
Na prática, na Youdera, financiamos e instalamos produção solar, armazenamento, baterias ou diferentes combinações destes ativos, assegurando, também, a sua manutenção e monitorização. Isto significa que o cliente não tem de fazer um investimento inicial significativo, nem tem de criar uma estrutura interna para gerir essa infraestrutura.
A diferenciação também está na forma como dimensionamos a solução. O nosso trabalho não começa no equipamento que queremos vender, mas sim na análise do consumo real da empresa, em intervalos de 15 minutos. A partir daí, percebemos onde faz sentido produzir, armazenar, deslocar consumos ou recorrer a energia adicional. E é esta combinação de financiamento com tecnologia e gestão que nos permite funcionar como um único parceiro para a infraestrutura energética das empresas, em vez de sermos apenas mais um instalador ou comercializador.
Quais os produtos/serviços mais procurados e com mais impacto no vosso negócio?
O solar continua a ser a porta de entrada, já que é o produto mais visível e o mais fácil de explicar: instalam-se painéis e compra-se menos à rede. Mas onde vejo mais impacto é na combinação com o armazenamento. Uma bateria permite armazenar energia quando é mais barata para a utilizar quando é mais cara, evitando recorrer à rede nos períodos em que a eletricidade custa mais. A isto, junta-se, com peso crescente, a gestão da flexibilidade, ou seja, ajustar quando se consome e não só quanto, bem como a monitorização contínua através da nossa plataforma, que dá às empresas visibilidade sobre onde e como gastam. Depois de quase três décadas a acompanhar empresas que gerem a energia “a olho”, com base na fatura do mês anterior, é gratificante assistir a esta evolução: deixar de reagir à fatura para passar a antecipar e gerir o consumo de forma estratégica.
Como olha para a evolução do mercado português, nos últimos anos, no seu setor de atividade?
Estou neste setor desde os anos 90, quando ainda trabalhávamos com centrais de cogeração e a ideia de escolher um fornecedor de energia parecia tão insólita como escolher um fornecedor de água da torneira. Ninguém escolhia: a energia simplesmente chegava. Ter acompanhado esta transformação de perto, ano após ano, é o tipo de privilégio que só se percebe a olhar para trás. E ainda sinto o mesmo entusiasmo do primeiro dia.
A liberalização do mercado, no início dos anos 2000, foi a primeira grande viragem: de repente, havia opções, o que trouxe concorrência e até alguma confusão. Depois, vieram as renováveis “a sério” e a queda acentuada do custo do solar e, mais recentemente, a crise energética de 2022, que fez em 18 meses o trabalho de pedagogia que o nosso setor não tinha conseguido fazer em 20 anos: convenceu qualquer administrador financeiro de que a energia merece uma linha de gestão própria e não uma nota de rodapé na contabilidade.
Hoje, o mercado português é o mais maduro, o mais tecnológico e o que tem mais atores especializados, como a Youdera. Mas continua a existir uma distância grande entre quem já percebeu isto e quem ainda decide a estratégia energética ao sabor do catavento comercial, em vez de olhar para os dados. O problema é que, aqui, a tempestade chega todos os meses, com um nome e uma morada: a fatura.
De que forma uma gestão holística da energia pode ser a solução para reforçar a competitividade das empresas?
Quando é bem gerida, a energia permite reduzir simultaneamente custos e incerteza, o que tem um impacto direto na capacidade de uma empresa competir. O primeiro passo é perceber que gerir energia não significa apenas “caçar” o preço mais baixo, como quem compara etiquetas no supermercado sem olhar para o prazo de validade. É necessária uma análise da estrutura do contrato, do perfil de consumo, da forma como o preço é indexado, ou fixado, e da flexibilidade que existe para adaptar os volumes contratados à realidade operacional.
Depois, há outras dimensões que podem ser trabalhadas. Uma empresa com consumos elevados pode, por exemplo, beneficiar do Estatuto do Cliente Eletrointensivo, desde que acompanhe continuamente os critérios necessários para manter essa condição. Pode, também, avaliar produção própria, armazenamento, comunidades de energia ou diferentes modelos de aquisição. Quando todas estas variáveis são analisadas em conjunto, a energia deixa de ser uma despesa que se tenta minimizar e passa a ser uma variável de gestão. E é aí que começa a reforçar a competitividade das empresas.
Qual a importância, e impacto, da gestão especializada da energia nas empresas? Pode ser encarada como uma vantagem competitiva?
Grande parte das empresas ainda gere a energia de forma reativa. Recebe a fatura, paga-a sem auditar o valor e, anualmente, procura uma eventual alternativa no mercado. O problema é que o mercado energético não funciona só de 12 em 12 meses. Há, por isso, decisões que devem ser tomadas continuamente e que exigem conhecimento especializado, para escolher o indexante mais adequado, perceber se as cláusulas fazem sentido, ajustar volumes contratados à sazonalidade do negócio ou avaliar alternativas.
Uma equipa especializada consegue, também, acompanhar oportunidades que, normalmente, não são do conhecimento das empresas cuja atividade principal não é a energia. Falo de ter acesso a ofertas verdadeiramente personalizadas (e não apenas de preço), mas também de conseguir montar estratégias mistas de mitigação de risco, compostas, por exemplo, por geração local, um contrato de compra de energia financeira ou físico e compra faseada de coberturas de preço. É a velha regra de não pôr todos os ovos no mesmo cesto, só que, aqui, o “cesto” também tem de saber ler o contexto geopolítico e antecipar situações de mercado de alta volatilidade ou falta de liquidez. O objetivo não é tornar o cliente dependente de um especialista, mas dar-lhe informação e capacidade de decisão, para que tenha a possibilidade de deixar de aceitar sem questionar as condições que lhe são apresentadas.
Por isso, defendo que a gestão energética é, sem dúvida, uma vantagem competitiva. Duas empresas podem consumir quantidades semelhantes de energia e ter custos muito diferentes, simplesmente porque uma delas toma decisões com base em dados e conhecimento de mercado e a outra funciona em “piloto automático”.
De que forma a monitorização permanente, a análise de dados e a contratação de equipas especializadas permite identificar desperdícios invisíveis?
Há uma diferença significativa entre saber quanto uma empresa consumiu e perceber porque é que consumiu dessa forma. E é nesta distinção que, muitas vezes, estão os desperdícios que não aparecem de forma evidente na fatura. Com dados de consumo em intervalos curtos, conseguimos perceber padrões, identificar desvios e relacioná-los com o custo de energia em cada momento. Um equipamento que consome mais do que o habitual pode estar a sinalizar uma anomalia que anteceda a avaria. Do mesmo modo, um processo industrial intensivo pode, eventualmente, ser deslocado para um período em que o custo da energia é mais baixo.
Na Youdera, acrescentamos a esta análise a simulação e a posterior validação das próprias faturas. A nossa plataforma cruza os dados de consumo com as condições contratadas e os preços de mercado, permitindo identificar erros ou custos que poderiam passar despercebidos. A verdadeira vantagem não está, portanto, em ter mais dados, mas sim em transformá-los em decisões, mesmo antes do desperdício se transformar num custo.




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