O Major-General Arnaut Moreira sublinha que a Ucrânia luta pela sua independência sob constante ameaça. Também considera que o apoio financeiro europeu é vital para fazer face à forte pressão militar.
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Bem-vindo. Lembro que também nos pode acompanhar com imagem nas redes sociais do Observador e também no YouTube. General, a Ucrânia celebrou esta semana os seus 35 anos de independência em Kiev, para além das cerimónias de homenagem aos mortos. Houve também uma presença importante de líderes europeus que foram demonstrar a sua solidariedade e prometer a continuação do apoio financeiro e militar. Mas como é que se pode definir, caracterizar a atual situação política, económica e militar da Ucrânia neste momento, general?
Muito bem. Vamos começar no dia 19 de agosto de 1991. Foi o dia em que as forças soviéticas tentaram retomar o poder em Moscovo. 19 de agosto. Cinco dias depois, reuniu de urgência o Parlamento Ucraniano. Na altura, o Parlamento era o Parlamento da República Socialista Soviética da Ucrânia. Reuniu de urgência para declarar a independência, em face daquilo que tinha sido uma tentativa das forças mais conservadoras da Federação Russa de restaurar outra vez a União Soviética. Isto é um tema interessante, um dia ainda havemos de voltar a isto. Ora, esta declaração de independência teve 346 votos a favor, um voto contra e 13 abstenções. Foi uma votação impressionante. Uau, como diríamos hoje em dia. Tinha uma condicionante. Foi votado nestes termos, desde que fosse depois referendado pelo povo ucraniano, o que aconteceu no dia 1 de dezembro de 1991. Nesse dia, participaram mais de 84% dos eleitores no ato eleitoral e o voto de ratificação da independência foi feito por mais de 90% dos eleitores.
Uau, outra vez. Dois uaus. Portanto, isto é importante olharmos para o consenso que a independência da Ucrânia mereceu dentro daquilo que era o Parlamento da República Socialista Soviética da Ucrânia e depois pelo voto popular. Passados 35 anos sobre este acontecimento extraordinário, a Ucrânia tornou a comemorar o seu dia da independência, mas um dia comemorado sob a ameaça de bombas e com 20% do seu território ocupado pela Federação Russa. Ela comemorou a sua independência, é verdade, mas tem que continuar a lutar pela sua independência. A independência da Ucrânia não é uma coisa que esteja garantida e, portanto, foi um dia mais de evocações, sobretudo de evocações dos seus mortos, do que de comemorações festivas, como é natural. Do ponto de vista político, vamos olhar agora para o balanço político, económico e militar da situação na Ucrânia. Foi reconfortante a presença de líderes europeus no dia da comemoração da independência. Esteve o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estiveram vários líderes europeus, sobretudo bálticos, e teve, pela primeira vez, o novo primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham. A Europa esteve presente politicamente, dando o seu apoio à Ucrânia. Depois, houve uma segunda notícia de natureza política também interessante esta semana. A Europa está mais unida do que estava o ano passado. Por quê? Orbán já não está em jogo. Orbán já não está em jogo. Mudou o governo na Hungria, mudou a sua política externa.
E a sua posição em relação à Rússia.
E o novo governo da Hungria, esta semana, teve uma declaração verdadeiramente extraordinária. Para além de declarar a Rússia como uma ameaça, diz que a Hungria apoia a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Esse era um dos pontos de Orbán. Como estamos lembrados, uma derrota da Ucrânia permitiria, ou Orbán alimentava a esperança, de recuperar territórios que antigamente tinham feito parte do Império Austro-Húngaro. O reconhecimento pela Hungria da integridade territorial da Ucrânia é também um marco importante a assinalar. Do ponto de vista das coisas menos simpáticas para Zelensky e para o governo ucraniano, é que Mykhailo Fedorov, o antigo ministro da Defesa, não se cala.
Fez umas declarações um tanto polémicas.
E fez declarações muito estranhas. Moscovo aplaudiu, porque Mykhailo Fedorov disse o seguinte: falta a Kyiv um plano de vitória suficientemente claro e a corrupção e a ausência de uma aproximação à parte tecnológica suficientemente forte compromete o futuro da Ucrânia. Extraordinário. O Kremlin adorou isto. Portanto, Fedorov Fedorov anda à procura de apoios de natureza política e vai aos Estados Unidos. É estranho. Fedorov vai aos Estados Unidos. O que é que ele vai à procura nos Estados Unidos? Sabemos que as suas ligações a Elon Musk são fortíssimas. Elon Musk é um dos homens que quer eleições na Ucrânia, irá à procura de apoio do movimento MAGA para uma eventual candidatura presidencial. A verdade é que os ucranianos não estão muito tentados pelas eleições. Reconhecem que um processo eleitoral é uma coisa extraordinariamente difícil de organizar e que vai produzir resultados que não são agradáveis para a Ucrânia, porque vai criar divisões, vai trazer dissensões.
O país agora precisa mais do que nunca de estar unido.
Precisa mais do que nunca de estar unido. E, portanto, Fedorov, uma vez que não conseguiu uma vaga de fundo política no interior da Ucrânia, vai agora procurá-la nos Estados Unidos. Isto é do ponto de vista político. Do ponto de vista económico, a guerra mudou a sua natureza entretanto. A guerra está agora muito mais virada para os sectores de natureza económica, quer por parte da Ucrânia sobre a Rússia, quer por parte da Rússia sobre a Ucrânia. E, portanto, cada vez mais vamos ter que apoiar a Ucrânia do ponto de vista económico. Há aqui um número interessante: desde 2022, os países europeus já entregaram 220 mil milhões de euros para apoio à Ucrânia. É muito dinheiro. Mas qual é a contrapartida? Não entregámos soldados nenhuns. Aqui a defesa da Europa está a ser conduzida pela Ucrânia. Portanto, se nós não queremos enviar soldados, vamos ter que enviar dinheiro. A Ucrânia teve uma prenda de aniversário. Foram desbloqueados 6,1 mil milhões de euros, que estão a ser precisos porque a Ucrânia, para a sustentação do seu sistema militar, tem que produzir equipamentos. Está num ritmo de produção muito forte, mas precisa de financiamento para continuar a produzir os seus sistemas de defesa. Do ponto de vista militar, há duas boas notícias e três notícias preocupantes. As boas notícias são que os ataques em profundidade sobre a economia russa produzem resultados. A avaliação dos resultados é menos visível do ponto de vista das declarações do Kremlin, mas é muito visível nas redes sociais, onde as pessoas não cessam de protestar perante a degradação das condições de vida a que estão sujeitas. Por exemplo, em agosto, e agosto ainda não terminou, a Ucrânia já conduziu 18 bombardeamentos sobre refinarias da Federação Russa, igualando o recorde do mês de julho, que eram 18 também refinarias batidas. Neste momento, a gasolina mais utilizada, que é a A95, não existe em 80% dos postos de combustível do país. E mesmo em Moscovo é muito difícil.
Difícil e caro, não é, general?
É difícil e caro e tem uma repercussão direta na vida das pessoas. Depois, começou o ataque ao comércio eletrónico e às grandes operadoras dos armazéns de distribuição logística. Foi a Wildberries. Entretanto, já foram destruídos quase todos os armazéns da Wildberries e agora passou-se para a Ozone, que é o segundo maior distribuidor de comércio eletrónico, tem 30% do mercado. Outra boa notícia do ponto de vista militar, Andy Burnham ter-se-á comprometido a fornecer a tecnologia que permite fazer o Storm Shadow ou o SCALP, de acordo com os franceses. Isto iria dar à Ucrânia uma capacidade de ataque em profundidade, que ela já tem, mas com níveis de explosivo muito superiores e com precisões também muito superiores. Agora, notícias preocupantes do ponto de vista militar.
E disse que eram três.
A indústria militar russa está a produzir mísseis balísticos a uma velocidade que está acima das próprias metas estabelecidas. Portanto, a Federação Russa está a aproveitar a vulnerabilidade ucraniana, da falta de defesa aérea, para incrementar, aumentar a sua produção de mísseis balísticos e terá contactado a Coreia do Norte para receber também desses mísseis balísticos. A Ucrânia terá conseguido alguns mísseis intercetores Patriot, mas o grande volume que está prometido é só 2027, 2028. Tem 600 prometidos pela Alemanha, apesar de serem de um modelo inferior, é o PAC-2, que exige que sejam disparados mais mísseis.
Mas eles demoram a chegar.
Mas isto é 2027, 2028. Segunda notícia preocupante, há cada vez mais drones Shahed equipados com motores turbojet E estes motores turbojet são chineses. A China está a fornecer ao Shahed uma tecnologia turbojet que permite que eles viaigem a cerca de 450 km/h, o que torna muito mais difícil a sua intercepção. Terceira notícia preocupante: as três cidades fortaleza no Donbass, Konstantinovka, Kromatorsk e Sloviansk, continuam sob uma enorme pressão militar por parte da Federação Russa. Há relatos de que continuam as infiltrações de pequenos grupos de combate da Rússia nestas cidades. Zelensky decidiu reorganizar forças, constituiu dois novos agrupamentos de natureza militar para modificar um pouco a sua estratégia de defesa no Donetsk. Temos aqui, do ponto de vista político, económico e militar, aquilo que são as grandes linhas naquilo que foi um aniversário 35º comemorado sob bombas e com 20% do seu território ainda ocupado.
Olhemos agora para o conflito entre Estados Unidos e Irão, que começou há precisamente, general, seis meses, foi no dia 28 de fevereiro. Donald Trump já tinha anunciado que pretendia apostar no reforço das sanções econômicas ao Irão e que essa seria, para já, o foco da estratégia norte-americana para forçar Teerão a voltar à mesa das negociações. O anúncio destas novas medidas ficou a cargo de Scott Bessent, o secretário de Estado do Tesouro, que as anunciou publicamente esta segunda-feira, no início da semana. E vale a pena olharmos para isto, general. Que medidas foram agora acrescentadas à já longa lista de sanções anteriores?
A situação econômica do Irão degrada-se muito rapidamente. O Rial, a moeda iraniana, neste momento são precisos 2 milhões para comprar um dólar e isso traduz-se numa enorme dificuldade em abastecer o país dos produtos essenciais. A gasolina está a faltar, estranho num país como o Irã, mas produzia petróleo e importava gasolina. E como neste momento não consegue importar gasolina por causa do bloqueio naval, há enormes filas, porque não é possível refinar petróleo suficiente. Scott Bessent foi o homem escolhido, eu chamo-o de supersecretário do Tesouro, para anunciar estas medidas. A sua declaração mostra que houve aqui um estudo aprofundado sobre aquilo que são as fontes de rendimento do Irão e que agora pretendem ser estranguladas. Para sistematizar, vamos dividir em três categorias. Primeiro são os setores de atividade. Os Estados Unidos começaram por estudar as atuais fontes de rendimento do Irão, que são: do ponto de vista tecnológico, do ponto de vista de ativos financeiros, do ponto de vista bancário, do ponto de vista do comércio marítimo, do ponto de vista das ligações aéreas, do ponto de vista das ligações digitais, ouro, que é outro material que o Irão também exporta. Nota-se que houve um estudo sobre quais são as fontes de rendimento do Irão neste momento. Depois, segundo aspecto, as entidades sancionadas. Foram cerca de 60 as entidades sancionadas. Dessas entidades sancionadas, quando olhamos para a distribuição geográfica delas, elas estão muito ligadas à Ásia. Isto é, são empresas da China, empresas de Hong Kong, empresas de Cingapura, empresas da Malásia, mas também há algumas europeias, em França, no Reino Unido e na Grécia. Depois houve mais de 20 pessoas e entidades que foram identificadas como facilitadores para a obtenção de tecnologias sensíveis para a investigação nuclear e mísseis balísticos. Umas são empresas de fachada, com sede fora do Irão, mas que trabalham, sobretudo, para procurar estes produtos que o Irão não consegue obter facilmente no mercado. E depois há também empresários. Há muita gente a ganhar dinheiro com as sanções do Irão. Que empresários são estes? São as pessoas que são os facilitadores das frotas fantasmas que conseguem escoar os produtos iranianos. Carregam os produtos no Golfo Pérsico sob navios que não estão registados ou que não são identificados como pertencendo ao Irão, e assim conseguem, através desta frota fantasma.
Que as mercadorias circulem.




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