De vigilante da imagem a agente de preservação: rascunho para um manual contemporâneo de projeção analógica.

Petra Dominkova, em "Phenomenology of a Projection Booth"

Entre as várias memórias de um estágio na cabine de projeção da Cinemateca Portuguesa, ao longo do frio mês de janeiro de 2011, retive um momento em particular. Numa das minhas primeiras tentativas de projeção, arranquei a máquina, pus a imagem na tela e, sem receber instruções nem ordens específicas (instinto, ou o que me pareceu bom senso, talvez ambos), fiquei ao lado do projetor até o rolo de película concluir o seu percurso.

No fim, o então coordenador de cabine disse-me: "Olha, davas um projecionista". "Porquê?", indaguei. "Ficaste sempre ao lado da máquina durante a projeção, mais atento à fita do que à história do filme, não arredaste pé. E esse é o trabalho de um projecionista".

Trabalho é apenas trabalho, de facto, mas, nos nossos dias, a projeção de cinema analógico revela-se tanto uma atividade técnica como um perfil profissional de cariz muito especializado. A presunção chamar-lhe-ia "algo inato, que se desenvolve com know-how e paixão".

Com a distribuição comercial dominada por equipamentos digitais, as cópias em 16mm, 35mm ou 70mm só são animadas por feixes de luz em cinematecas, arthouses, ou cinemas de repertório. E, face ao atual "confronto silencioso" de suportes e formatos, o projecionista tornou-se tópico de atenção (nem que seja como representante da "arte moribunda da projeção analógica"). Readquiriu uma romantização popular como já não se via desde o Alfredo do "Cinema Paraíso", a comunicação social dedica-lhe tempo de antena, organizam-se ciclos temáticos em seu torno e, em alguns contextos, é profissão que voltou a ser valorizada do ponto de vista administrativo e sindical.

Mas desçamos à realidade. No século 21, o que é ser um projecionista em salas fora do circuito comercial, nas quais se privilegia cinema clássico, de autor, ou pouco conhecido?

Com o seu papel histórico, quase centenário, de peça na engrenagem da distribuição cinematográfica posto de parte, o projecionista converteu-se em agente de preservação da Sétima Arte. Numa cinemateca, ou arthouse, exibir um filme em película de 35mm (ou o que, desde o mais popular John Ford ao mais obscuro Boris Lehman, se define por cópia de arquivo) acarreta um conjunto de práticas, comportamentos éticos e regras.

A cópia, quando chega à cabine, não está pronta a exibir. Antes, existem tarefas de identificação (no mínimo, para saber que aquele é o filme certo!), manuseamento adequado de bobines, verificação do seu estado físico (colagens, encolhimento, ondulação), aferição de especificações técnicas (formato de imagem, tipo de som) e, amíude, visionamento prévio para confirmação da qualidade de projeção (riscos, degradação cromática, qualidade de som).

Nesse trabalho, configuram-se as expetativas de como o filme será apresentado ao público. Mais importante do que isso, delineou-se a conservação e longevidade de uma cópia de arquivo: o projecionista não só já conhece o seu historial de projeção, como possui os dados para garantir que a mesma continue a ser mostrada num futuro a breve, médio e longo prazo.

Do esforço de preservação material, subjaz a preservação da experiência de projeção analógica de cinema. O projecionista será, assim, mais do que o indivíduo que carrega num botão (ou mero "maquinista", como diria um colega).

Deste modo, sugere-se a exigência de um incessante autodidatismo. Não apenas o prático, mas o substantivamente teórico, em prol da compreensão do que se tem em mãos – de quem é a obra a mostrar?; insere-se em alguma circunstância estética ou histórica particular e, se sim, quais os seus atributos?; na dúvida de um formato de imagem, como foram exibidos outros filmes deste realizador? – e de como esse conhecimento impactará, positivamente, a sessão pública. Em suma, projeção e cinefilia não podem ser antónimos.

Toda esta concetualização desemboca no ato da projeção, em sala, aos espectadores. Nesse instante, acontece mais do que quilómetros de película a fluir por carretos, obturador, objetiva e leitor sonoro. Na oferta de uma experiência hoje descrita como "museológica", tão distinta dos projetores digitais do multiplex, o projecionista deve ser ativo vigilante da imagem analógica, num recatado zelo do foco, enquadramento, mudança de máquina... 

Embora escassa, a literatura sobre este tema reforça, geralmente, que o melhor trabalho de projeção é aquele que parece nem acontecer. Hoje, tal como aqui exposto, ser projecionista é encarnar, ainda mais, uma "invisibilidade observável": o público não sentiu os ajustes e as operações técnicas da projeção, a integridade física da película não sofreu alterações, a fruição analógica foi o mais completa possível.

"Olha, davas um projecionista", disseram-me há 15 anos. Nesse espaço de tempo, contam-se cinco anos de atividade contínua nessa profissão, de longas horas em pé a trabalhar na escuridão, de vista cansada pela busca do foco correto, da "maldição" de ir ver um filme e notar detalhes de projeção que ninguém repara.

Mas "esse é o trabalho de um projecionista". É aquele profissional que, simultaneamente, labora para o lazer dos outros e dá a ver cinema da forma como gostaria de o ver: a imagem estava devidamente focada, o volume de som no nível ideal, não houve acidente com a cópia e, após a sessão, nenhum espectador se lembrou de que havia um projecionista nas imediações. O filme está arrumado nas respetivas caixas, deixará a cabine no mesmo estado em que chegou da sua proveniência. E permanece a convicção de que a projeção digital é fácil demais, inclusive desinteressante.

Trabalho de projecionista feito; amanhã há mais.