A sua taça está meio cheia ou meio vazia? Eu gosto de enxergá-la com certa abundância, transbordante, mesmo que algumas informações não colaborem com este otimismo.Também fico apavorado com os clichês. Frases como "o Brasil é a bola da vez para o

A sua taça está meio cheia ou meio vazia? Eu gosto de enxergá-la com certa abundância, transbordante, mesmo que algumas informações não colaborem com este otimismo.

Também fico apavorado com os clichês. Frases como "o Brasil é a bola da vez para o mercado de vinhos" ou que "o mercado internacional de vinhos está de olho no Brasil" podem estar mais vazias que a taça pessimista do primeiro parágrafo, por mais que soem bem aos nossos ouvidos.

Os dados nos ajudam a enxergar melhor. E eles chegam por todos os lados.

Uma pesquisa realizada pela Escola de Enoturismo, situada em Bento Gonçalves, mostrou que um total de 51 vinícolas, espalhadas por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Distrito Federal e Bahia, recebeu cerca de 1,2 milhão de visitantes por ano.

A mesma pesquisa diz que, em média, 34,7% do faturamento dessas vinícolas provém do enoturismo. A depender da dimensão de cada vinícola, a submissão ao turismo pode representar apenas 1% dos ganhos ou até 98%. Os números parecem promissores, mas cheiram a incompletude. É preciso mais tempo para que esses dados tenham bases comparativas.

Deixo aqui o nome das 51 vinícolas que participaram da pesquisa: Adega Chesini, Almadén, Amana, Bonventi, Cainelli, Casa Perini, Chandon, Cooperativa Aurora, Cooperativa Garibaldi, Cordilheira de Sant'Ana, Courmayeur, Cristofoli, Dal Pizzol, Don Giovanni, Face Norte, Floresta de São Pedro, Foppa & Ambrosi, Franco Italiano, Fritzen, Garbo, Gaudio, Geisse, Góes, Guatambu, Guaspari, Hermann, Larentis, Lemos de Almeida, Leone Di Venezia, L'Origene, Madre Terra, Mena Kaho, Merum, Miolo, Monte Agudo, Monte Chiaro, Paraizo, Peterlongo, Salton, Seival, Serra do Sol, Somacal, Terranova, Terra Nossa, Torcello, Valmarino, Viapiana, Vinha Duarte, Villa Triacca, Vinícola Campestre e Vivalti.

No início deste ano, o Ministério da Agricultura informou que o valor de vinho importado pelo Brasil saltou de US$ 468,1 milhões em 2023 para US$ 561,2 milhões em 2025 — ou algo como de R$ 2,42 bilhões para R$ 2,9 bilhões. Um crescimento de 20% em dois anos.

O Chile é o principal fornecedor de vinhos para os brasileiros, com US$ 213 milhões, seguido pela Argentina, com US$ 101,4 milhões; Portugal, com US$ 84,4 milhões; França e Itália nas posições seguintes.

O ano de 2026 também mostra uma tendência de alta para o vinho importado, porém uma busca menor pelo vinho brasileiro, com exceção dos espumantes nacionais. O brasileiro está bebendo mais vinho, mas não necessariamente mais vinho brasileiro.

No mês de julho, a Ideal.BI, empresa de inteligência focada no segmento de vinhos, escreveu um artigo mostrando o crescimento do mercado brasileiro no primeiro trimestre de 2026.

Segundo o relatório, o mercado nacional movimentou R$ 4,18 bilhões neste período, com um recorde de 10,22 milhões de caixas de 9 litros, alta de 12% se comparado com o mesmo período de 2025.

No mesmo artigo, o CEO da Ideal.BI, Felipe Galtaroça, diz que houve uma "retração econômica de 9% no volume" de vinhos mais básicos, enquanto vinhos com valor mais alto "sustentaram o crescimento".

Uma frase escrita por Galtaroça vai ao encontro das minhas singelas pesquisas individuais. O CEO disse que "enquanto o ritmo de abastecimento das lojas seguiu bastante acelerado, o giro real nas gôndolas do varejo alimentar demonstrou sinais claros de acomodação".

Um representante de uma das maiores importadoras de vinhos no Brasil, com alcance nacional, contou-me após um evento que os últimos meses de 2026 foram decepcionantes em vendas. Entre os fatores apresentados por ele, o inverno de 2026 não ajudou tanto quanto o inverno de 2025. E nem mesmo a Copa do Mundo pareceu contribuir com mercado de vinhos. As garrafas, de maneira geral, ficaram estacionadas nas prateleiras.

Nos relatórios divulgados pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho), a produção mundial de vinho em 2025 foi estimada em 227 milhões de hectolitros, um aumento de apenas 0,6% em relação aos números medíocres de 2024 e 9,4% abaixo da média dos últimos cinco anos.

Os números pelo mundo são ruins. Segundo a OIV, a baixa produção está relacionada principalmente aos eventos climáticos extremos que atingiram diferentes regiões produtoras, além da redução da capacidade produtiva em alguns mercados.

Entre 2024 e 2025, a produção de vinhos caiu na França, na Espanha, na Alemanha, em Portugal, na Argentina e no Chile. Mas subiu na Itália (0,7%), na Nova Zelândia (31,5%), na África do Sul (16,2%), na Austrália (8,8%) e, fantasticamente, no Brasil, com 80,6%.

Em números absolutos, o Brasil produziu 1,6 milhão de hectolitros em 2024 contra 2,8 milhões de hectolitros em 2025, abaixo da expressiva marca de 3,2 milhões de hectolitros em 2022.

Sim, eu disse "fantasticamente" sobre o crescimento de mais de 80%, mas é importante ressaltar que este elogio omite um dado importante: a produção brasileira em 2024 foi muito abaixo de sua média, portanto o vultoso crescimento só serviu para colocar o país novamente nos trilhos.

Hoje, o Brasil é o 15º maior produtor de vinhos do planeta, mas muito atrás de países como Itália (44,4 milhões de hectolitros), França (36,1 milhões de hectolitros) e Espanha (28,7 milhões de hectolitros). Porém, a produção brasileira está 15,8% acima de sua média dos últimos cinco anos, perdendo somente para os 22,5% da Rússia quando analisamos os 15 maiores produtores do mundo.