Respirar em Dhaka, em um dia ruim, pode ser equivalente a fumar uma carteira inteira de cigarros. A capital de Bangladesh não é apenas uma das cidades mais densamente povoadas da Terra, com cerca de 40 mil pessoas por quilômetro quadrado: é um retrato vivo dos limites que o crescimento urbano descontrolado pode impor a... The post A megacidade onde respirar em um dia ruim pode equivaler a fumar uma carteira inteira de cigarros appeared first on O Antagonista .

A capital de Bangladesh expõe como industrialização acelerada, trânsito caótico e infraestrutura insuficiente podem levar uma megacidade ao limite.

Metrópole asiática enfrenta graves consequências geradas pelo crescimento populacional desordenado. Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR

Respirar em Dhaka, em um dia ruim, pode ser equivalente a fumar uma carteira inteira de cigarros. A capital de Bangladesh não é apenas uma das cidades mais densamente povoadas da Terra, com cerca de 40 mil pessoas por quilômetro quadrado: é um retrato vivo dos limites que o crescimento urbano descontrolado pode impor a uma metrópole de milhões.

A velocidade média de um carro em Dhaka é de cerca de 7 km/h, ritmo mais lento do que uma pessoa correndo. A cidade perde milhões de horas de trabalho por dia apenas em congestionamentos, e a sensação de caos começa já na chegada, com trânsito paralisante, veículos sem cinto de segurança e ruas que misturam carros, riquixás, bicicletas-táxi e pedestres em uma disputa constante por espaço.

O Índice de Qualidade do Ar coloca Bangladesh entre os países com os piores registros do mundo de forma recorrente. Segundo dados do relatório World Air Quality Report, publicado pela IQAir, o país figura entre os mais poluídos do planeta há vários anos consecutivos. A densidade de edifícios baixos, sem arranha-céus que dispersem a massa de ar, concentra a fumaça, a poeira e os gases industriais diretamente no nível das ruas.

A análise da água em certas áreas revela a presença de substâncias como arsênico, chumbo e cádmio. Mesmo assim, moradores continuam usando os rios no cotidiano: há pessoas se banhando, lavando objetos e crianças brincando na mesma água. Em uma cidade quente, sem espaços de lazer suficientes, o rio segue sendo usado apesar dos riscos evidentes.

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Bangladesh é o segundo maior produtor têxtil do mundo, apesar de seu território relativamente pequeno. Grande parte das roupas consumidas globalmente, especialmente após a migração da produção de fast fashion da China para o sul da Ásia, é fabricada em fábricas concentradas nessa região. Essa densidade industrial, somada à ausência de controle ambiental rigoroso, é um dos motores da contaminação. Os impactos mais visíveis incluem:

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube HiClavero mostrando sua visita ao país mais contaminado de todo o mundo.

Mercados populares funcionam com galinhas em gaiolas, carnes e peixes expostos, e alimentos lavados com água proveniente de rios altamente contaminados. A infraestrutura elétrica acumula cabos em postes e fachadas, muitos expostos ou próximos ao chão, tornando a caminhada desatenta um risco real, especialmente durante as chuvas. Fios, esgotos abertos e estruturas frágeis se misturam à rotina como se fossem parte natural da paisagem.

E ainda assim, a população de Dhaka surpreende. Em meio ao barulho, ao calor e à poluição, moradores param para conversar, oferecem ajuda a estranhos, convidam para comer e orientam turistas perdidos no trânsito. O contraste entre a dureza do ambiente e a hospitalidade individual é talvez o dado mais humano de uma cidade que, nos índices globais, aparece sempre entre as menos habitáveis do mundo.

Dhaka não é um caso isolado: é um espelho do que acontece quando crescimento populacional acelerado, industrialização sem regulação e infraestrutura insuficiente se encontram na mesma cidade. O Banco Mundial estima que mais de 70% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050, e Dhaka já mostra, com décadas de antecedência, quais são os limites desse modelo quando planejamento e investimento público ficam para trás.

Ignorar o que acontece nas ruas, nos rios e no ar de Dhaka é ignorar uma das questões mais urgentes do nosso tempo. Cada peça de roupa barata tem um endereço de origem, e parte desse endereço está submerso em água contaminada.