Artigo critica a indignação seletiva da imprensa brasileira diante de suspeitas de corrupção envolvendo direita, esquerda e governos recentes.

A vida de playboy de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos é, por si só, um fato escandaloso. Foi denunciada pela imprensa? Sim, mas com estrondosa timidez. O 03 não trabalha, só conspira, e mora numa mansão em Southlake, no Texas, numa estrutura de resort. Cadê as capas produzidas para caracterizá-lo como nababo? Cadê a reportagem investigativa para descobrir a origem do dinheiro que o sustenta?

Persistentemente, permanece no nível do “é preciso investigar com cuidado” a teratologia imobiliária dos Bolsonaros, que em três décadas compraram 51 imóveis com dinheiro em espécie, nota em cima de nota, cujos valores atualizados ultrapassam 25 milhões de reais. Por que tamanha aberração não se tornou um grande escândalo de corrupção, ainda que na modalidade de suposição?

E o que dizer da forma quase apaixonada com que a mídia mainstream trata o ex-presidente golpista Michel Temer? O que lhe pesa como suspeita de corrupção mereceria uma dezena de capas de revista em que restaria vestido de presidiário, atrás das grades, e uma dúzia de torneiras jorrando dinheiro público na tela de fundo do Jornal Nacional.

Apesar de ter sido o primeiro presidente no exercício do cargo a ser denunciado formalmente por corrupção passiva, e de ter chegado a ser preso preventivamente, a figura pública de Temer passou por um rápido e eficiente processo de reabilitação midiática. Esse tratamento VIP deve-se a alguns fatores, e o principal deles é que a mídia tradicional compartilha e defende abertamente a agenda macroeconômica implementada por Temer após o impeachment de Dilma Rousseff. Medidas como o Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista e a Lei de Terceirização receberam forte apoio editorial dos grandes jornais.

As pedaladas fiscais que justificaram seu impeachment consistiam em atrasar voluntariamente o repasse de fundos do Tesouro Nacional para bancos públicos para pagar programas sociais como o Bolsa Família. Na prática, os bancos pagavam os benefícios com recursos próprios e o governo os reembolsava depois. A imprensa tratou o mecanismo com forte teor escandaloso, operando uma mudança de tom drástica em relação a episódios anteriores.

Em 2022, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) arquivou a ação de improbidade administrativa contra a ex-presidenta pelas pedaladas. Perícias do próprio Senado e do Ministério Público Federal já haviam apontado que ela não havia cometido ato ilícito doloso. No entanto, o arquivamento judicial do caso recebeu uma cobertura infinitamente menor e mais fria do que o escândalo inicial que pavimentou o impeachment em 2016.