Para líder do Ibram, setor ganha papel estratégico na transição energética e coloca o País diante de uma oportunidade únic
ESPECIAL PARA O ESTADÃO - A crescente demanda por novas formas de geração de energia, criada pelas mudanças exponenciais da sociedade moderna, coloca a mineração como um ator cada vez mais estratégico no cenário global. Para o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, a procura por terras raras e outros elementos fundamentais para a fabricação de produtos de alta tecnologia e de energia limpa coloca o Brasil em posição privilegiada. "O Brasil tem a capacidade de ser protagonista global mais uma vez, e a mineração é uma plataforma para isso", disse ele em entrevista ao Estado.
Isso requererá, segundo Cesário, um esforço do país como um todo e de longo prazo, com investimentos em tecnologia, na indústria, na formação de pessoal e em alterações na legislação que permitam agilizar processos. "A gente está vendo uma onda. A gente pode surfar, pode perder e podemos tomar um caixote. E o que vai diferenciar é o que a gente vai fazer."
Cesário foi um dos palestrantes do Fórum Minério Verde, do Estadão, no dia 20 passado, em São Paulo (assista à íntegra do encontro aqui).
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Tem um número que resume bem o que a gente está passando agora, que é o crescimento que tivemos nos primeiros seis meses deste ano. E é, em geral, o semestre que rende menos, porque tem mais chuva, por exemplo. A mineração registrou um aumento de receita de 8,2%. Isso é um ritmo chinês de crescimento. Na verdade, neste momento, é o ritmo indiano de crescimento.
Isso reflete duas questões. Primeiro, no curto prazo, há uma questão de preços. Os preços das commodities minerais estão mudando porque também estão mudando as percepções, os seus usos e o ambiente em que a gente vive. De um lado, as pessoas perceberam que a mudança para um modelo de produção de energia mais sustentável depende necessariamente da transição de uma matriz predominantemente baseada no petróleo para outra baseada em minerais.
Ao mesmo tempo, isso significa, por exemplo, todos os metais necessários para a eletrificação, para o enfrentamento das mudanças climáticas e para a geração de energia eólica, nuclear e solar. Na verdade, a grande mudança de longo prazo é que a mineração não é mais apenas siderurgia, metalurgia ou indústria química. Agora, é a base da geração de energia. Essa é uma mudança de longuíssimo prazo, daquelas que a gente chama de revolução industrial. É uma mudança de paradigma mesmo. E é o que está acontecendo.
O petróleo, claro, continuará sendo importante, especialmente pela petroquímica, mas o espaço da matriz energética sustentável vem necessariamente da mineração. E, do outro lado, há uma questão um pouco mais conjuntural, mas não menos importante: uma das discussões do mundo inteiro é sobre como funcionam as cadeias de valor.
Acho que a pandemia serviu como um alerta de que nem sempre a gente tem tudo de que precisa na hora em que precisa. Países e empresas estão revisando suas cadeias de valor para garantir aquilo que, em uma palavra bonita, se chama resiliência das cadeias de valor. Isso significa que países que têm credibilidade e estabilidade ganham.
A mineração permitirá ao Brasil assumir um papel de protagonismo no mundo. Porque tem reservas, sabe fazer, é capaz de desenvolver tecnologia e, principalmente, porque olha nos olhos dos países desenvolvidos, mas é um país em desenvolvimento e precisa criar riqueza para as pessoas que estão aqui, a partir das riquezas que estão aqui.
O Brasil tem a capacidade de ser protagonista global mais uma vez, e a mineração é uma plataforma para isso. A gente está vendo uma onda. A gente pode surfar, pode perder e podemos tomar um caixote. E o que vai diferenciar é o que a gente vai fazer. Não é o que os outros vão fazer.
O Brasil é certamente um dos maiores ganhadores, talvez, do fim da hiperglobalização, que leva a reshoring, friend-shoring, nearshoring — o nome vai variar. Isso importa pouco. O que importa é que aquela crença de que haveria sempre uma distribuição imediata dos produtos, ou até uma crença que eu chamo de fofa, porque é ingênua, de desmaterialização da economia, foi por água abaixo.
E não é que o conhecimento não seja importante. É claro que continua sendo importante, mas a economia não se desmaterializa no sentido de que a matéria continua sendo relevante. Isso tem reflexos muito relevantes nos preços, pelas duas tendências.
Veja, por exemplo, as alterações importantes no preço do ouro. Para além do uso industrial ou em joias, o ouro voltou a ser — ou está cada vez mais sendo — comprado por bancos centrais do mundo inteiro como reserva de valor. Estamos falando de mais de 100 toneladas de ouro compradas só por bancos centrais neste primeiro semestre. É uma mudança grande que está apenas começando.
Então, a demanda mudou. E isso você vai ver em outros produtos também. Por exemplo, o preço do cobre aumentou. Há várias mudanças de preços. E isso é curioso porque acontece em um semestre em que o preço do minério de ferro, que é o nosso principal produto e continua sendo, caiu. O minério de ferro sofreu, mas todos os outros mudaram.
Então, quando a gente fala em mudança para o futuro, a mineração está sendo reinterpretada como esse elemento portador de futuro, seja por conta do papel da produção de energia, que passa a depender dela, seja pela aplicação de materiais avançados. E aí vai para tudo: terras raras, tungstênio, vanádio.
Por exemplo, não é possível fazer circuitos eletrônicos de celular sem vanádio, porque ele é uma forma de fazer condução elétrica sem dissipação de calor. É perfeito para a demanda. Então, acho que a gente está em uma mudança de longo prazo, que pode ter, claro, variações ao longo do tempo. Isso nunca é tão linear assim, mas é uma tendência de longo prazo.
Numa visão mais ampla, a mineração acaba sendo um elemento central, o núcleo do que seria uma economia mais inovadora, seja na energia, seja na microeletrônica e em várias outras aplicações.
Veja, como toda atividade humana, e também a geração de energia, há impactos ambientais, sem dúvida nenhuma. A mineração de produtos finais transporta 470 milhões de toneladas de minério todos os anos. Então, tudo é muito grande.
Mas existe um grande avanço na forma de identificar quais são esses impactos ambientais e sociais e como tratá-los. Isso é um mecanismo de que a gente fala em lei, mas é um processo mais amplo de como identificar esses impactos, medi-los e criar medidas de mitigação, ou seja, de redução dos efeitos, ou de compensação, quando eles existem.


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