'A Sina de Ofélia', inspirada em hit da popstar, clona as vozes de Dilsinho e Luísa Sonza e já foi reproduzidas milhares de vezes no rádio, o que pode configurar um crime.

Role, Da BBC News Brasil em São Paulo e LondresPublished 31 agosto 2026Atualizado 28 setembro 2026Tempo de leitura: 14 minAo escutar A Sina de Ofélia, é fácil reconhecer a voz de Luísa Sonza. Logo depois, surge Dilsinho. A popstar e o pagodeiro fazem um dueto improvável, mas convincente. Até você descobrir que nenhum deles cantou essa música de verdade.

A Sina de Ofélia foi produzida com inteligência artificial generativa. Clonaram as vozes dos artistas brasileiros e os puseram para cantar uma tradução para o português de uma música que, na verdade, é de Taylor Swift (The Fate of Ophelia).

Só falta descobrir quem fez tudo isso. A faixa acumula milhões de reproduções nas plataformas de streaming e nas redes sociais, mas sua autoria segue desconhecida — o que é comum no caso de conteúdos feitos com IA.

A Sina de Ofélia foi compartilhada à exaustão no Spotify, Instagram e TikTok. O que quase ninguém parece ter percebido — inclusive os próprios artistas — é que, enquanto fazia sucesso na internet, ela também começava a tocar nas rádios brasileiras, principalmente nas emissoras do interior do país.

Um relatório da Crowley, empresa de monitoramento e auditoria de rádio, feito a pedido da BBC News Brasil, mostra que a música foi executada 3.064 vezes em 47 estações de rádio.

Mas esse número pode ser ainda maior, visto que a Crowley monitora apenas regiões selecionadas, concentradas nos principais mercados publicitários do país — a região Norte, por exemplo, fica de fora. Além disso, o levantamento considera somente as execuções de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.

Ainda assim, não é pouca coisa. A Sina de Ofélia registrou, em alguns meses, um volume de execuções próximo ao que a música mais tocada do país costuma alcançar em uma semana nas estimativas da Crowley.

As execuções, de toda forma, geraram ao menos R$ 50 mil em lucros, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, responsável por arrecadar e distribuir os direitos autorais de execuções públicas de músicas no Brasil — no rádio, na televisão, na internet, em eventos como o Carnaval ou na sonorização de espaços públicos como shopping centers.

O dinheiro está retido. O Ecad informou à reportagem que ainda não sabe o que fazer com os valores arrecadados, já que, em tese, não há um autor a quem os R$ 50 mil possam ser repassados.

É possível que, em algum momento, o valor seja redistribuído entre artistas cadastrados na instituição e que atualmente estejam em rotação nas rádios — o que renderia não mais do que algumas dezenas de reais para cada.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, A Sina de Ofélia pode ser considerada uma fraude, e sua reprodução nas rádios pode configurar crime.

Caso seja descoberto e processado, seu autor pode sofrer sanções civis — como indenização ligadas a perdas financeiras e a danos à imagem dos artistas — e criminais — que podem incluir pena de prisão de até três anos.

As emissoras que estão tocando a música também podem ser punidas, segundo o advogado Guilherme Valente, especialista em direito autoral pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual.

"No rádio, existe curadoria, então há uma responsabilidade maior, porque alguém está escolhendo as músicas que vão ao ar, diferentemente de uma plataforma de conteúdo criado pelo usuário, como os aplicativos de streaming, em que qualquer um pode compartilhar uma música. O grau de responsabilidade é diferente", ele diz.

A reportagem procurou os artistas que foram alvo dessa fraude — Luísa Sonza e Dilsinho, por terem suas vozes clonadas, e Taylor Swift, por ter sua composição e melodia copiadas.

Informalmente, as equipes de Sonza e Dilsinho disseram estar surpresas e afirmaram que nem sequer sabiam que isso estava acontecendo. A faixa, afinal, não está tocando nos grandes centros onde ficam seus escritórios, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Nenhum dos dois, porém, respondeu aos questionamentos da reportagem ou quis gravar entrevista.

A BBC também procurou a Sony Music, gravadora que representa Sonza; a Som Livre, responsável por Dilsinho; e a Universal Music, que representa Swift no Brasil e nos Estados Unidos. Nenhuma das empresas respondeu.

A reportagem também não obteve resposta da rádio que mais reproduziu A Sina de Ofélia, segundo o relatório da Crowley: a Mega FM, de Ribeirão Preto, no interior paulista.

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