Novo estudo com mais de 1 milhão de pessoas joga luz sobre a eterna busca para entender a natureza humana
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Um estudo colossal na revista Nature desvenda a velha questão: a personalidade nasce pronta ou é moldada pela vida? Analisando milhões de pessoas, a pesquisa mostra que o DNA tem um peso menor do que se pensava, derrubando a ideia de que somos ‘pré-determinados’. Descubra como a ciência redefine o que significa ser humano.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Afinal, nós já nascemos prontos ou somos inteiramente moldados pelas experiências da vida? Essa é uma daquelas perguntas antigas que insistem em voltar aos consultórios e às conversas do dia a dia.
De um lado, há quem acredite que a nossa personalidade é uma folha em branco, preenchida conforme o que experimentamos, nossos tropeços e aprendizados no mundo. Do outro, estão os que sentem que tudo não passa de um script biológico pré-determinado, onde cada reação nossa já veio carimbada de fábrica. Em última análise, tentar responder a isso é tentar definir o próprio significado de ser humano.
Essa discussão histórica acaba de ganhar um capítulo significativo com um estudo monumental publicado na revista científica Nature. Para entender o pano de fundo desse trabalho, vale lembrar como a ciência define a nossa estrutura psicológica.
Há algumas décadas, pesquisadores perceberam que a nossa forma de ser pode ser organizada em cinco grandes eixos principais, o chamado Big Five. Pense neles como cinco botões de ajuste: a Amabilidade (empatia e cooperação), a Conscienciosidade (disciplina e foco), o Neuroticismo (instabilidade emocional e vulnerabilidade ao estresse), a Extroversão — que vai muito além de “se dar bem com as pessoas”, tratando-se da nossa busca por estímulos e recompensas sociais — e a Abertura à Experiência, que envolve uma curiosidade ampla pela vida, desde o gosto pela arte até o apetite por desafios intelectuais.
Como já discutimos em uma coluna anterior sobre envelhecimento cognitivo, a forma como esses traços se arranjam ao longo do tempo tem impacto sobre nossa saúde mental e a capacidade do cérebro de se proteger contra o declínio cognitivo.
Mas como os cientistas conseguem medir o peso real do DNA nessa equação? A ferramenta utilizada é o GWAS (Estudo de Associação do Genoma Amplo), uma varredura estatística que cruza milhões de “letrinhas” do código genético com as respostas dos participantes a testes padronizados de personalidade.
Para a nova análise, centenas de cientistas de diversas instituições — com forte presença de universidades americanas e europeias — uniram forças em um consórcio. Eles realizaram uma meta-análise gigantesca (o método considerado padrão-ouro na ciência por integrar e reanalisar estatisticamente o conjunto de dados de múltiplos estudos independentes).
Foram combinadas nada menos que 46 pesquisas prévias, envolvendo, ao todo, entre 610 mil e 1,14 milhão de pessoas por traço analisado, incluindo populações de ancestralidade europeia e africana — um avanço crucial, já que a maioria das pesquisas genéticas do passado focava quase exclusivamente em amostras europeias.
Você pode se perguntar: por que cientistas insistem em reunir e reanalisar essa montanha de dados? A resposta é que o efeito individual dos genes sobre o comportamento é infinitesimal. Só um “telescópio estatístico” desse tamanho, construído pela união de dezenas de pesquisas, consegue separar o ruído da realidade.
O estudo revelou que, mesmo com essa amostra colossal, a genética explica apenas uma fatia muito pequena da nossa personalidade. Além disso, os cientistas encontraram muito mais marcadores genéticos associados a traços como Neuroticismo e Extroversão do que a traços como Amabilidade, mostrando que a biologia não impacta todas as nossas dimensões psicológicas da mesma forma.
A descoberta desmantela qualquer fatalismo biológico e derruba de vez a antiga “hipótese do gesso” — a ideia ultrapassada de que a nossa personalidade “secaria” e ficaria “petrificada” ao entrarmos na vida adulta, por volta dos 20 ou 30 anos.
A ciência demonstra que o ser humano retém uma capacidade contínua de adaptação e mudança ao longo de toda a vida. Diante disso, usar o DNA para prever quem alguém vai se tornar perde o sentido. Michel Nivard, um dos geneticistas por trás do trabalho na Nature, resumiu a questão com brilho: não faz o menor sentido tentar adivinhar a personalidade de alguém olhando para o seu genoma, porque, se você quiser saber como uma pessoa é, basta observá-la no mundo ou simplesmente perguntar a ela.
Nascer com variantes associadas a um alto neuroticismo, por exemplo, não é uma sentença de sofrimento. Significa apenas que o sistema nervoso tem um ponto de partida mais reativo aos alarmes do ambiente. Se essa tendência vai virar um transtorno ou uma maturidade cautelosa, vai depender dos afetos, das escolhas e das experiências vividas.
É aqui que entra a epigenética, mostrando que essa relação é profundamente circular: nossa herança biológica orienta como percebemos o mundo, mas as nossas experiências de vida reagem de volta sobre as células, ligando ou desligando a expressão dos genes e transformando nossa biologia ao longo do tempo.
Investigar isso é tão relevante porque toca no coração da nossa busca por identidade. Queremos entender quem somos para viver melhor, cuidar da saúde mental e respeitar as diferenças individuais.
O estudo da Nature nos lembra de que a biologia nos dá a nossa estrutura física e o nosso centro de equilíbrio, mas o ritmo da dança e a direção dos passos são construídos diariamente na nossa relação ininterrupta com a vida.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora da Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto) e de Longevidade Hoje (Fósforo) e foi consultora da OMS e professora da Universidade Colúmbia e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Siga a colunista no Instagram.



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