Se o cardiologista gaúcho Otavio Berwanger encontrasse o gênio da lâmpada e pudesse lhe fazer um pedido, ele não titubearia: "deixar a pressão arterial de todas as pessoas bem baixinha". Ele me disse isso nos corredores da conferência anual d
Ouvir1×0.5×0.75×1×1.25×1.5×1.75×2×Se o cardiologista gaúcho Otavio Berwanger encontrasse o gênio da lâmpada e pudesse lhe fazer um pedido, ele não titubearia: "deixar a pressão arterial de todas as pessoas bem baixinha". Ele me disse isso nos corredores da conferência anual da AHA (American Heart Association), que começou ontem (6/11) em Chicago. Por que ele não pediria outra coisa? "Porque 12% de todas as mortes do mundo são provocadas pelo aumento da pressão nas artérias", justifica. "Em qualquer país, reduzir seus níveis é o melhor jeito de salvar muitas vidas."
No Brasil, onde 30% da população tem hipertensão, nem se fala. Bom dizer, que essa é uma doença sem o menor preconceito: destrata o presidente da empresa e o trabalhador na roça do mesmo jeito, a incidência é igual em todas as classes sociais.
Não é de estranhar que, quando o médico foi convidado para ser pesquisador no Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, e ouviu que queriam realizar um trabalho que tivesse grande impacto no país, ele não perdeu a chance de planejar o OPTIMAL, que acabou sendo estudo fundador da ARO ( Academic Research Organization) da instituição e que ganhou o apoio do Ministério da Saúde, por meio do PROADI-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde). Isso foi há quase nove anos. O objetivo era ver se um controle bastante rigoroso da pressão arterial para mantê-la baixa (baixa de verdade) afastaria ameaças cardiovasculares.
Hoje, Otavio Berwanger é diretor executivo do George Institute for Global Health e e professor do Imperial College London, no Reino Unido. Mas as duas colegas que chamou logo no início para tocar os estudos no Einstein, a neurologista Gisele Sampaio e a cardiologista Karla Espírito Santo, continuaram firmes na investigação, percorrendo uma longa estrada que foi dar, no dia de hoje (7/11), em duas apresentações lotadas na principal sala do McCormick Place, o maior centro de convenções dos Estados Unidos.
Nos dois estudos OPTIMAL, um com pessoas com diabetes e outro com pacientes que sofreram um AVC (acidente vascular cerebral), ficou bem claro: quem corre maior risco de ter um problema cardiovascular e até de morrer por causa disso, não deveria achar aceitável uma pressão, por exemplo, 130/80 mmHg (milímetros de mercúrio), como dizem os médicos. Ou 13 por 8, como o povo fala por aí. No máximo, a pressão sistólica — o valor mais alto da medição, que representa a pressão do exato momento em que o coração se contrai ao bater — deve ser 12. E olhe lá.
Talvez você, como eu, tenha imaginado que o fluxo sanguíneo, ao pressionar com muita força a parede dos vasos no cérebro, só aumentaria o risco de um AVC hemorrágico, quando eles se arrebentam e o sangue vaza. Mas a médica Gisele Sampaio, líder de ensaios clínicos em neurologia do Einstein, garante que esse é um engano: a pressão elevada também alavanca a ameaça de um AVC isquêmico, quando a passagem da circulação fica bloqueada, deixando os neurônios morrer no sufoco, sem receber oxigênio. E diga-se: oito em cada dez casos de AVC são desse segundo tipo.
"O que a gente não sabia até o momento era se, diminuindo a pressão diastólica para um nível abaixo de 120 mmHg, isso ajudaria a de evitar um novo AVC em quem já sofreu um acidente desses", conta a neurologista. Porque é fato: em matéria de AVC, uma vez que o raio despencou na cabeça, ele tende a cair nela outra vez. Lamento informar.
No estudo OPTIMAL- STROKE, publicado nesta tarde no New England Journal of Medicine, no mesmo instante em que Gisele Sampaio apresentou seus resultados no AHA, foram 4.368 pacientes de 30 centros espalhados pelo país. Todos tinham pressão elevada e ofreram um AVC isquêmico ou um ataque isquêmico transitório, ou seja, uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo no cérebro que se resolveu espontaneamente, mas nem sempre sem deixar marcas. Os participantes foram sorteados. Metade caiu no grupo que recebeu tratamento padrão para ficar com a pressão sistólica não muito abaixo de 140 mmHG , ou seja, 14 por "alguma coisa".
O outro grupo, porém, seguiu um tratamento intensivo, recebendo de cara duas medicações anti-hipertensivas. "Se, dali a um mês, a gente via que a pressão ainda não estava abaixo dos 120, a orientação era acrescentar uma terceira droga", conta a doutora. Segundo ela, grande parte dos pacientes usou medicações disponibilizadas no SUS. E cerca de 70% deles alcançaram a meta, ficando com níveis de pressão arterial baixinhos.
Comparando as duas turmas, acompanhadas ao longo de quase quatro anos, em média, o que se viu foi uma redução de 21% de hospitalizações por insuficiência cardíaca ou angina, aquela dor que vem do coração e que aperta o peito, além infartos, AVCs e mortes provocadas por doença cardiovascular. "A diferença na ocorrência desses problemas entre os dois grupos ia aumentando conforme passava o tempo e, talvez, se o estudo tivesse durado cinco ou dez anos, a redução do risco seria até maior", pensa a neurologista do Einstein.
Para ela — e agora, provavelmente, para muitos dos colegas que tiveram a oportunidade de assisti-la no AHA —, o OPTIMAL-STROKE mostra que uma pressão 13 por 8 para quem já teve um AVC está muito longe de ser boa. "Temos de parar com a história de ver um senhor de 80 anos com um valor de 14 e dizer que, para a idade dele, isso está ótimo", exemplifica.
Aliás, um dos medos de baixar a pressão arterial de idosos é aumentar o perigo de quedas. Mas saiba: no estudo, isso não aconteceu. Ao contrário, os tombos foram mais comuns entre os pacientes mais velhos que ficaram com uma pressão arterial só um pouco abaixo dos 14.
A segunda apresentação, igualmente concorrida no AHA, deu no que falar. Para começo de conversa porque o OPTIMAL- DIABETES, estudo conduzido pela doutora Karla Espírito Santo, líder de Estudos Clínicos Descentralizados e Modelos Inovadores de Pesquisas no Einstein, já é considerado um dos maiores ensaios clínicos já realizados no mundo com pessoas com diabetes tipo 2 e pressão arterial elevada ao mesmo tempo. Ora, foram 9.476 pacientes de 33 centros espalhados pelas cinco regiões brasileiras.
Com eles, foi mesma história: os indivíduos também foram divididos em dois grupos, sendo que, em um deles, a orientação para controlar a pressão foi a padrão, deixando-a perto dos 14, não muito menos que isso, enquanto a outra metade fez um controle intensivo, combinando mais medicamentos para o valor maior da medição não ultrapassar os 12. Porém, infelizmente, a diferença entre os dois grupos foi tímida: 6% dos integrantes que fizeram o controle intensivo passaram por algum perrengue cardiovascular contra 6,7% do grupo que fez o controle como sempre, sem aquela meta ousada de ficar com a pressão sistólica menor do que 12.
"A gente não conseguiu mostrar que o controle intensivo traz benefício para essas pessoas", reconhece Karla Espírito Santo. "Mas também não está claro se não há vantagem alguma", diz ela. Entenda: para provar isso, o estudo precisaria ter um número ainda maior de participantes. Daí que, agora, os resultados OPTIMAL-DIABETES deverá ser somado ao de trabalhos anteriores sobre o tema, com a pesquisadora e seus colegas realizando o que chamam de metanálise. Ao juntar todos os dados, ela aposta que talvez seja possível concluir que a redução no risco cardiovascular fique em torno de 10% ou até mesmo 15% nesses pacientes.
E até lá, o que alguém com diabetes deveria fazer? "Vale conversar com o médico se não seria bom tentar um controle mais intenso, se não houver contra-indicação, como problemas renais", aconselha a doutora. Afinal, reduzir em 10% ou mais o risco de enfrentar um infarto ou um AVC não é pouca coisa.*A jornalista viajou a convite do Einstein Hospital Israelita




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