No caso dos ministros tropicais, eles assumiram papel transgressor. Diante da lei e da cidadania. Ensejando o ridículo na ilegalidade, na improbidade e na corrupção - Rosinei Coutinho/STF Há, na crise moral do Supremo Tribunal Federal (STF), uma dimensão inferior. Risível. Rude. Uma dimensão clown. No teatro Shakespereano (século XVI), os clowns eram atores irreverentes, cômicos. Que buscavam atrair plateia. Em 1590, quando o clown Kemp se juntou à sua companhia teatral, Shakespeare ainda não tinha conquistado a fama que o distinguiu.

A certa altura, a popularidade dos clowns os tornou indispensáveis. Tanto que o autor inglês criou espaço para eles em suas peças. Fossem tragédias, comédias ou peças históricas. Naquela época, o tamanho de uma companhia poderia variar. Aumentando no sucesso. Ou diminuindo nas vacas magras. Mas não faltavam dois ou três clowns. Um deles poderia ganhar mais destaque. Como o criado Lança, da peça “Os Dois Cavalheiros de Verona”. E como sir John Falstaff, da peça “As Alegres Comadres de Windsor”. O fato é que os clowns se tornavam bobos da corte. Parasitas, trapalhões, criados de língua afiada, trapaceiros. Até criaturas encantadas, como o travesso Puck. Despejando sua irreverência na presença de ricos e pobres, aristocratas e plebeus. Entravam a saíam do palco sem prejudicar a trama. Surgiam. E desapareciam. Uma vírgula, talvez. Um traço secundário. Subenredo. Em “Trabalhos de Amor Perdidos”, o subenredo de criados e pedantes intelectuais apequena a pretensão dos nobres. Deixando um cheiro de ridículo no ar. Acabei de reler Shakespeare – “Antes que o mundo acabe” (Fernanda Medeiros e Liana de Camargo Leão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2021). E me surgiu um paralelo entre o drama supremo, que acomete o STF, e as tramas shakespereanas. Entre os ministros tropicais sob investigação e os clowns ingleses. Por que? Por causa do ridículo. O ridículo teatral dos clowns e o ridículo natural dos juízes. Nos clowns, o ridículo é arte. Nos ministros, o ridículo é falta de talento. Nos clowns, o ridículo é saudado com palmas. Nos ministros, o ridículo traz sonora vaia. Nos clowns, o ridículo faz parte da cena. Nos ministros, o ridículo força a barra. Viola a lei e a ética. E desmoraliza os juízes. O porteiro bêbado do castelo de “Macbeth”, imaginando-se guardião das portas do inferno, sinaliza caminho sem volta para o príncipe. Por sua vez, o ministro trêfego, imaginando-se acima da lei, subscreve contrato de milhões. Assinalando desvio sem pudor. Outras vezes, os clowns empregavam seus trejeitos a personagens sérios. Como no caso do vilão de “Ricardo III”. Cujo macabro senso de humor compartilha algo do DNA cômico. Assemelhando-se a perdido espírito evangélico. Que invoca o Senhor nos dias de oração. E o esquece nas horas de relatoria que incrimina aliados.