Ao menos 23 pessoas estão vulneráveis a infecções após uma estudante levar à feira de ciências do Colégio-Curso Tamandaré testes de glicose e aplicá-los em frequentadores do evento sem trocar as agulhas de três lancetas utilizadas no exame. O caso aconteceu no último sábado, em uma unidade da instituição localizada no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Com base em normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, é recomendado que quem foi perfura
Ao menos 23 pessoas estão vulneráveis a infecções após uma estudante levar à feira de ciências do Colégio-Curso Tamandaré testes de glicose e aplicá-los em frequentadores do evento sem trocar as agulhas de três lancetas utilizadas no exame. O caso aconteceu no último sábado, em uma unidade da instituição localizada no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Com base em normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, é recomendado que quem foi perfurado no episódio procure, em até 72h, unidades de saúde para avaliar a necessidade de entrar no protocolo de Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Tendo esta orientação em vista, O GLOBO consultou materiais do órgão e ouviu Tânia Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), para entender como o tratamento funciona em contextos como o do incidente ocorrido no centro de educação.
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Segundo o Ministério da Saúde, a PEP ao HIV, às hepatites virais (B e C) e à sífilis, doenças às quais as pessoas testadas estão sujeitas, consiste no uso de medicamentos para reduzir as chances de adquirir essas infecções após potencial exposição de risco.
Ainda de acordo com a pasta, em casos envolvendo acidentes com fonte desconhecida, como o das agulhas compartilhadas no colégio, a decisão sobre instituir a PEP deve ser analisada individualmente. Para a tomada de decisão, é necessário considerar a gravidade da exposição e a probabilidade clínica e epidemiológica de uma das pessoas do grupo apresentar infecções, tais como prevalência local de vírus ou presença de manifestações clínicas sugestivas às enfermidades.
De toda forma, os expostos às doenças listadas devem procurar atendimento para avaliar a necessidade de aplicação da profilaxia em até 72h, tempo limite para que o desenvolvimento de uma potencial infecção seja impedido. Após o prazo, é possível apenas manter acompanhamento médico para observar se alguma enfermidade surgirá e iniciar o seu tratamento caso haja manifestação.
Profilaxia contra o vírus HIV
A médica infectologista Tânia Vergara considera que, antes de verificar a elegibilidade do exposto à PEP, é preciso fazer o teste de soropositividade para conferir se o acidentado está negativo para HIV. Se o resultado for "não-reagente" e a pessoa avaliada for elegível, um conjunto de medicações, que varia por faixa etária, deverá ser tomado por 28 dias.
— Normalmente, um indivíduo é a pessoa-fonte, ou seja, a primeira onde a lanceta foi usada. Se esta pessoa-fonte tiver teste não reator para HIV e não houve exposição de risco nos últimos 30 dias, não está indicada a PEP para quem foi exposto. Essa avaliação precisa ser individualizada, porque pode haver situações nas quais o teste aplicado seja um negativo durante o período de janela imunológica. Entretanto, no caso do colégio, a mesma lanceta foi reutilizada para pessoas diferentes mais de uma vez. Sendo assim, cada pessoa na qual foi utilizada passa a ser considerada paciente fonte — diz Tânia.
A médica observa também que, caso os acidentados sejam crianças, o risco de contágio por HIV é menor, porque a prevalência de infecção pelo vírus na infância é muito menor que na fase adulta. No incidente do Tamandaré, não foi divulgado o número de crianças e adultos testados; há apenas relatos indicando que, pelo menos, um dos atingidos é adulto.
Para a profissional da saúde, a tomada de decisão do médico que examinará o indivíduo vulnerável deve considerar a gravidade da exposição e a probabilidade clínica e epidemiológica de a pessoa-fonte apresentar infecção pelo HIV, tais como prevalência local do vírus ou presença de manifestações clínicas sugestivas de aids.
— A decisão pela prescrição da PEP não deve ser retardada pela ausência da pessoa-fonte no momento do acolhimento. Os demais critérios anteriormente descritos devem ser considerados caso o resultado da testagem para HIV da pessoa-fonte seja desconhecido. Neste caso, como, ao que parece, não sabem quem é a fonte, o mais acertado, a meu ver, é fazer PEP para todos os possíveis acidentados — afirma a infectologista.
Segundo Vergara, o objetivo da PEP é evitar que o HIV, se estava presente no material relacionado ao acidente, possa se multiplicar. O combate ao vírus é realizado com a administração de três medicamentos antirretrovirais.
— Os medicamentos bloqueiam a replicação viral em diferentes etapas do ciclo replicativo do HIV, antes que ocorra a integração do DNA viral no genoma da célula hospedeira e que se estabeleça a infecção persistente. Ao combinar diferentes mecanismos de ação dos antirretrovirais, o vírus é interceptado em pelo menos dois pontos do ciclo replicativo do HIV, a transcrição reversa e a integração, impedindo que a exposição se converta em infecção estabelecida, desde que a PEP seja iniciada em até 72h após a exposição e mantida por 28 dias — explica a médica.
Profilaxia contra a Hepatite B
O risco de aquisição de hepatite B é ainda mais baixo do que as chances de uma pessoa envolvida no incidente contrair HIV. Tânia considera que, se a pessoa exposta tem vacinação completa e comprovação de imunidade, nenhuma medida específica é necessária. A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS desde o nascimento da criança até a idade adulta, sem restrição de idade para a primeira vacinação, caso não a tenha recebido na infância.
— É provável que todas as crianças expostas estejam imunizadas. Teoricamente, os adultos também deveriam estar vacinados, mas muitos não se preocupam com prevenção, infelizmente. Se não for possível saber o status imunológico do acidentado, se não foi vacinado e/ou não tem anticorpo contra o HBV, há necessidade de aplicação da vacina contra a hepatite B, idealmente nas primeiras 24 horas após o acidente — constata a vice-presidente da SBI.
Profilaxia contra a Hepatite C
De acordo com a infectologista, não há PEP indicada para hepatite C, mas é importante fazer o teste de todos e acompanhar com exames periódicos para poder ser tratado se houver viragem sorológica.
Profilaxia contra a sífilis
Já em observação à possibilidade de a sífilis ser disseminada após o episódio, Tânia considera que a transmissão da doença por objetos pérfuro-cortantes é rara, mas não é inexistente. Sendo assim, a equipe médica que atender a pessoa exposta deverá avaliar a necessidade de antibioticoterapia preventiva.



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