Os mercados financeiros já reagiram ao acordo. O petróleo já caiu. Mas a economia real move-se a uma velocidade muito diferente.
A reação dos mercados ao acordo entre os EUA e o Irão foi imediata. O Brent, principal referência europeia para o petróleo, recuou para 78 dólares por barril, enquanto o WTI, referência norte-americana, desceu para os 75 dólares. Ambos regressaram aos níveis do início de março.
Além desta reação dos mercados financeiros, é preciso perceber quando é que essa descida do petróleo se traduzirá em desaceleração da inflação, reversão da atual política monetária de subida das taxas de juro e, em última análise, num alívio para as famílias e empresas. E para responder a essa pergunta é preciso recuar ao início da crise. Até 28 de fevereiro, data do início do conflito, o Brent negociava entre os 65 e os 70 dólares por barril, enquanto o WTI ligeiramente abaixo. Nessa altura, os mercados descontavam entre um e dois cortes de 25 pontos base das taxas de juro por parte da Reserva Federal ao longo de 2026, enquanto na Zona Euro, a existir algum movimento por parte do Banco Central Europeu, este seria no sentido de uma redução das taxas diretoras.
Tudo mudou com o início do conflito e, sobretudo, quando os investidores se perceberam de que não estavam perante um conflito pontual no Médio Oriente. No final da primeira semana, o petróleo já havia superado os 90 dólares, à medida que o conflito se agravava, aumentava a probabilidade de uma crise prolongada e o Estreito de Ormuz era encerrado, colocando em causa uma das mais importantes rotas energéticas globais. Nas semanas seguintes, o Brent aproximou-se dos 120 dólares por barril. Os receios de uma nova crise energética, semelhante à de 2022, regressaram aos mercados. E, como quase sempre acontece, o petróleo foi o primeiro sinal de alerta para aquilo que viria depois.
Os mercados obrigacionistas reagiram de imediato. Nas taxas de juro de longo prazo, os rendimentos da dívida pública subiram cerca de 50 pontos base tanto nos EUA como na Europa e em todas as maturidades. Ao mesmo tempo, as taxas de juro de curto prazo subiram também, e os investidores passaram de um cenário de descida ou manutenção das taxas para um outro que admitia duas ou três subidas ao longo de 2026, no caso da Zona Euro, dependendo da evolução do conflito e da perceção de risco geopolítico. A inflação regressou. Nos EUA, o índice de preços no consumidor passou de 2,4% em fevereiro para 4,2% em maio. No entanto, a inflação subjacente, que exclui energia e alimentação, aumentou apenas de 2,4% para 2,7%, evidenciando que o principal problema estava centrado no setor energético. Na Zona Euro a evolução foi semelhante. A inflação total subiu de 1,9% para 3,2%, enquanto a inflação subjacente passou apenas de 2,4% para 2,6%.
Perante este cenário, no dia 11 de junho o BCE avançou com uma subida de 25 pontos base nas suas taxas de referência, a primeira desde setembro de 2023. No entanto, evitou comprometer-se com novas subidas, preferindo aguardar pela evolução do conflito e dos preços da energia.
Poucos dias depois, o acordo entre Washington e Teerão começou a alterar significativamente as expectativas dos mercados. A descida do petróleo desde meados de maio acentuou-se nos últimos dias. Atualmente o crude está apenas 10% acima dos níveis anteriores ao conflito. Consequentemente, as expectativas para as taxas de juro também começaram a mudar. Há poucas semanas, os mercados monetários descontavam ainda duas a três subidas do BCE ao longo de 2026. Hoje, essa expectativa reduziu-se para apenas uma. Se a tendência de descida do petróleo se mantiver, até essa última subida poderá desaparecer.
A dimensão política também pode ajudar a explicar a procura de Trump por um acordo para o final da guerra. Em novembro realizam-se nos EUA as eleições intercalares para o Congresso, nas quais estarão em disputa a totalidade da Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Historicamente, os eleitores norte-americanos tendem a “votar com a carteira” e, atualmente, os preços da gasolina estão mais elevados e a inflação agravou-se significativamente. Não surpreende, por isso, que a Administração Trump tenha procurado travar uma escalada militar prolongada, sobretudo quando os custos económicos da guerra começam a tornar-se cada vez mais visíveis para os consumidores norte-americanos.
Todavia, seria um erro concluir que o acordo resolve automaticamente o problema. Em primeiro lugar, porque o atual entendimento não cria oferta de petróleo de forma imediata. Muitas infraestruturas energéticas sofreram danos parciais ou totais durante o conflito e a normalização da produção exigirá tempo. Em segundo lugar, porque a estabilidade alcançada continua a ser frágil. Uma eventual escalada militar envolvendo Israel e o Líbano poderá voltar a colocar o Irão numa posição difícil e comprometer o acordo agora alcançado. Os mercados sabem-no e continuam a incorporar um prémio de risco nos preços da energia.
Além disso, permanecem dúvidas importantes sobre o regresso pleno da normalidade ao Estreito de Ormuz. Não é ainda claro se o tráfego marítimo regressará rapidamente aos níveis anteriores ao conflito, cerca de 100 navios em cada um dos sentidos, nem se os custos dos seguros marítimos e das tripulações dos petroleiros voltarão aos valores pré-crise. Estes custos adicionais poderão continuar a pressionar os preços do petróleo durante algum tempo, mesmo que o conflito entre os EUA e o Irão caminhe efetivamente para o seu fim.
Existem, por isso, dois cenários possíveis.
O primeiro é o cenário de estabilização. O acordo mantém-se, o tráfego marítimo normaliza gradualmente, o preço do petróleo continua a recuar e a inflação energética perde importância. Nesse contexto, os bancos centrais enfrentariam menor pressão para manter políticas monetárias restritivas e o BCE poderia adotar uma postura menos agressiva nos próximos meses.
O segundo é o cenário de rutura. O acordo falha, as tensões regressam e os mercados voltam a recear uma guerra prolongada ou mesmo sem horizonte de conclusão. Nesse caso, o prémio de risco regressaria ao petróleo, a inflação voltaria a acelerar e os bancos centrais seriam forçados a manter taxas de juro elevadas durante mais tempo.
Há ainda questões geopolíticas que permanecem por resolver. O destino das reservas de urânio enriquecido do Irão continua por esclarecer. As tensões entre Israel e o Irão mantêm-se latentes. E a influência regional de grupos como o Hezbollah, o Hamas ou os Houthis continua a representar um fator de instabilidade para toda a região.
Por isso, a principal conclusão é simples. Os mercados financeiros já reagiram ao acordo. O petróleo já caiu. Mas a economia real move-se a uma velocidade muito diferente. Mesmo no cenário mais otimista, serão necessárias semanas ou meses para que os efeitos se reflitam plenamente na inflação, nas decisões dos bancos centrais e no bolso das famílias.
A única certeza que temos hoje é que o acordo reduz o risco. Não elimina a incerteza. E entre as duas existe uma diferença fundamental para quem decide investimentos, define políticas monetárias ou simplesmente abastece o carro todas as semanas.
Mesmo no cenário mais otimista, o acordo compra tempo, mas não resolve imediatamente o problema.

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