Associação considera positivas várias medidas anunciadas por Ursula von der Leyen, mas avisa que a defesa da indústria europeia não pode aumentar os custos...

A indústria metalúrgica e metalomecânica portuguesa considera que a Comissão Europeia identificou no discurso sobre o Estado da União alguns dos principais problemas que estão a pressionar a indústria europeia, mas alerta que a resposta terá de abranger toda a cadeia de valor. Em particular, a AIMMAP manifesta preocupação com o risco de as medidas destinadas a proteger a produção europeia de aço acabarem por penalizar as empresas transformadoras que utilizam essa matéria-prima.

Num comentário ao discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a AIMMAP considera importante o reconhecimento da ameaça representada pela desindustrialização, pelos elevados custos da energia e pela concorrência desleal. A associação diz tratar-se de problemas que “as nossas empresas sentem todos os dias” e que exigem uma resposta europeia “muito mais rápida e eficaz”.

A associação acolhe também positivamente algumas das medidas anunciadas pela Comissão, nomeadamente a maior rapidez na tomada de decisões e na execução, a simplificação, o investimento nas redes energéticas, a diversificação no acesso a matérias-primas e uma atuação mais determinada perante as distorções comerciais.

Mas, para a AIMMAP, permanece uma questão essencial: garantir que as medidas adotadas para proteger a indústria europeia não tornam mais difícil produzir dentro da União Europeia (UE).

“Não podemos proteger a produção europeia de aço através de medidas que encarecem a matéria-prima para milhares de empresas transformadoras europeias e, simultaneamente, permitir que produtos acabados fabricados fora da União entrem no nosso mercado sem suportarem custos equivalentes”, defende Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, em declarações ao Jornal Económico (JE).

Para a indústria metalúrgica e metalomecânica, a questão coloca-se sobretudo ao nível da cadeia de valor. Não será possível construir uma política industrial eficaz “protegendo um elo da cadeia de valor e fragilizando os seguintes”, avisa Rafael Campos Pereira.

A posição surge uma semana depois de a associação ter estado em Bruxelas, juntamente com representantes da indústria europeia do aço, dos metais e de setores transformadores a jusante. Nessa iniciativa, foram colocados simbolicamente à porta da Comissão Europeia caixões representando a capacidade produtiva, o emprego e o conhecimento industrial que, segundo a AIMMAP, a Europa corre o risco de perder.

A AIMMAP também considera necessária uma resposta europeia ao que Ursula von der Leyen designou como o “second China shock”, mas defende que esta deve abranger toda a cadeia de valor industrial.

Campos Pereira alerta para o risco de uma resposta centrada apenas na proteção de determinados setores acabar por produzir um efeito contrário ao pretendido, incentivando a transferência da produção de bens transformados para países terceiros.

“Corremos o risco de combater a sobrecapacidade externa incentivando, dentro da própria Europa, a transferência da produção de bens transformados para países terceiros”, diz.

A defesa comercial é outra das áreas em que a AIMMAP pede uma resposta mais rápida. A associação considera que a Europa precisa de instrumentos eficazes para responder a práticas comerciais desleais, mas defende que estes têm de funcionar à velocidade a que a indústria enfrenta a concorrência.

“Uma empresa não pode esperar anos na preparação e subsequente investigação anti-dumping enquanto perde encomendas e mercado todos os dias”, sublinha.

A AIMMAP chama ainda a atenção para as dificuldades que as próprias empresas enfrentam para recorrer aos instrumentos de defesa comercial. Segundo a associação, estes processos exigem tempo, recursos, informação e custos que podem ser particularmente difíceis de suportar pelas pequenas e médias empresas.

Por isso, a associação defende que uma resposta europeia mais determinada às distorções do comércio e à sobrecapacidade global deve traduzir-se também em instrumentos “mais rápidos, mais acessíveis e menos onerosos” para as empresas.

Na avaliação da AIMMAP, o discurso de Ursula von der Leyen reconheceu vários dos problemas que afetam a indústria europeia, mas o verdadeiro teste estará agora na concretização das medidas anunciadas.

A indústria portuguesa, segundo a associação, não procura subsídios nem proteção face à concorrência. O que pede são condições que permitam às empresas continuar a produzir na Europa de forma competitiva.

Entre as prioridades identificadas pela AIMMAP estão a existência de energia a custos competitivos, o acesso a matérias-primas em condições competitivas, a redução dos custos regulatórios e condições de concorrência equivalentes para os produtos que entram no mercado europeu.

“Se queremos que a Europa continue a produzir, as políticas europeias têm de começar por tornar possível produzir na Europa”, conclui a AIMMAP.

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