O olhar atento e a companhia do porteiro podem fazer a diferença para idosos que moram sozinhos e enfrentam o risco e o medo da solidão
Após uma vida inteira acompanhada, aos 76 anos, Mailde da Silva Cândido experimenta, pela primeira vez, a solitude e a independência de viver só. Depois que os três filhos se casaram, o marido e sua ajudante morreram, a aposentada foi obrigada a encarar uma nova dinâmica. “Agora, sou só eu e o cachorrinho”, conta.
Quando se viu sozinha, Mailde decidiu se mudar para o mesmo prédio onde mora a filha, Lidiane da Silva Cândido, de 45 anos. A aposentada inaugurou a nova fase da vida em um período de fragilidade emocional, quando fazia uso de medicamentos e tentava se adaptar às perdas e à experiência inédita de morar sozinha.
Foi conhecendo os porteiros que o medo de ficar só passou. “No fundo, estou me dando muito bem. Descobri que, se eu precisar de apoio, não fico sem ajuda”, afirma. Quando passou mal e se desequilibrou, foi o porteiro Luiz Carlos Barreto, 45, que a segurou, acompanhou-a até em casa e só sossegou quando Mailde estava sã e salva na própria cama. Há um ano morando sozinha, hoje não passa um dia sem descer no meio da tarde para tomar um cafezinho com a equipe do prédio.
A situação de Mailde é cada vez mais comum em uma sociedade que está envelhecendo rapidamente. Há idosos que escolheram preservar a própria independência, outros que passaram a viver sós depois da morte de familiares ou de mudanças na configuração da família.
As trajetórias são diferentes e não significam, necessariamente, solidão ou falta de autonomia. Em comum, os idosos independentes podem contar com o olhar atento dos porteiros.
A relação pode aparecer em situações simples, como ao carregar as compras ou o cumprimento ao chegar ao prédio, mas ganha outra dimensão quando alguém percebe uma mudança de comportamento, uma ausência incomum ou a necessidade de ajuda.
Para idosos que moram sozinhos, saber que existe uma pessoa conhecida a poucos andares de distância pode representar companhia e até uma sensação maior de segurança, sem retirar a independência de quem escolheu continuar vivendo na própria casa.
Muitas vezes, um “boa noite”, ou escutar o próprio nome, é suficiente para que o idoso que mora sozinho se sinta parte da comunidade ou perceba que sua falta e presença são notadas. As relações, mesmo as menores e mais simples, também são essenciais para garantir o envelhecimento feliz, saudável e seguro.
Os idosos modernos montam suas próprias redes de apoio, que incluem familiares e amigos para garantir companhia mesmo quando a rotina se limita ao lar. Mas, quando a situação aperta, os olhares atentos da portaria podem fazer a diferença.
Em prédios cada vez mais cheios de idosos, como o de Mailde, os porteiros passaram a prestar atenção extra no ir e vir dos moradores. Aos 83 anos, Katy Cox começa os dias cedo. A primeira companhia da manhã é Sunny, a cachorrinha com quem costuma sair para caminhar. A rotina é tão conhecida pelos funcionários do prédio onde vive que bastou Katy não aparecer no horário habitual para que Luiz e outro porteiro percebessem que algo estava fora do padrão.
Telefonaram, nada. Interfonaram, nada. Finalmente, bateram à porta da aposentada. Katy estava bem: naquela manhã, tinha só dormido além do horário de costume. “Achei ótimo que alguém veio ver se eu estava bem”, afirma.
Essa não foi a única vez que a aposentada precisou de seus amados porteiros. Com frequência, ela se encontra com as amigas debaixo do prédio. Um dia, Luiz viu pelas câmeras que Katy estava passando mal na lateral do edifício. Saiu correndo, chamou o Samu, socorreu a idosa e a levou de volta para casa.
Assim, criou-se uma relação de amizade. Além de pedir para o porteiro ajuda com pequenas necessidades domésticas, os dois conversam sobre questões pessoais e Katy sabe que pode procurá-lo se precisar de ajuda.
A norte-americana mora no mesmo prédio há 26 anos, mas estima que vive sozinha há 50. Ela chegou ao Brasil em 1971 para trabalhar como professora, contra sua vontade, por apenas um ano. Ficou para sempre. “Aqui, as relações são mais do que cordiais. Você realmente tem amizades que valem para a vida toda”, resume.
O círculo vicioso da solidão Um dos principais riscos que correm os idosos que passam a morar sozinhos vai além do socorro imediato se algo der errado com a saúde. Especialistas alertam que é preciso ficar atento à chance aumentada de se sentir muito só.
Apesar de as perdas virem com o passar dos anos, com a viuvez, a aposentadoria, a perda/morte de amigos, as limitações de mobilidade e a redução das oportunidades de interagir, a solidão não é algo natural do envelhecimento.
De acordo com um relatório divulgado em junho de 2025 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada quatro idosos no mundo vive em algum grau de isolamento social, e 11,8% experimentam solidão. A situação é mais complicada entre as mulheres. Segundo o documento, 13% das idosas sentem solidão, enquanto a proporção fica em torno de 9,9% entre os homens.
“Uma pessoa que vive sozinha e tem poucos vínculos sociais pode, aos poucos, reduzir suas atividades. Ela sai menos de casa, caminha menos, participa menos da comunidade e para de realizar atividades que antes faziam parte da sua rotina. Isso pode contribuir para um ciclo de maior isolamento, redução da mobilidade e perda de independência”, explica a fisioterapeuta Isabela Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
A solidão vai além de estar fisicamente sozinho – é possível morar em uma casa cheia de gente e, mesmo assim, sentir-se só. O problema é quando o sentimento se torna persistente.
A psicóloga Daiane Meregalli Schütz, que escreveu uma tese de doutorado sobre a relação entre estilo de vida, saúde mental e solidão em idosos durante a pandemia, ensina que é preciso prestar atenção na solidão que é persistente, intensa e indesejada.




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