Uma medida paliativa ataca o preço do carro importado. Uma política industrial ataca a razão de o carro nacional continuar caro

Dizer que reduzir o imposto de importação do carro elétrico beneficia o consumidor é verdade. Da mesma forma que é verdade que um analgésico alivia a dor de cabeça. O ponto é que aliviar o sintoma não é tratar a causa.

O debate precisa ir além do ganho imediato de acesso a um veículo importado mais barato. A pergunta mais importante é outra: o que o consumidor perde quando o carro produzido no Brasil fica mais caro do que o que chega de fora?

Num artigo anterior, escrevi que o futuro do setor automotivo brasileiro não pode vir de navio. Agora, o debate avança um passo, afinal, não basta diagnosticar o problema. É preciso discutir a solução.

Hoje, os carros de entrada produzidos no Brasil custam algo próximo a 50 salários mínimos. Em muitos casos, quase metade desse valor é composta por tributos. A carga sobre veículos nacionais oscila entre 37% e 43% do preço final e pode passar de 48% quando todos os encargos entram na conta. Para comparação, nos Estados Unidos, esse peso está em torno de 7,5%. Na Alemanha, 19%.

Então, sim, o carro é caro. O consumidor sente. A conta não fecha.

Mas a solução não está em abrir espaço para que carros produzidos fora entrem mais baratos, enquanto o produto nacional continua sufocado por um ambiente de custo hostil. Isso pode até ampliar o acesso no curto prazo. O problema é o que acontece depois.