Nesta entrevista durante passagem pela Bienal do Livro de SP, a criadora dos quadrinhos que originaram série da Netflix comenta críticas à trama, a escolha de encerrar a história, sua relação complexa com a internet e dá pistas sobre seus próximos livros
Alice Oseman está pronta para fazer uma pausa. Antes, porém, ela vai viajar boa parte do mundo para conhecer leitores devotos que a acompanharam nos últimos dez anos criando os quadrinhos de Heartstopper - primeiro, uma webcomic bem-sucedida; depois, um fenômeno editorial; por fim, uma série de sucesso na Netflix.
Uma das paradas desta turnê foi na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde Alice participou de mesas de debate e sessões de autógrafos lotadas nos dias 5 e 7 de setembro. Seus leitores muitas vezes carregavam leques com as cores do arco-íris, bandeiras LGBT+, tatuagens em sua homenagem e lágrimas nos olhos.
Era um sinal do carinho que ela adquiriu ao criar uma história sensível sobre dois adolescentes, Nick e Charlie, se apaixonando e enfrentando os desafios de crescer como parte da comunidade LGBT+. Seus leitores mais fiéis também se apegaram a romances como Rádio Silêncio, Sem Amor e Um Ano Solitário, em que ela explora temas como solidão, saúde mental e assexualidade, orientação sexual com a qual ela se identifica.
"Os fãs brasileiros são muito apaixonados, muito barulhentos, mas todos muito agradáveis. Conheci muitos leitores incríveis. As mesas foram muito divertidas. O tamanho me surpreendeu. Foi enorme. Eu não estava esperando um público tão grande", disse ela ao Estadão, numa conversa em um final de tarde após sua segunda participação no evento paulistano.
Se Alice não esperava tamanha comoção, o público provavelmente já sabia. É possível que a escritora demore a participar de eventos como esse por algum tempo. Ela veio ao Brasil para divulgar o sexto e último volume de Heartstopper, que chegou às livrarias pela Seguinte quase ao mesmo tempo em que a Netflix lançou o filme que encerrou a trama nas telas, depois de três temporadas em série. (No Brasil, os romances de Alice Oseman são publicados pela Rocco; as HQs, pela Seguinte).
É o fim de um ciclo pelo qual Alice, aos 31 anos, sente muita gratidão. Ao mesmo tempo, ela está pronta para novas aventuras, especialmente com histórias voltadas para um público mais velho, mais próxima da idade que hoje ela tem. É o que a autora disse ao Estadão nesta conversa, na qual falou sobre o fim de Heartstopper, as críticas que enfrentou ao longo da história, sua relação complicada com a internet e o que o futuro reserva para ela.
A conversa foi editada e condensada para melhor compreensão.
Não necessariamente que duvidavam, mas sempre me frustrou um pouco que essa era a única coisa que as pessoas queriam falar. Eu estava muito animada para falar sobre o livro que eu escrevi, que era Um Ano Solitário [publicado quando ela tinha 19 anos], mas a maioria das entrevistas que eu fiz foram sobre a minha idade e o quão louco aquilo era. É legal que eu pude dar essas entrevistas, de verdade, mas naquela época eu só queria falar sobre o livro.
Aumentei a minha autoconfiança, o que é provavelmente uma parte natural de ficar mais velha. Mas principalmente porque eu trabalhei em uma série de TV e tive que trabalhar com muitas pessoas diferentes e estar em um papel de liderança, isso definitivamente me ajudou a melhorar a minha confiança como pessoa.
Sinceramente, qualquer história de alguém que diga que Heartstopper o ajudou a descobrir sua identidade ou a superar um momento difícil. E também de pais que dizem: 'Heartstopper me ajudou a entender um pouco melhor meu filho'. Qualquer coisa assim é simplesmente maravilhoso.
Acho que pessoas de qualquer idade podem se identificar com as jornadas LGBT+ da história, que é sobre amor, amizade e comunidade. São todas coisas que, não importa a sua idade, você ainda pode encontrar. Além disso, também tem as pessoas que estão lendo e se sentem inspiradas a relembrar a própria infância e adolescência e pensar no que poderia ter acontecido ou como foi a experiência delas.
Não sei se me sinto assim porque não faço parte da geração Z. Infelizmente, sou da geração millenial. Quando era mais nova, quando eu estava começando Heartstopper ou meus primeiros livros, eu estava bem próxima da vida adolescente. Eu tinha acabado de virar adulta. Agora, estou na casa dos 30, então não estou tão próxima disso. Fico feliz que as pessoas ainda sintam que é algo com que se identificam e com o qual conseguem se conectar, mas definitivamente não sinto que eu esteja tão por dentro de como é a vida adolescente hoje em dia, em 2026.
Acho que sempre fui assim na internet. Cresci na internet e sempre tive uma relação muito próxima e aberta com meu público, na qual compartilho bastante sobre minha vida. Preciso dessa conexão. Gosto dessa conexão e de poder conversar com os leitores. Sei que muitos autores ficam felizes em lançar seus trabalhos e simplesmente desaparecer, mas eu realmente gosto de me comunicar com os leitores. Parecia natural compartilhar o que está acontecendo na minha vida e em que ponto estou na minha jornada criativa.
É bem difícil, para ser sincera. Ainda não sinto que consigo lidar muito bem porque, quando algo atinge um certo nível de popularidade, sempre vai haver uma parte muito barulhenta e negativa da internet. É difícil encontrar as partes boas sem também ver as ruins. Eu só tenho que tentar ignorar isso, mas é muito difícil e não sou muito boa nisso.
Sim, com certeza. Acho que ainda mais nos últimos tempos. Dez anos atrás, a internet era simplesmente mais divertida. Havia menos coisas horríveis facilmente acessíveis. Hoje em dia, é difícil até mesmo encontrar lugares online onde você pode só se divertir e conversar com as pessoas de um jeito legal. Tem tanta coisa horrível, mas também muita porcaria. É uma pena porque, como eu disse, eu cresci na internet. Usei o Tumblr durante toda a minha adolescência e me diverti muito lá. Aprendi muito e descobri muitas coisas, mas agora é bem diferente.
Estou passando por algo parecido, porque não uso nem posto nada no X há uns três anos. Mas ainda dou uma olhada, porque tem uma comunidade de fãs de Heartstopper tão legal lá. Gosto muito de ver essas postagens das pessoas, mas também tem muitas outras coisas horríveis por lá. Não quero excluir a conta porque adoro aquela pequena comunidade de Heartstopper, mas está chegando ao ponto em que você só precisa fazer isso.
Acho que o fato de ser de acesso gratuito é, em primeiro lugar, muito útil para adolescentes LGBT+. Muitas vezes, eles não têm condições financeiras de comprar seus próprios livros. Mas também o fato de ser gratuito é um dos principais motivos pelos quais as pessoas descobrem Heartstopper. Manter a obra disponível online gratuitamente, na verdade, ajuda mais pessoas a conhecer a história. Tive muita sorte de todas as minhas editoras terem entendido isso e terem apoiado essa iniciativa.
Eu diria que esse foi o maior desafio na produção de Heartstopper. Para mim, trata-se de decidir quando mostrar certas coisas e quando não mostrar. Quando você está explorando algo que pode ser bastante perturbador ou difícil de assistir, como um transtorno alimentar, por exemplo, mostrar demais pode só fazer com que a história pareça muito gratuita e deprimente. Algumas histórias são feitas para serem mais sombrias, mas Heartstopper sempre teve como foco a esperança e o otimismo.
É, com certeza. Isso me deixou confusa porque não é assim que eu vejo Heartstopper. É uma visão muito superficial do que Heartstopper realmente é. No fim das contas, tento não dar importância a essas opiniões porque o que realmente importa para mim são os fãs que se importam de verdade e entendem a história.
Mas, sim, é interessante. Essa foi uma reação realmente enorme a Heartstopper, mas acho que teve muitas coisas sobre as quais as pessoas não falaram. Por exemplo, na primeira temporada da série de TV, há muito bullying. Charlie passa por um relacionamento tóxico. As questões de saúde mental. Essas são todas coisas sobre as quais as pessoas realmente não falaram.




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