Alinne Moraes detalha sua trajetória, a polêmica personagem Vanessa e compartilha reflexões sobre maternidade, beleza e suas escolhas
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Vanessa é uma mulher de certezas. Vestida de branco, com batom vermelho e mechas loiras, ela defende que pobres não deveriam ter filhos. A empresária sabe que criar uma pessoa não é barato e, na lógica dela, há quem possa pagar essa conta e quem deveria ficar de fora. Vanessa foi escrita para ser uma vilã. Para surpresa de Alinne Moraes, que a interpreta na novela Por Você, parte do público não a enxerga assim.
“Pensei que ia existir uma repulsa sobre essa frase, mas concordaram com ela. É como se o dinheiro mandasse nos sonhos das pessoas ou todo rico tivesse condições, vocação, para criar uma criança”, reflete a artista. “As pessoas se identificam mais com a elite do que com a maioria da população, da qual, geralmente, elas próprias fazem parte.”
Alinne olha nos olhos. Mesmo pela tela do computador, nada foge de seu alcance. A atriz está se recuperando de um terçol e, numa das raras brechas de uma agenda disputada, distribui os sorrisos que a tornaram íntima do público brasileiro.
“Mocinha ou vilã faz de dez a doze horas por dia, de segunda a sábado, e decora 30 páginas para a manhã seguinte”, explica a rotina atribulada. “Às vezes, eu dou uma chorada para poder espairecer, porque, depois de doze horas de trabalho, não entra mais nada de texto. Eu realmente preciso chorar para aliviar o corpo.”
Não é à toa que Alinne sai de casa seis vezes por semana, passa metade do dia gravando e empresta a voz a uma personagem com quem não concorda. Aos 43 anos, depois de três décadas de sucesso diante das câmeras, ela pode se dar ao luxo de escolher seus trabalhos. E escolheu Vanessa porque quer criar discussões. “Logo que li o roteiro, entendi que ela faria o espectador pensar, e provocar debates é o mais importante.”
Faz sentido dada a variedade de mulheres que ela já levou à TV. Alinne fez de Clara, em Mulheres Apaixonadas, a primeira personagem lésbica aceita na televisão; em Além do Tempo, encontrou a alma de duas mulheres doces e corajosas, separadas por vidas diferentes; em Duas Caras, levou um papel que nasceu comum a ser o grande nome da novela.
Ao deixar de ser Alinne e se entregar às personagens, com todas as suas falhas e dores, a atriz encontra uma maneira de provocar o espectador. Nenhuma, porém, fez o Brasil se emocionar tanto quanto Luciana, de Viver a Vida.
A modelo que depois de um acidente se tornou tetraplégica mobilizou o país a acompanhar, capítulo a capítulo, a reconstrução de sua vida. “25% da população têm algum tipo de deficiência. Onde estão essas pessoas? A gente não as enxerga”, comenta a atriz.
Para ela, a trajetória de Luciana, da revolta após o acidente à não aceitação, passando pelo desejo de morrer até a descoberta de um novo sentido para a vida, foi também uma experiência de transformação. “É uma morte e um renascimento”, diz. “Pude me aperfeiçoar também como atriz. Por muito tempo, a personagem não tinha nenhum movimento. Eu só tinha o meu olhar para contar essa história.”
Antes de emprestar o corpo a mulheres tão diferentes na dramaturgia, Alinne teve em casa duas grandes referências. Sua mãe engravidou na adolescência e, durante a infância da filha em Sorocaba, interior de São Paulo, conciliava o trabalho com os estudos. “Quando acordava, ela não estava em casa. Quando ia dormir, também”, lembra.
Quem cuidava da menina era a avó, benzedeira, cuja porta de casa costumava receber filas de pessoas à espera de uma bênção. “Ela tinha um olhar molhado, um olhar para o mundo. Ela me ensinou a enxergar o outro”, pontua.
Da mãe, Alinne herdou a determinação. “Durante anos, eu a vi como uma irmã mais velha. Mas ela me deu a firmeza necessária para eu desejar ser uma mulher independente, sair de casa e seguir meus sonhos. É como se ela me preparasse para guerrear”, diz. “Fui criada por duas mulheres. Desde sempre, tudo me pareceu possível.”
Aos doze anos, começou a trabalhar como modelo. Seu primeiro cachê, por uma campanha da Ellus, equivalia a dez vezes o salário da mãe, que vendia produtos Avon e doces de porta em porta. A carreira a levou ao Japão, à Espanha, à Alemanha, aos Estados Unidos e à França. Na adolescência, comprou a casa da família.
“Foi uma conquista, mas também deixei de lado parte da minha infância”, reflete. “Nos momentos em que não trabalhava, me juntava com algumas modelos da mesma idade e ainda brincávamos de boneca.”
Aos 17 anos, na volta de uma temporada em Paris, foi chamada para um teste na Globo. Pediram que contasse sua história, e Alinne se emocionou ao falar sobre ter sido criada por uma mãe solo.
O diretor Ricardo Waddington, então, disse: “Vou te entregar um papel que tem tudo a ver com a sua história. É uma adolescente que mora em uma república e se torna mãe solteira. Acho que a arte pode ajudar nessa compreensão da sua vida. Talvez você tenha coisas para trocar com a gente, com o público”.
Enquanto chorava, Alinne falou: “mas eu não sei fazer isso, nunca fiz isso na minha vida, eu não sou atriz’”. Ricardo respondeu: “eu sei, eu conheço, tenho certeza de que você é atriz.”
Quando a novela Coração de Estudante foi ao ar, a artista descobriu que o diretor estava certo. “Senti na hora que sabia fazer aquilo, que falava a mesma língua dos atores.” Embora tenha conquistado seu espaço também no cinema, no teatro e nas séries, as novelas continuam ocupando um lugar especial em sua trajetória.
“Novela é um patrimônio que a gente tem. O papel da novela é fazer a sociedade se questionar, enxergar coisas para as quais, às vezes, a pessoa ainda não está preparada”, diz. Mas reconhece as dificuldades que o formato enfrenta, com tantas possibilidades de entretenimento, do streaming às redes sociais. “A gente precisa reconquistar o público, deixar de fazer novela com a pretensão de ser cinema ou série. A gente gosta do novelão.”




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