Presidente americano promove virada na política externa com endossos públicos, apoio financeiro e ameaças de sanções

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19.set.2026 às 23h00

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Ana Luiza Albuquerque Repórter de Política, é mestre em Jornalismo Político pela universidade Columbia (EUA) e autora do podcast Autoritários

[RESUMO] Neste seu segundo mandato, o presidente Donald Trump vem promovendo uma transformação na política externa dos EUA ao tentar, de forma velada ou mais explícita, influenciar eleições pelo mundo, sobretudo na América Latina. Essa reedição da Doutrina Monroe, em versão século 21, busca afastar a China da região e garantir o predomínio norte-americano. No caso brasileiro, sucessão de tarifaços, declarações dúbias de Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causam apreensão sobre risco de interferência na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

Pressionado diante da divulgação de trocas de mensagens suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes argumentou que o relatório apresentado pelo colega André Mendonça, que trouxe à tona as novas informações, foi uma "farsa" produzida "com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro", para interferir nas eleições que se aproximam.

Independentemente da intenção de Moraes com essa acusação, ela revela o fantasma que assombra o pleito brasileiro desde muito antes do início oficial da campanha: a possibilidade de escalada da interferência do governo Donald Trump para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) e prejudicar o presidente Lula (PT).

Em outubro do ano passado, durante as negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de "dissidentes políticos" nas eleições presidenciais de 2026, como revelou nos últimos dias o jornal O Estado de S. Paulo.

A grave crise no Supremo, que engoliu o debate eleitoral a poucas semanas do primeiro turno, agora serve como pretexto para que o governo americano considere novamente sanções a autoridades brasileiras, como mostrou a Folha.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), autoexilado nos Estados Unidos, tem trabalhado por isso, enquanto Flávio e aliados aproveitam o episódio para mobilizar o eleitorado, buscando reforçar a alegada associação entre Moraes e Lula.

Na última semana, Eduardo disse a jornalistas em Washington (EUA) que se encontrou com autoridades do alto escalão do governo americano e relatou a elas ver, entre ministros do STF, sinais de uma tentativa de construção de uma justificativa para contestar eventual vitória do irmão.

Na última terça-feira (15), o governo Trump afirmou em relatório enviado ao Congresso americano que o Brasil "falhou em confrontar" o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), classificados em maio pelos EUA como organizações terroristas a despeito da contrariedade do governo Lula.

Ao longo do último ano, instituições da sociedade civil e o entorno do petista monitoraram com preocupação a possibilidade de interferência americana —o que alçou o tema da soberania nacional a um dos eixos principais da campanha—, mas não se chegou a um diagnóstico preciso a respeito de quão longe Trump está disposto a ir.

Nesses grupos, circula a avaliação de que os trumpistas também calculam se uma intervenção mais explícita a favor de Flávio poderia, na verdade, prejudicá-lo diante do eleitorado.

Para esses interlocutores, é grande a possibilidade de que, se Lula for eleito, Trump e aliados disseminem informações falsas sobre o processo eleitoral brasileiro, como aconteceu em 2022. Não é descartada, sequer, a chance de que o país não reconheça uma eventual vitória do petista, ainda que essa seja uma ação mais custosa em termos diplomáticos.

Relatório produzido pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) sobre "ameaças ao processo eleitoral de 2026", como noticiou a coluna Mônica Bergamo, elevou a possibilidade de influência e interferência externa dos EUA nas eleições a um "nível de criticidade".

Do outro lado, bolsonaristas exaltam uma eventual ação do americano. Em comício de Flávio Bolsonaro no mais recente 7 de Setembro, na avenida Paulista, apareceu na multidão um enorme boneco inflável de Trump segurando um "pixuleco" de Lula com roupa de presidiário. Embaixo, liam-se os dizeres, em inglês, "Trump, liberte o Brasil".