Segundo analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, apesar do menor desmatamento em quase 40 anos, queimadas avançam na região, com El Niño agravando a seca e dificultando o combate aos incêndios

Os focos de calor na Amazônia registraram um aumento de 64% em relação ao mesmo período do ano anterior. O dado chama atenção justamente por ocorrer em um ano em que a Amazônia Legal registrou seu menor índice de desmatamento em quase quatro décadas, evidenciando que desmatamento e queimadas são problemas distintos, com dinâmicas e formas de enfrentamento diferentes.

Para o analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, ao Live CNN, o cenário atual tem uma característica muito particular: a forte influência do El Niño.

"Nós estamos sob a influência de um El Niño muito forte e que está em progressão", afirmou. Segundo ele, a perspectiva é de que o fenômeno atinja seu nível máximo entre dezembro deste ano e janeiro do próximo.

Pedro Côrtes explicou que o El Niño provoca uma redução significativa da umidade proveniente do Oceano Atlântico que normalmente chega até a Amazônia. Com isso, a floresta — naturalmente úmida — passa a ficar muito seca, o que facilita a propagação dos focos de incêndio.

"Há uma contribuição significativa do clima. Não que o clima sozinho responda por todos esses focos de incêndio, mas ele acaba facilitando a propagação dos focos, sejam criminosos ou não", destacou.

Além de favorecer a propagação das chamas, a seca também compromete diretamente as operações de combate aos incêndios. Pedro Côrtes apontou que há uma redução no nível da água em igarapés e rios, o que dificulta tanto a locomoção das equipes — que dependem das hidrovias para se deslocar em diversas regiões — quanto a disponibilidade de água para o combate.

"Ela, ao mesmo tempo que é uma situação climática que facilita a propagação, ela também dificulta o combate", resumiu.

De acordo com dados oficiais, os focos de incêndio estão atualmente concentrados na parte leste da Amazônia. O vento que sopra do oceano leva a fumaça produzida por esses incêndios até Manaus.

Manaus (AM) figura nesta quarta-feira (21) como a cidade com a pior qualidade do ar no Brasil, seguida por Rio Branco (AC) e, na sexta posição, Porto Velho (RO) — todas na região Norte do país. Dois dias antes, Belém (PA) estava entre as cidades mais poluídas do país.

"Várias cidades da região Norte do Brasil sempre aparecem com a pior qualidade para respirar", concluiu, destacando a ligação direta entre os dados e as queimadas na região.