Alguns dos compromissos que os iranianos teriam assumido não aparecem no memorando de entendimento e os dois lados dão versões diferentes dos termos acordados

Compartilhar matériaDesde que divulgou, na semana passada, um memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês) que parecia amplamente favorável ao Irã, o governo Donald Trump vem afirmando repetidamente que Teerã concordou com outras concessões importantes nas negociações em andamento.

O problema é que nenhuma dessas concessões apareceu no acordo provisório e o Irã continua negando-as.

E, considerando os conhecidos problemas de credibilidade do próprio governo Trump, não está nada claro em quem confiar.

O maior exemplo surgiu na manhã de terça-feira, quando o presidente Donald Trump fez a grande afirmação de que o Irã já concordou com inspeções nucleares abrangentes e permanentes.

“O Irã concordou total e completamente com inspeções nucleares do mais alto nível por um longo período no futuro (para sempre!!!)”, escreveu ele na Truth Social. “Isso garantirá a ‘Honestidade Nuclear’. Se eles não tivessem concordado com isso, não haveria mais negociações!”

Da mesma forma, o vice-presidente JD Vance afirmou em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, na Suíça, que houve um “marco importante”. Segundo ele, o Irã concordou em permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Mas o Irã rejeitou a ideia de que tenha havido qualquer avanço significativo nessa questão.

Em vez disso, afirmou que seu trabalho com a AIEA, agência de monitoramento nuclear das Nações Unidas, continuará “sob os procedimentos atuais”.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que o país não concordou em permitir que inspetores examinassem suas instalações nucleares fortemente danificadas e que não assumiu “nenhum novo compromisso”.

Na verdade, apesar da alegação de Vance sobre um grande avanço, a AIEA já possui acesso limitado ao Irã. Portanto, simplesmente permitir a entrada de inspetores não representa, por si só, um grande passo adiante.

Inspeções mais amplas também eram uma parte importante do acordo nuclear firmado durante o governo Obama, do qual Trump retirou os Estados Unidos.

Mesmo assim, Trump não recuou na tarde de terça-feira, a caminho de um evento na Pensilvânia.

“Eles estão errados, estão errados”, disse Trump sobre os iranianos a jornalistas. “Temos isso registrado: inspeções 100%. E, se eles estivessem certos, eu cancelaria as reuniões agora mesmo.”

O governo Trump também afirmou nesta semana que os muitos bilhões de dólares em ativos iranianos que seriam desbloqueados como parte de um acordo de paz seriam usados para comprar produtos dos Estados Unidos.

A alegação é uma tentativa de responder às críticas de que o Irã poderia usar o dinheiro — juntamente com pelo menos US$ 300 bilhões em recursos de reconstrução provenientes de países do Golfo — para reconstruir suas forças militares ou financiar o terrorismo. Até mesmo muitos conservadores reclamaram das amplas concessões financeiras ao Irã previstas no acordo.

Vance afirmou na segunda-feira que o principal negociador, Jared Kushner, elaborou um plano segundo o qual os gastos desses recursos seriam aprovados pelos Estados Unidos e pelo Catar.

Segundo ele, “o dinheiro seria então usado para comprar soja americana, milho americano e trigo americano em benefício do povo iraniano”.

“Se os ativos iranianos forem desbloqueados, eles vão enriquecer os agricultores americanos e ajudar a alimentar o povo iraniano”, disse Vance.

O embaixador dos Estados Unidos na ONU, Michael Waltz, afirmou mais tarde à Fox News que “eles vão comprar produtos agrícolas americanos”.

Trump acrescentou na manhã de terça-feira, em sua rede social, que o dinheiro seria “controlado pelos EUA e usado exclusivamente para a compra de alimentos e suprimentos médicos dos Estados Unidos”.