Ao disparar uma nova onda de mísseis e ataques aéreos, o presidente dos EUA correu o risco de iniciar uma segunda guerra para corrigir os problemas causados ​​pela primeira

Compartilhar matériaA situação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Irã começa a se assemelhar a uma ilusão de ótica conhecida como a escada de Penrose, que sobe e desce infinitamente, mas sempre termina no mesmo lugar.

O dilema foi criado pelo próprio Trump, após ele ter iniciado uma guerra que nunca prometeu uma saída definitiva e ter elaborado um memorando de entendimento que não abordou as razões do conflito.

Ele se viu diante de um dilema familiar quando a fumaça se dissipou na noite de quarta-feira (8), após novos ataques aéreos dos EUA em retaliação aos ataques do regime iraniano a navios no Estreito de Ormuz.

Então, surgem questionamentos: ele deve intensificar a guerra — com um custo humano, econômico e político potencialmente alto — para tentar quebrar um novo status quo que dá ao Irã a maior vantagem? Ou deve tentar reviver um cessar-fogo falho que paga bilhões ao Irã apenas para negociar?

A mais recente escalada, apenas três semanas depois de Trump ter assinado o memorando de entendimento, que ele saudou como um acordo que só ele poderia fazer, ressaltou a ampla futilidade do esforço de guerra dos EUA até o momento.

Em suma, ao disparar uma nova onda de mísseis e ataques aéreos, ele correu o risco de iniciar uma segunda guerra para corrigir os problemas causados ​​pela primeira -- especificamente, o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz.

Os ataques do Irã a embarcações ressaltaram sua determinação em preservar essa vantagem estratégica, que, além da sobrevivência de seu regime repressivo, representava seu principal ganho na guerra.

O país pretende transformar a rota crucial de petróleo e gás em fonte de receita por meio da cobrança de pedágios. Os ataques a diversos navios pareciam ter o objetivo de forçar as embarcações a navegar apenas pelas rotas de sua preferência, confirmando assim sua hegemonia.

Os ataques e as represálias dos EUA parecem contradizer o memorando de entendimento. No entanto, o documento, negociado pela equipe do enviado americano Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner, é tão vago, carece tanto de mecanismos de execução e demonstra tamanha ingenuidade quanto às intenções do Irã, que não surpreende que tenha fracassado rapidamente.

Visivelmente irritado durante uma viagem para a cúpula da Otan, a aliança militar ocidental, na Turquia, Trump declarou que o acordo provisório estava "encerrado" e classificou o Irã como "louco".

Ainda assim, afirmou que seus negociadores poderiam continuar as conversas, caso quisessem.

Reforçando a impressão de incoerência estratégica, ele acrescentou: "Eles jamais construirão uma arma nuclear sob o nosso acordo, mas não sei se teremos um acordo. Podemos simplesmente fazer isso sem um acordo, porque, quer saber? É mais fácil".

Na ausência de um plano inovador e inédito, as opções de Trump são limitadas e podem não funcionar.

Ele poderia ordenar uma escalada de grande porte. Embora uma invasão ao Irã seja impensável, ele poderia cogitar ataques aéreos contra a infraestrutura civil ou usinas de energia iranianas, ou uma invasão de áreas costeiras ao longo do Estreito de Ormuz para repelir as forças do Irã.

Outra possibilidade seria uma operação para tomar a ilha de Kharg, um importante polo petrolífero iraniano.

No entanto, os custos poderiam ser imensos e desencadear a reação econômica negativa que ele explicitamente afirmou querer evitar ao assinar o memorando de entendimento.

Um ataque de fuzileiros navais ou forças especiais à ilha de Kharg acarretaria um alto risco de baixas para os EUA. Apesar de outros equívocos, Trump, até o momento, não seguiu o exemplo de presidentes que tentaram recuperar sua credibilidade ordenando ações que resultaram na morte de muitos militares ou civis americanos.

E qualquer escalada por parte dos EUA não ocorreria de forma isolada.

Ampliar a lista de alvos no Irã provavelmente provocaria retaliações contra aliados americanos no Golfo e bases dos EUA na região. Instalações de petróleo e gás poderiam entrar na mira — o que, novamente, poderia desencadear uma crise energética global.

Trump enfrentaria, então, uma reação negativa dentro dos EUA, incluindo a volta dos preços elevados da gasolina, que prejudicaram sua posição política durante a guerra e comprometeram as perspectivas já incertas do Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato, que ocorrem em novembro.