Um perfil de André Mendonça, da carreira discreta na AGU à chegada ao STF e aos embates com Alexandre de Moraes
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleAndré Mendonça e Alexandre de Moraes: de colegas de toga a protagonistas de uma das maiores disputas da história do STF (Foto: André Borges/EFE)Ouça este conteúdo
André Mendonça costuma descrever seu início de carreira no Direito citando o refrão de um conhecido hino gospel. “Eu só tinha um terno e um sapato furado”, diz Mendonça, hoje no centro de decisões que podem mudar os rumos do Brasil.
Há um certo exagero na frase dele. Mas a verdade é que, antes de virar o ministro “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro ao STF, o magistrado percorreu um longo caminho entre escritórios modestos e concursos públicos — numa trajetória construída bem longe dos olhos do grande público.
Mendonça não herdou uma clientela, tampouco tinha recursos para abrir a própria firma de advocacia. Recém-formado, ele começou trabalhando num escritório montado num porão, em Bauru, no interior de São Paulo, ainda nos primeiros anos da década de 90.
Esse percurso pouco conhecido também inclui uma infância passada em diferentes cidades, a vocação religiosa, o destaque pelo perfil técnico e, mais recentemente, questionamentos sobre sua atuação dentro e fora do Supremo.
É a história de como um homem discreto virou um dos nomes mais influentes do Judiciário brasileiro — e o único ministro disposto a enfrentar diretamente Alexandre de Moraes, cada vez mais implicado no caso Master.
Filho do bancário Luiz Antonio e da dona de casa Maria Rosa, André Mendonça, hoje com 53 anos, nasceu em Santos e viveu em diferentes cidades paulistas por causa das transferências do pai, funcionário do extinto Banespa.
Ele passou por São Vicente, Miracatu, Itanhaém, Pederneiras e São Paulo antes de chegar a Bauru. E, embora seja de Santos, Mendonça também se considera “filho de Miracatu”, cidade de suas raízes familiares, para onde ainda volta nas férias.
O pai era presbiteriano e a mãe, católica. Os dois criaram quatro filhos em uma família marcada pela fé, e foi nesse ambiente que Mendonça começou a pensar em ser pastor.
Aos 16 anos, ele já tinha decidido seguir esse caminho. “Eu não queria nem fazer a faculdade de direito, queria ir para o seminário”, costuma contar em palestras e pregações.
Luiz Antonio, no entanto, pediu que ele concluísse os estudos primeiro. André Mendonça acabou cedendo e se formou pela Instituição Toledo de Ensino, em Bauru, em 1993. Ainda durante o curso, aos 19 anos, ele perdeu o pai, seu “orgulho, exemplo e referencial de vida”.
Após a faculdade, Mendonça tentou novamente seguir o caminho religioso. Mas, dessa vez, foi a mãe que o convenceu a adiar seu plano: ele precisava conquistar a independência financeira antes.
O futuro ministro do STF então começou a trabalhar na advocacia, prestou concurso para a Petrobras e depois para a Advocacia-Geral da União. Ao ser aprovado na AGU, pediu para ser lotado em Londrina (PR).
O motivo? Ali ficava a Faculdade Teológica Sul Americana, onde ele poderia se dedicar aos estudos religiosos enquanto continuava a carreira no serviço público.
Um episódio ocorrido em Londrina ajuda a entender como André Mendonça enxerga a própria trajetória. A história, contada por ele em visitas a igrejas evangélicas, circula em vídeo nas redes sociais como uma “profecia” sobre sua chegada ao poder.
Segundo o relato, o ministro ainda morava no Paraná quando um pregador, sem conhecê-lo, afirmou que ele um dia ocuparia uma posição importante no país. “Leis serão mudadas por sua causa”, disse o religioso.
A suposta profecia é associada por parte do público evangélico ao peso das decisões de Mendonça no STF. Para esse grupo, o combate à corrupção e os embates na Corte fazem parte de um plano maior, conduzido por Deus.
Hoje, o ministro é pastor da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, onde prega e participa das atividades da congregação. No mês passado, por exemplo, ele falou para cerca de 150 homens sobre “princípios de um líder íntegro”, antes de voltar a Brasília para cumprir a agenda no Supremo.
André Mendonça era procurador da AGU em Londrina quando foi convidado, em 2005, para uma missão de dois meses na Corregedoria-Geral do órgão, na capital federal. Mas o trabalho teve um resultado melhor do que o previsto e, no ano seguinte, ele se mudou para Brasília com a mulher, Janey, e os dois filhos, Daniela e Luiz Antonio (mesmo nome de seu pai).
Efetivado como subcorregedor, Mendonça passou a lidar com processos disciplinares e se destacou pelo perfil técnico. Foi nesse período que seu nome chegou a Dias Toffoli, então advogado-geral da União.




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