A entrada do Sesc Pompeia em 1982, ano em que foi inaugurado. Um ponto de virada da instituição Divulgação Quarta-feira, 14h30. Logo começará a sessão dublada de “Toy Story 5” no CineSesc, unidade do Serviço Social do Comércio (Sesc) especializada em cinema d…
Quarta-feira, 14h30. Logo começará a sessão dublada de “Toy Story 5” no CineSesc, unidade do Serviço Social do Comércio (Sesc) especializada em cinema desde 1979. Aos poucos o espaço na rua Augusta, em São Paulo, enche de crianças e adultos atraídos pelos preços acessíveis: um pacote de 40 gramas de pipoca é vendido a R$ 2.
No saguão, Caetano, de 9 anos, negocia mais açúcar no chocolate quente, enquanto sua avó, a pedagoga Maria Cecília Figueira de Mello, de 78 anos, conta o que lhes trouxe ali: “Queria mostrar pra ele o CineSesc”, diz. “Morei em São José do Rio Preto quando meus filhos eram pequenos. Em 1992, abriu um Sesc na cidade. Foi uma maravilha. Principalmente no interior e periferias, o Sesc tem um papel fundamental de levar acesso à cultura.”
É com o objetivo de atravessar gerações e se manter relevante nas diferentes fases de vida dos usuários que o Sesc completa 80 anos, instituído em um decreto-lei de 13 de setembro de 1946. Dedicada às áreas de educação, saúde, cultura, lazer e assistência, a casa chega à efeméride com números vultosos: em 2025, foram 144 milhões de pessoas atendidas e mais de 11 milhões de ações realizadas no país.
Às vezes acho que ao Sesc falta entender o quanto ele é importante na cadeia produtiva cultural” — Ernani Napolitano Em termos da rede construída, o Sesc encerrou o ano passado com 650 unidades fixas, cuja estrutura pode incluir desde clínicas odontológicas até piscinas, passando por teatros, escolas e hotéis. Para capilaridade, 169 unidades móveis levam serviços aos territórios, caso das bibliotecas volantes do BiblioSesc. O saldo é a presença em mais de 2 mil municípios de todos os estados, com uma força de trabalho em torno de 48 mil pessoas.
Sexta-feira, 16h30. Terminada a produção de imagens para esta reportagem no Sesc Pompeia, em São Paulo, o fotógrafo do Valor Gabriel Reis, de 37 anos, despede-se: “Minha esposa está com nossos filhos brincando lá no deck”, diz, em referência ao espaço a céu aberto da unidade.
“Isso é a cara do Sesc”, comenta a curadora e antropóloga Yara Schreiber Dines, de quem Reis fez fotos. “[O Sesc oferece] um enraizamento, associado à noção de pertencimento. É muito importante numa metrópole como São Paulo você sentir que pertence a um espaço. É o oposto da ideia de não lugar, por onde você passa, não permanece. Dá pra ficar aqui várias horas”, avalia.
Dines é autora da tese de doutorado “Cidadelas da cultura no lazer”, de 2007, publicada em livro pela Edições Sesc São Paulo em 2013. A pesquisa investiga as noções de lazer e cultura que, em diálogo com as transformações urbanas, embasam as práticas da instituição desde a fundação, nos anos 1940.
Diferentemente de visões correntes, o Sesc não é uma entidade pública, mas sim privada, sem fins de lucro. Existe por iniciativa de lideranças empresariais que, em 1945, reuniram-se na cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro, para a 1ª Conferência das Classes Produtoras (Conclap), em um contexto marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo.
“O Sesc surgiu de uma ação dos empresários. Desde os anos 1930 existia uma questão social, que era como lidar com o operariado. Tinham vindo imigrantes da Europa e também os migrantes, ocorrendo mudanças urbanas. Então, tem a questão de preparar e qualificar essa mão de obra”, analisa Dines.
Das discussões em Teresópolis resultaram a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em 1945, e, em 1946, a “Carta da paz social”, que delineia os valores do Sesc. Dines chama atenção ao título do documento: “Como havia esses imigrantes, os empresários tinham receio de mobilizações. Então, veja o termo: ‘paz social’. [É uma visão de] Conciliação de classes”.
Pelo decreto que institui o Sesc, cabe à CNC administrá-lo, promovendo “medidas que contribuam para o bem-estar social e a melhoria do padrão de vida dos comerciários e suas famílias, e, bem assim, para o aperfeiçoamento moral e cívico da coletividade”. Junto com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), também de 1946, o Sesc forma o braço social da CNC.
Ainda por decreto, a governança adota estrutura descentralizada. A Administração Nacional do Sesc inclui o Conselho Nacional (chefiado pelo presidente da CNC) e o Departamento Nacional (DN), órgão executivo que articula o trabalho em rede no país. Na esfera estadual, são 27 regionais com conselho e departamento próprios, e autonomia para operar. Todos os conselhos têm representação de empresários, governo e trabalhadores.
Já os recursos vêm principalmente do recolhimento compulsório de 1,5% sobre a folha de pagamento das empresas do setor, feito pela Receita Federal. O DN distribui o montante entre regionais, seguindo a arrecadação local. Em 2025, essa foi a fonte de 70% da receita total de R$ 13,7 bilhões, com despesas em R$ 12,3 bilhões. A prestação de contas é feita a órgãos como o Tribunal de Contas da União.
Sexta-feira, 19h. O show da rapper MC Luanna está prestes a começar no térreo do Sesc Avenida Paulista, aberto em 2018 na via mais famosa de São Paulo. Todos os 250 ingressos foram vendidos. Fãs da artista, Thifany Santos, de 27 anos, e sua namorada estão perto do palco. É a primeira vez de Santos em uma unidade do Sesc.
“É que eu moro em Itapevi [região metropolitana de São Paulo], então não é tão fácil. Tem um Sesc perto de casa, mas são dois ônibus pra chegar”, explica a jovem. Auxiliar de recursos humanos em uma empresa de hotelaria e gastronomia, sabe se é elegível à credencial plena? “Talvez sim. Inclusive, vou ver isso na segunda-feira.”
Credencial plena, ou a “carteirinha”, é a forma central de relacionamento do Sesc com seu público prioritário. Quem trabalha no comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes têm direito a se credenciar. Entre os benefícios, há acessos exclusivos: embora a maioria das ações seja aberta à sociedade, serviços com alta procura, como odontologia, são restritos.
O credenciamento permite ao Sesc identificar e responder às demandas do público, que se transformam com o tempo. De início, prevaleceu o assistencialismo. Uma área prioritária foi a saúde, como um hospital para tratamento de tuberculose em Minas Gerais, nos anos 1940, e uma maternidade na capital paulista, nos anos 1950.
Em São Paulo foram criados “centros sociais”, conforme explica Yara Dines: “Eram casas alugadas em vários bairros, com atividades para as mulheres, principalmente em como cuidar dos filhos, e atendimento às crianças”. Em 1948, a abertura de uma colônia de férias, atual Sesc Bertioga, marcou o turismo social pelo qual a instituição é reconhecida.
Nos anos 1960, passos importantes foram dados rumo ao modelo que se consolidou. Em 1965, o projeto Unidades Móveis de Orientação Social (Unimos), ativo em São Paulo até 1976, mostrou-se seminal ao moldar as ações ao perfil de cada território, diretriz que se mantém. Gratuito à população, o trabalho acontecia onde não havia unidades fixas.
“Ficávamos num bairro ou cidade cerca de 30 dias. No veículo tínhamos equipamentos como projetor de cinema, lousa, bolas. Em reunião com as lideranças [locais] no campo esportivo, cultural, social, a gente ouvia qual animação sociocultural gostariam na cidade. Ciclo de cinema? Torneio esportivo? Dali saía um plano de ação”, explica Luiz Galina, de 81 anos.




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