Entidades indígenas pedem atenção para doações não oficiais após casa de liderança de 90 anos ser destruída no Mato Grosso do Sul

A rezadeira Ñandesy Roberta perdeu moradia e objetos sagrados em incêndio denunciado como criminoso no MS - (crédito: Reprodução/Instagram/Apib) A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) emitiu um alerta para que apoiadores não realizem transferências por Pix a campanhas de arrecadação que utilizem o nome da entidade sem autorização.

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O comunicado foi divulgado após o incêndio que destruiu a casa de uma liderança espiritual indígena de 90 anos, na Aldeia Jaguapiré, em Tacuru, Mato Grosso do Sul, na quinta-feira (29/10). Segundo a organização, começaram a circular pedidos de doações em contas de pessoas físicas que não possuem vínculo reconhecido com o movimento indígena.

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A advertência foi publicada em conjunto com a Aty Guasu, organização representativa dos povos Guarani e Kaiowá. As entidades esclareceram que não autorizam nem assumem responsabilidade por campanhas financeiras conduzidas por terceiros sem reconhecimento oficial, ainda que sejam apresentadas como iniciativas de solidariedade às vítimas.

Diante da circulação desses pedidos, as organizações orientaram a população a verificar a procedência das informações antes de realizar qualquer contribuição. Para isso, recomendaram acompanhar exclusivamente os perfis institucionais, onde são divulgadas as ações reconhecidas pelo movimento.

"Reforçamos a importância de acompanhar as informações divulgadas pelos canais oficiais da @apiboficial e da @atyguasu, organizações que seguem acompanhando as denúncias e articulando a defesa dos direitos dos povos indígenas."

O comunicado ocorre em meio à mobilização para prestar assistência à rezadeira, que perdeu a residência e seus pertences em um incêndio denunciado como criminoso pelas lideranças indígenas. Embora a comunidade esteja buscando formas de ajudá-la, a Apib e a Aty Guasu ressaltaram que campanhas não reconhecidas pelas organizações não devem ser confundidas com suas iniciativas oficiais.

O incêndio atingiu a residência de Roberta na manhã de quinta-feira, na Aldeia Jaguapiré, localizada a aproximadamente 410 quilômetros de Campo Grande. A idosa, que vivia sozinha, ficou sem moradia, mas não houve registro de feridos. De acordo com a Aty Guasu, o episódio representa mais um caso de violência contra as práticas espirituais tradicionais dos povos Guarani e Kaiowá.

A denúncia aponta que a liderança religiosa enfrenta episódios recorrentes de racismo e intolerância por preservar os costumes de sua comunidade. Roberta também seria alvo de acusações de feitiçaria, utilizadas para hostilizá-la em razão de suas atividades como rezadeira.

Mais uma denúncia vinda dos territórios Guarani Kaiowá! A casa de ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada de forma criminosa na aldeia Jaguapié, em Tacuru (MS), mesmo município que ameacaram envenenar a água das comunidades indígenas. Todos os objetos sagrados viraram cinzas https://t.co/FLBUUTxEmS

Além da estrutura da residência, as chamas destruíram instrumentos considerados sagrados e utilizados nas cerimônias tradicionais, entre eles takua, xiru, mbaraka e mimby. A perda desses objetos, segundo as organizações, representa uma agressão que ultrapassa os danos materiais, atingindo também as manifestações religiosas e culturais da comunidade.

Esta não foi a primeira vez que Roberta perdeu a moradia em circunstâncias semelhantes. Conforme relatou Valdenir Romero, liderança indígena da Jaguapiré, uma residência anterior da idosa, construída de sapé, também havia sido destruída pelo fogo.

No episódio mais recente, todos os pertences mantidos na casa foram atingidos, e há preocupação de que documentos pessoais também tenham sido perdidos. A comunidade passou a buscar alternativas para acolher a rezadeira, enquanto cobra providências para esclarecer as circunstâncias do incêndio.

Até o momento, não há identificação confirmada dos responsáveis. A Aty Guasu exige que o caso seja investigado e que eventuais envolvidos sejam responsabilizados, destacando que a destruição de espaços religiosos indígenas precisa receber atenção das autoridades.

O incêndio em Jaguapiré se soma a uma série de episódios denunciados por organizações indígenas no Mato Grosso do Sul após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25/10). Entre os relatos estão intimidações, manifestações racistas e ameaças de envenenamento da água consumida por comunidades que teriam apoiado a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Um dos casos de maior repercussão ocorreu no próprio município de Tacuru, onde áudios atribuídos a servidores públicos continham ameaças contra moradores da Aldeia Sassoró. Diante da denúncia, o Ministério Público Federal (MPF) abriu procedimentos para apurar os fatos e determinou que a prefeitura prestasse esclarecimentos sobre a autoria das gravações e as providências adotadas para garantir a segurança dos indígenas.

O órgão estabeleceu prazo de 48 horas para a resposta da administração municipal e recomendou o afastamento cautelar de servidores caso fossem encontrados indícios consistentes de envolvimento nas ameaças. A prefeitura anunciou a abertura de procedimento administrativo e o afastamento de funcionários relacionados ao episódio.

As denúncias também chegaram ao governo federal. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas informaram que acompanham os relatos e mantêm contato com as lideranças das comunidades atingidas. A Polícia Federal foi acionada para investigar as suspeitas de violência e intimidação.

Paralelamente, os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial estabeleceram uma força-tarefa para reunir informações e solicitar a apuração de possíveis crimes contra indígenas, quilombolas e povos de terreiro.