Em notória diferença com caso anterior, comunicados sobre problemas de Raphinha e Paquetá são deliberadamente vagos

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Marcos Guedes Luciano Trindade

Weehawken (Nova Jersey)

Se você achou parecidos os comunicados da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) sobre as lesões de Raphinha e Lucas Paquetá na Copa do Mundo, observou bem. Ou quase isso. Os textos são mais do que parecidos, são praticamente iguais: a diferença são apenas duas palavras, a que identifica o lado da coxa dolorida e a que aponta o dia do exame.

"O atleta Raphinha passou, neste sábado, por exame de imagem que confirmou lesão muscular na região posterior da coxa direita. O jogador seguirá um protocolo de tratamento intensivo, acompanhado pela equipe médica da Seleção Brasileira, visando sua recuperação e retorno às atividades no menor tempo possível."

"O atleta Lucas Paquetá passou, nesta terça-feira, por exame de imagem que confirmou lesão muscular na região posterior da coxa esquerda. O jogador seguirá um protocolo de tratamento intensivo, acompanhado pela equipe médica da Seleção Brasileira, visando sua recuperação e retorno às atividades no menor tempo possível."

Não há nenhuma menção sobre a gravidade dos ferimentos ou prazos estimados de recuperação. As notas, tão protocolares que quase idênticas, não seguem o modelo adotado pela própria CBF no início da preparação do Brasil para o Mundial, no fim de maio. Na ocasião, havia grande interesse sobre as condições físicas de Neymar.

Antes mesmo das primeiras entrevistas no centro de treinamento da Granja Comary, em Teresópolis, o chefe de comunicação da confederação ofereceu o microfone ao médico Rodrigo Lasmar. "Deixando tudo sempre transparente, bem claro, como é a marca desta gestão da CBF, por favor, doutor…"

Lasmar, então, fez um pronunciamento com minúcias clínicas.

"Neymar fez todos os exames médicos, os exames complementares, e terminamos com uma ressonância magnética que identificou uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha, não apenas um edema. O atleta segue em tratamento, e a nossa expectativa é que no prazo de duas a três semanas esteja liberado", afirmou o médico.

De lá para cá, o protocolo mudou. Até mesmo o anúncio do corte do lateral direito Wesley, que se lesionou já nos Estados Unidos, em amistoso contra o Egito, foi redigido sem a palavra "corte" ou alguma derivada: "Wesley é um atleta querido pelo grupo e será sempre considerado parte desta equipe que busca o hexacampeonato mundial".

Questionada sobre a alteração no procedimento, a CBF disse que "não divulga grau de lesões nem estimativa de retorno dos atletas para preservá-los durante o processo de recuperação em meio à Copa do Mundo". Na prática, a explicação é que o caso Neymar foi diferente de todos os outros, traumático, e teve consequências.

O atacante sentiu um problema na panturrilha direita em jogo do Santos no dia 17 de maio, véspera da convocação dos 26 atletas do Brasil na Copa do Mundo. Ele e seu clube trataram a questão como algo menor, um edema, um acúmulo de líquido entre as fibras musculares. Claramente, não era o caso.

Feita a convocação, em circense evento no Rio de Janeiro no dia 18, começaram a brotar informações de que o edema talvez não fosse edema. Havia ruptura parcial das fibras musculares. E, na apresentação do grupo em Teresópolis, o jogador foi levado a uma clínica para os exames descritos por Rodrigo Lasmar.

No conflito de versões, a CBF fez a opção de evitar o corte do atleta, mas deixar claro que ele e o departamento médico alvinegro tinham sido desonestos. E tinham. Neymar perdeu os amistosos contra Panamá e Egito e só pôde entrar em campo na terceira rodada do Mundial, por pouco mais de 15 minutos.