Em seus livros, a radialista da CBN ressalta a importância de um ‘mergulho interno’ para sobreviver ao mundo caótico
“Todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho, em silêncio”, afirmou o filósofo e matemático francês Blaise Pascal.
Talvez ele tenha sido radical, mas há coerência.
Decisões erradas, capazes de mudar para pior o rumo de uma pessoa ou do planeta, podem ser evitadas a partir de alguns minutos de reflexão silenciosa.
Mas eis o problema: a incapacidade da maioria de nós de suportar a ausência de estímulos auditivos.
TV ligada, música no fone de ouvido, vídeos no celular, buzinas nas ruas, vizinhos barulhentos… Por isso, o silêncio tão necessário precisa ser construído.
É o que defende e explica a jornalista Petria Chaves, apresentadora do ‘Revista CBN’, da rádio CBN, em seu livro ‘Escute Teu Silêncio’ (selo Academia).
Em conversa com a coluna, ela ressalta também o valor da intuição, essa percepção tão pessoal cada vez mais difícil de ser ouvida devido ao volume de influências externas.
O silêncio seria perturbador para algumas pessoas por obrigá-las a ouvir a voz interior?
Sim, justamente por obrigá-las a ouvir a própria voz interior, que, em primeiro lugar, elas nunca foram ensinadas a escutar. Em segundo, têm muito medo de ouvi-la, porque tudo o que lhes foi ensinado é que aquilo que elas são está errado, que o que desejam para si mesmas é errado. Somos ensinados culturalmente a seguir padrões, até mesmo de profissão e de comportamento. Isso não quer dizer que vamos sair tresloucadamente fazendo tudo o que quisermos, tudo o que nossa mente maluca desejar apenas porque estamos escutando nossa voz interior. Não. O treino dessa escuta interna traz muita paz e muita sabedoria, além de um contato profundo com a natureza de dentro e de fora.
Estamos desconectados de nós mesmos?
Por estarmos tão cercados de barulhos diversos, de condicionamentos, de opiniões alheias, do nosso autojulgamento e também do nosso auto-ódio, esse encontro pode ser difícil. Dou o exemplo das mulheres e falo sobre isso no meu primeiro livro (‘Escute Teu Silêncio’): essa construção cultural de auto-ódio em relação ao próprio corpo, sempre querendo ser mais jovem, mais magra, diferente do que se é. Quando você para tudo para ouvir sua voz interna e perceber quem de fato é, sem todos esses nomes que o mundo coloca em nós, isso pode ser muito assustador, porque é simples demais e também porque não nos leva ao autoengano. Deparamo-nos com as máscaras e os personagens que criamos durante a vida inteira para sobreviver, com as couraças que construímos para suportar este mundo difícil. Talvez, então, nós nos vejamos muito vulneráveis, muito frágeis, quando tentamos ouvir essa voz interior.
Como exercitar essa autoescuta a partir do contato com o silêncio?
Para algumas pessoas, pode ser muito assustador, como ocorreu, por exemplo, na pandemia. Havia pessoas que, sozinhas em casa, ficavam com o rádio ou a televisão ligados o dia inteiro para não permanecer em silêncio. Tinham medo do silêncio. Isso é muito interessante e é algo muito ocidental. Não somos ensinados, desde pequenos, a lidar com o nosso mundo interior. Ao entrevistar a Monja Coen, ela disse que, assim como não mergulhamos sozinhos em uma piscina de oito metros de profundidade sem um instrutor, mergulhar no mundo interno sem orientação também pode ser assustador e nos levar a lugares muito estranhos. Por isso, não recomendo que façamos sozinhos esse mergulho no silêncio interior. Há muita literatura, muita filosofia e muitos professores, principalmente conectados às filosofias do Oriente, que podem nos ensinar a realizar esse mergulho interno — por meio da meditação e do silêncio — de maneira gentil, já que, durante uma vida inteira, fomos ensinados a não nos ouvir.
Por que esse medo de se conhecer profundamente?
É normal sentir medo, sentir aflição. A mente, de certa maneira, quer nos proteger de tudo o que é desconhecido e nos proporcionar conforto. A mente é algo muito precioso, porém, hoje, nós a usamos para nos machucar. Portanto, o treino da mente, para que ela seja uma aliada, é feito com o treino do silêncio e precisa da orientação de professores já letrados e versados nessas técnicas. É difícil ser autodidata. Eu mesma, desde os meus 18 ou 19 anos, estudo com professores e professoras sobre meditação, yoga e essa engenharia interior. Então, por um lado, pode ser muito assustador. Mas é justamente por isso que, da mesma maneira que fazemos faculdade, mestrado, doutorado ou PhD, da pele para fora, também temos de nos versar da pele para dentro. É preciso estudar de maneira profunda e não achar que se trata de algo simples ou leviano. Deve ser levado a sério.
Em uma cidade barulhenta como São Paulo, ter silêncio é quase impossível. Dá para encontrar algum silêncio particular numa metrópole?
Com certeza, é possível encontrar silêncio, e precisamos construí-lo. Esse silêncio precisa ser intencional e consciente. No meu segundo livro, ‘Como Sei o que Sei’ (selo Academia), falo muito sobre essa atitude consciente na criação de bolsões de silêncio. Falo sobre isso justamente depois de ter pesquisado profundamente a escuta e o silêncio no meu primeiro livro. ‘Escute Teu Silêncio’ é a obra na qual aprofundo a pesquisa sobre a necessidade que temos do silêncio como ferramenta de autorregulação. Por exemplo, em uma cidade tão barulhenta como São Paulo. É aí que o silêncio se faz ainda mais necessário, porque, convidados ao estímulo a todo momento, saímos continuamente do nosso equilíbrio.
Na prática, como agir?
Assim como fazemos dietas e buscamos uma alimentação saudável, precisamos também de uma dieta saudável, por assim dizer, em relação aos sons, aos estímulos, às redes sociais e a tudo o que, de certa forma, entra no nosso campo de informação pela visão, pela escuta e pela cognição. Criar conscientemente bolsões de silêncio é administrar o remédio de que precisamos justamente para enfrentar a crise de ansiedade que vivemos nas grandes cidades, além de tanta depressão e tanto Burnout (estado de esgotamento físico e emocional). Digo isso com base em dados do Ministério da Saúde a respeito do recorde de afastamentos do trabalho em razão desses males emocionais e mentais. Precisamos criar a autorregulação do sistema nervoso simpático e parassimpático. Sair do modo de luta ou fuga e ir para um modo de equilíbrio e contemplação, mesmo em meio ao caos.
Por que pessoas em silêncio ou que valorizam a pontual ausência de sons incomodam tanta gente?


0 Comentário(s)
Deixe seu comentário