Primeiros filhotes de ararinha-azul nasceram em liberdade em Curaçá, na Bahia, em 2023, após a espécie desaparecer da natureza brasileira em 2000.
A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) voltou a se reproduzir em liberdade no Brasil em 2023, quando os primeiros filhotes da espécie nasceram na região de Curaçá, no norte da Bahia. O registro ocorreu depois que o programa de reintrodução iniciado em 2022 devolveu as aves à área onde elas haviam desaparecido. O fato é confirmado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que classifica o nascimento como um marco para o sucesso da reintrodução.
A espécie foi registrada pela última vez na natureza em outubro de 2000 e passou a ser considerada extinta na natureza. Os últimos indivíduos conhecidos em liberdade foram encontrados em Curaçá, em 1986. Segundo o ICMBio, a ararinha-azul é endêmica de uma pequena área semiárida do Baixo e Médio Vale do Rio São Francisco, dentro do bioma Caatinga.
A reintrodução começou efetivamente em 2022, com a soltura dos primeiros grupos na área histórica de ocorrência da espécie. As aves utilizadas no projeto vieram de populações mantidas em cativeiro e passaram por programas de reprodução, manejo e preparação para a vida em ambiente natural. O ICMBio mantém um programa específico para administrar geneticamente essa população e garantir uma fonte de aves para futuras ações de reintrodução.
Em maio de 2023, por exemplo, oito ararinhas-azuis foram transferidas de um centro de reprodução em Minas Gerais para Curaçá. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, as aves foram transportadas até Petrolina e depois levadas para o centro de reintrodução na Bahia. Na região também existem unidades de conservação destinadas à proteção do habitat da espécie.
O nascimento de filhotes em liberdade mostrou que as aves reintroduzidas não estavam apenas sobrevivendo ao ambiente. Elas estavam formando pares e reproduzindo-se no habitat original. Para uma espécie que havia desaparecido da natureza brasileira por mais de duas décadas, esse resultado representa uma etapa diferente daquela alcançada apenas com a soltura de animais criados sob cuidados humanos.
O retorno, porém, não significa que a ararinha-azul esteja fora de perigo. O Programa de Manejo Populacional do ICMBio classifica a espécie como Criticamente em Perigo na avaliação brasileira. O programa busca manter uma população geneticamente viável em cativeiro enquanto a reintrodução é conduzida em sua área histórica.
O ambiente onde as aves foram devolvidas também apresenta condições naturais difíceis. Estudos do próprio ICMBio descrevem a região de Curaçá como uma área quente e semiárida, com forte escassez hídrica, chuvas irregulares e temperatura média anual de aproximadamente 26 °C. As matas de galeria associadas a rios e riachos temporários, especialmente aquelas com caraibeiras, são consideradas fundamentais para o habitat da espécie.
O desaparecimento histórico da ararinha-azul esteve ligado principalmente à captura para o comércio ilegal de aves e à perda de habitat. A recuperação, portanto, depende da manutenção das áreas protegidas, do controle de ameaças e do acompanhamento permanente dos animais.
A situação ganhou uma complicação adicional nos últimos anos. Em 2025, o ICMBio identificou a presença de circovírus entre ararinhas-azuis mantidas no criadouro do programa em Curaçá. A investigação também encontrou resultado positivo em um filhote nascido na natureza.
Em setembro de 2026, o instituto informou que 34 ararinhas-azuis permaneciam positivas para o vírus e sob acompanhamento direto em Curaçá. Outras 69 aves que testaram negativo foram transferidas para o Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga, em Petrolina, para permanecerem em quarentena e passar por novos testes. Segundo o próprio ICMBio, a emergência sanitária começou após a identificação de indícios do vírus em um filhote nascido em liberdade.
Assim, os filhotes de 2023 continuam sendo um dos principais indicadores de que a reintrodução pode funcionar, mas a recuperação da ararinha-azul ainda depende de reprodução contínua, proteção do habitat, controle sanitário e acompanhamento científico de cada nova geração.




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