Seleção comandada por Lionel Scaloni joga feio, dá pancada e provoca, mas vence
Argentina é o anti-herói da Copa do Mundo
7:06Há explicações racionais para o sucesso da seleção argentina? Rodrigo Capelo analisa.
A Argentina é o anti-herói da Copa de 2026. Diferente do Sherlock Holmes, que vai terminar de ver a competição do sofá, ela é o Cazador — personagem famoso localmente nos anos 1990; violento, grosseiro e politicamente incorreto, mas cativante. A Argentina é assim. Joga feio, dá pancada e provoca, mas vence.
O que me deixa dúvidas é o tal do projeto esportivo. Da mesma maneira que nós tentamos a cada quatro anos encontrar explicações racionais para as derrotas da seleção brasileira, tentamos achar razões para o sucesso das estrangeiras.
A Inglaterra tem a liga mais rica do mundo e enorme capacidade de investimento. A Espanha tem também dinheiro, e os gigantes Barcelona e Real Madrid formam o time para a seleção. A França tem Clairefontaine, o centro de treinamento pelo qual passou Mbappé, gerido pela federação para incrementar a formação.
A Argentina não tem nada disso. Ou quase nada. Ela tem, sim, Boca Juniors e River Plate como clubes de ponta para os padrões da América do Sul, mas o cenário do futebol de clubes é financeiramente frágil e institucionalmente problemático.
A começar pela inconstância até no número de equipes que joga o Campeonato Argentino. Na última década já foram 30, 28, 26, 24, 22... 24, 26, 28 e de novo 30. Instabilidade típica do futebol dos anos 1980, inclusive o brasileiro, que não conseguia proporcionar aos clubes e aos atletas um torneio nacional consistente.
A politicagem rola solta. Claudio “Chiqui” Tapia, presidente da AFA inventou anos atrás um título para premiar o Rosario Central. O Rosario não ganhou nem a apertura, nem a clausura, mas foi considerado campeão por ter somado mais pontos nas duas tabelas — algo que não estava previsto em regulamento. Dirigido pelo ex-meia Verón, o Estudiantes se revoltou, protestou e foi punido.
Hoje, a federação é investigada pelo FBI por suspeita de lavagem de dinheiro e fraude. A história tem relação com contratos de TV e patrocínio, que geraram pagamentos de comissões para empresa recém-criada e sem lastro. Como o dinheiro passa por bancos americanos, as autoridades de lá foram acionadas.
Até conflito entre a federação e o governo de Javier Milei há. Um órgão estatal colocou a AFA na parede para conseguir as demonstrações contábeis dela, que não são publicadas, e gerou uma cascata de acusações e reclamações públicas.
A explicação está na quantidade de garotos que a Argentina gera todos os anos. Muitos deles não dependem o sistema nacional para se formar; eles vão ganhar minutagem e experiência no futebol europeu, bem como Messi fez no Barcelona. Não fosse a liberdade para se formar mundo afora, a história poderia ser outra.




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