Pintor Miguel Chiquitano revê elo entre homem e espaço
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20.jul.2026 às 13h00
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Davi Galantier Krasilchik
Um corredor de água brota entre folhas espalhadas pelo chão. É dessa pintura que surge o nome "Água da Mata", mostra de Miguel Penha Chiquitano que fica em cartaz na Zipper Galeria, em São Paulo, até agosto.
Nascido às margens do rio Cuiabá, no Mato Grosso, o artista passou a infância próximo a plantas e fez delas sua matéria-prima. Com o tempo, reverteu o conhecimento em quadros que detalham raízes, caules e copas de árvores, além de inserir as estruturas vegetais em cenários com algum grau de fantasia.
Isso porque o pintor mistura, em seu processo criativo, suas observações diárias e as lembranças da época em que vagava pela floresta com o pai biológico, um indígena do povo Chiquitano.
"A arte me conecta com minha origem", diz o artista. "Ela me aproxima da origem de meus ancestrais, longe desse mundo tão tecnológico e alienado."
Hoje, aos 64 anos, ele vive no município de Aldeia Velha, na Chapada dos Guimarães, onde vê o Cerrado e o Pantanal do conforto do ateliê. Foi ali que nasceu a mãe do artista, mulher da tribo Bororo e de quem foi afastado ainda jovem, quando decidiram que estaria mais seguro com um casal do Distrito Federal.
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Apesar dos trabalhos objetivos, vários elementos recuperam uma espiritualidade ancestral. Em "Igarapé Azul", por exemplo, fileiras da espécie-título abrem caminho para uma névoa azulada. O modo com que ela se espalha pela obra lembra uma manifestação da natureza.
Já em "A Chuva", como o título sugere, uma coluna de água se forma no topo de um amontoado de árvores. Logo acima, nuvens imponentes tomam a parte superior da pintura. A relação entre os corpos hídricos e a vegetação é complementada por "Floresta Escura", em que um rio serpenteia pela mata verde-escura.
Para o curador Josué Mattos, o cuidado ao representar essas forças, junto às cores que contrastam o quente e o frio, permite ao público, também, ouvir e sentir esses ambientes.
"A produção de Chiquitano confronta uma hegemonia desenvolvimentista, que vê ganhos imediatos como a única medida para o sucesso", afirma ele. "Seu trabalho é generoso —ele vê a natureza como algo que não é externo ao ser humano, mas constitutivo dele, e não condena quem reproduz essa desconexão."
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Seguindo as pinceladas de Chiquitano, que em certos casos ignoram a profundidade e unem galhos, troncos e pedras em um mesmo plano, é como se os espaços pudessem se sobrepor aos visitantes —mesmo que, ironicamente, o homem não apareça nas telas.




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