Cabo Verde voltou a encantar o mundo e a empatar contra um favorito. No Grupo G do Mundial 2026, só o Egito sabe vencer.
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As frases fortes estão para o futebol como um abutre está para os ares da savana. Nem sempre quer sangue, mas quanto mais houver mais prolifera na sua tarefa. O empate da Espanha contra Cabo Verde, o mais surpreendente dos resultados da primeira jornada do Mundial 2026, trouxe consigo um pouco de tudo. A seleção africana de Bubista, Vozinha e companhia foi o maior destaque em Portugal, mas aqui ao lado, a imprensa espanhola fez um funeral antecipado à seleção.
Entre todas as dúvidas que o empate, e bem, levantou, desde logo ao papel dos extremos, à importância do envolvimento dos laterais no ponto de vista ofensivo, ao raio de ação de Mikel Oyarzabal ou à quantidade de ações criativas dos médios, houve uma que ganhou volume e repercussão. Para que serve a posse de bola se não há golos? A matriz espanhola, que permitiu à Roja conquistar três Europeus e um Mundial nos últimos 20 anos, alicerçando todo o trabalho feito na formação dos clubes e uma matriz de jogo comum ao futebol espanhol é, de tempos a tempos, contestada.
Se o processo de reflexão é positivo, permitindo o crescimento constante e reduzindo o risco de estagnação, a tentativa de romper com força as bases de uma identidade cultural são, por si só, um risco a tudo o que foi construído. E a segunda jornada foi a prova disso. A goleada à Arábia Saudita será vista entre algo normal e algo capaz de aliviar. Mais do que isso, é a prova número 746 de que o problema da posse de bola e do seu rendilhar não se mete nas intenções, mas no objetivo. A posse de bola é apenas um meio e não um fim. E foi isso que aconteceu na segunda jornada, ao contrário da primeira.
Luis de la Fuente olhou para o banco e chamou Pedro Porro, Dani Olmo, Álex Baena e Lamine Yamal ao jogo. Todos eles foram importantes para desmontar a Arábia Saudita, por mais que os erros tenham tornado essa uma tarefa demasiado fácil para se quererem retirar conclusões precipitadas. A entrada de Lamine Yamal é quase revolucionária. O extremo nem foi fantástico, mas a forma como concentra atenções dos adversários e se torna numa ameaça constante permite dar à posse de bola uma sensação constante de perigo. Por mais que Marcos Llorente seja uma garantia constante de energia, a qualidade de Pedro Porro com bola no pé permite à Espanha aproximações mais perigosas e senso nos cruzamentos que, pela constituição física da equipa, terão sempre de ser baseados na qualidade e menos na qualidade. No meio-campo, Dani Olmo é um perfil diferente de Fabián Ruiz. Quando tudo funcionada de forma oleada, o médio do PSG é fundamental pela capacidade de chegada à área. Quando é preciso algo mais, o jogador do Barcelona aparece. Faz-se valer pela batida na bola e pela forma como descobre caminhos na área. Por fim, e não havendo Nico Williams no nível ideal, o encaixe de Álex Baena na esquerda é muito mais natural que o de Gavi. Titular diante dos sauditas, o médio oferece mais capacidade para se infilitrar por dentro, atacar espaços e causar desconforto nos defesas, abrindo caminhos para as chegadas de Marc Cucurella, a desequilibrar por fora, e para o raio de ação de Mikel Oyarzabal.
Contra Cabo Verde, o avançado não tocou na bola uma única vez nos primeiros 30 minutos. Contra a Arábia Saudita, somou dois golos, o mais rápido bis de um espanhol no Mundial, e uma assistência neste mesmo período. Se a qualidade do jogador é a mesma, o encaixe coletivo foi diferente. De um lado, Lamine Yamal concentrou atenções e abriu espaços. Do outro, Álex Baena apareceu por dentro, deixando livre o espaço para o avançado espanhol atacar, num movimento contrário. Depois, a Arábia Saudita, que sofreu cedo, tentou subir linhas na pressão e desorganizou-se. Estava criado o contexto para Oyarzabal, que continua a ser um avançado de ligação e apoios, mas é cada vez mais um jogador de ruturas e diagonais curtas, aparecer e brilhar.
Em sentido contrário, a Arábia Saudita deixou para trás a organização da primeira jornada e tentou contrariar o poderio ofensivo espanhol com mais um defesa. Não só não ganhou capacidade de ocupar a área, como perdeu alguma robustez no meio, dando à Espanha esse espaço nas costas dos médios. Depois de sofrer o golo cedo, tentou lançar-se numa pressão sem regras que abriu o caminho à goleada. Num jogo sem história, Firas Al-Buraikan voltou a mostrar argumentos. Pode funcionar como extremo ou como avançado a solo, dando soluções nos corredores, no espaço ou baixando em apoio. Uma mais-valia que de nada valeu para os sauditas, que deixam uma mensagem bem menos limpa do que a estreia tinha evidenciado.
Quando foram sorteados os grupos, nenhuma seleção esboçou um sorriso tão aberto como a Bélgica. O Egito, o Irão e a Nova Zelândia eram um vislumbre de felicidade quase certa para os Diabos Vermelhos. Diabos no bom sentido da palavra, como uma seleção com sangue nos olhos e uma vontade desmedida de honrar a geração de oura, que se despede, definitivamente, neste Mundial.
No entanto, nenhuma seleção tem desiludido tanto, no grupo das favoritas ou, pelo menos, das seleções com maior estatuto, como a Bélgica. Partindo com favoritismo claro em cada jogo do grupo, a equipa de Rudi García não foi capaz nem de vencer nem, sequer, de ser superior a qualquer uma das seleções com quem já mediu forças. Por maior que seja o respeito a Egito e Irão, seleções organizadas e capazes de competir, a diferença individual é tão gritante que obrigava os Diabos Vermelhos a fazer muito melhor. Mas os Diabos têm sido muito Anjinhos.
Desta feita, nem se pode apontar muito às escolhas de Rudi Garcia, que respeitou o campo e lançou os melhores jogadores de início. Maxim De Cuyper era uma obrigatoriedade no lado esquerdo da defesa, Nicolas Raskin foi oferecer mais organização ao jogo e liberdade a Youri Tielemans e Romelu Lukaku deu a capacidade física e ameaça no espaço que, principalmente sem Doku, a Bélgica precisava. Nada foi suficiente.
É evidente que a geração belga não é perfeita, mas a questão da qualidade individual não pode ser colocada em cima da mesa neste contexto. Há um défice de criatividade coletiva e uma dificuldade enorme da Bélgica para se impor perante adversários que se organizem defensivamente e sejam capazes de retirar espaço. É uma seleção de zero garantias e, contra o Irão, foi Thibaut Courtois o grande destaque. Diz muito sobre a seleção europeia que está longe de ter, sequer, o apuramento consumado. Nem cria situações no ataque, nem oferece provas de solidez defensiva coletiva. A expulsão de Nathan Ngoy é elucidativa.
Alheio a tudo isto, o Irão está a fazer, dentro das circunstâncias impossíveis de esquecer, um Mundial 2026 de bom nível. Tem uma seleção individualmente inferior às últimas, com jogadores envelhecidos e dificuldades para fazer o rejuvenescimento natural, questões políticas tiraram Serdar Azmoun do grupo e uma das missões logísticas mais delicadas da competição. Não deixa de ser, no mínimo, irónico que a seleção iraniana esteja a ser destaque em solo estadunidense.
Até aos 70 minutos, quando a vantagem numérica mudou o cenário do jogo, foi uma exibição plena de solidez defensiva da formação iraniana. Não mudou o 4-4-2 base, mas como já tem sido feito, assumiu sem grandes problemas uma linha de cinco ou de seis no momento defensivo. A aposta de laterais para funcionar como alas, quer Ehsan Hajsafi quer Ramin Rezaeian, incentivou esta procura e a presença de Mohammad Mohebi nas costas de Mehdi Taremi, mas muitas vezes fechando à esquerda, ditou o propósito. Foi muito pouco o que o Irão permitiu e, quando algo falhou, apareceu Alireza Beiranvand. Já é dono da defesa do Mundial. Depois, na frente, enquanto houver Mehdi Taremi haverá estrada p


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