A maternidade, o pós parto, a menopausa, o pós menopausa — depois da libertação chegou o tempo da hormonização. E o que tem o julgamento de Lindsay Clancy a ver com isso?

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Bom dia. Estamos no Contracorrente e hoje vamos até aos Estados Unidos. Vamos partir do julgamento de Lindsay Clancy, a mulher que matou os três filhos, para olhar para as mulheres. Será que estão a ser vistas como um saco incontrolável de hormonas? É a maternidade, o pós-parto, a perimenopausa, a menopausa, o pós-menopausa. Mas aquilo que num dado momento pode servir para as desresponsabilizar, Helena Matos, bom dia, será que pode virar-se contra as mulheres e pode ser usado como argumento para lhes retirar direitos?

Bom dia. Um dos problemas deste julgamento, independentemente da forma como foi instruída a acusação, e falaremos disso sobretudo na segunda parte com o Ricardo Reis, que está nos Estados Unidos e que tem seguido o julgamento com muita atenção, e que teve a própria forma como foi instruída a acusação. Nós estamos aqui, passando dessa parte jurídica propriamente dita do processo, para uma outra pergunta, que é: tudo aquilo que se usa como uma espécie de excepcionalização, aqui no caso das mulheres, e se uma mulher está em depressão pós-parto, mesmo apesar de já terem passado vários meses sobre esse parto, há a pergunta contrária. Uma mulher que tenha uma depressão pós-parto pode ver serem lhe retirados os filhos simplesmente por causa disso. Porque se uma mulher que matou os filhos alegando que estava em depressão pós-parto acaba a poder não ser condenada por causa disso, então as outras mulheres podem arriscar ficar sem a capacidade jurídica de tomar conta dos seus filhos, por exemplo. Há aqui um regresso, na minha opinião, mas é só a minha opinião, a uma coisa que está quase a fazer 100 anos. Eu penso que o livro saiu em 1924, se não, tem 102 anos, que é a tragédia biológica da mulher. E que é as mulheres como uns seres que variam no seu retrato, mas que são seres excecionais para uns, abnegados, extraordinários, mas que vivem uma vida constante sobre o ciclo das hormonas. Elas têm o período da adolescência, com o período, com a menstruação, com tudo isso. Depois temos a maternidade, que será o seu período por excelência, e a partir daí começam as coisas terríveis da depressão pós-parto. Nós temos agora, por exemplo, este enorme culto de tudo aquilo que se relaciona com a menopausa, perimenopausa, menopausa, pós-menopausa. Há toda uma vida na qual as mulheres são apresentadas como estando afetadas no seu estado moral, na sua vida, por causa dessas hormonas. Isto numa altura em que, ao mesmo tempo, nós vemos as mulheres ascenderem a postos de chefia, a lideranças políticas, vemo-las, do ponto de vista legal, a terem em muitos países igualdade plena de direitos. Mas eu pergunto: se uma mulher acabarmos a considerar que está no período pós-parto e que, como tal, as hormonas podem condicionar a sua forma de atuar a tal ponto que podemos considerar que ela não era suficientemente responsável quando matou os seus filhos, então uma mulher que seja ministra e que tenha sido mãe, as suas decisões podem fazer aparecer algum líder da oposição a dizer que ela não estava na plena posse das suas capacidades? É que tudo aquilo que se usa para excepcionalizar alguém, em princípio para ajudar. Eu olho para aquela mulher, para a Lindsay Clancy, e penso que isto é horrível, o que se faz. Mas tudo aquilo que se faz para excepcionalizar uma mulher, em geral, traduz-se em coisas terríveis para as outras todas. Acho que temos que ter muito cuidado quando vamos excepcionalizar alguém, porque depois a regra geral é filhas estão tramadas. Isto é muito, de um ponto de vista muito pragmático.

Porque por um lado, não achas que há momentos de maior fragilidade das mulheres?

Estás a falar como uma mãe de quatro filhos.

Eu sei, por isso mesmo te pergunto. Porque a sociedade não deve respeitar também esse lado e encontrar um espaço.

Sim, mas matar os ainda não.

A maternidade tem, tal como tudo na vida, momentos de grande esgotamento. E aliás, há aqui várias questões que o caso desta mulher coloca. O acompanhamento médico que ela estava a ter, farmacológico, seria o adequado ou não era o adequado. O esgotamento, porque também há, e eu espero que consigamos falar disso, aliás, logo no início do programa, uma romantização da maternidade que aconteceu aqui há uns anos, que não corresponde minimamente à realidade, pelo menos à realidade que eu conheço. A maternidade é uma coisa extraordinária, extraordinariamente cansativa, com momentos de grande desespero. É algo de profundamente transformador, mas não é aquela coisa que aparece no Instagram, porque houve aqui uma romantização.

Creio que as mães dizem todas, pelo menos as recém-mães: "Ninguém nos prepara para isto".

Porque eu acho que as pessoas têm essa visão romantizada das coisas. A vida não é assim, as criancinhas não estão todas de manhã arrumadinhas com aqueles fatinhos lindos, maravilhosos, em casas com as almofadas todas no sítio. A verdade não é assim, a realidade não é assim. Acho que há aqui uma instagramização da vida que leva a que se crie uma pressão enorme sobre as mulheres.

E agora veio o momento da tosse. São aquelas coisas que estamos mais habituados ao outono ou inverno, mas o ar-condicionado também não facilita.

Eu acho que tem muito a ver com isso. E depois também há uma pergunta a colocar: se fosse um homem esquizofrênico que tivesse assassinado os três filhos, o que fazíamos? Íamos achar que ele por ser esquizofrênico.

Não teria condições para julgamento e deveria ter outro tipo de contexto e outra avaliação.

Agora passamos. Vamos, sim. Até porque para além da Helena Garrido, temos também conosco a Zita Seabra, que é um rosto e um nome que associamos muito a momentos importantes no âmbito da luta pela igualdade das mulheres em Portugal. Zita Seabra, bem-vinda. Hoje está em estúdio, o que é um privilégio.

Compreenda aqui esta visão da Helena Matos de que a forma como este caso e outros semelhantes acabam por incapacitar as mulheres.

Eu não diria que isto é um caso, eu diria que isto é uma tragédia, que nos leva a colocar uma série de questões. A maneira mais simples é aquela que tem sido encarada e que foi encarada pelo próprio júri, que é dizer: estava doente, depressão pós-parto, psicose, mais grave que a depressão pós-parto. Isto acontece frequentemente e tem que ser encarado como uma questão social. E eu acho que essa tragédia nos deve levar a meditar no que aconteceu e como isto se explica. A primeira questão que me torrou quando vi a primeira notícia foi: e o pai das crianças não percebeu antes que ela estava doente? Que medicamentos é que deram os médicos que não salvaguardaram a situação das crianças? Pelo que eu li, não sei se é assim ou não, que lhe deram uma tal mistura de medicamentos, que a certa altura, a pessoa não sabe se está a melhorar ou não sabe se está a piorar.

Com alucinações, etc. Como é que funcionaram os serviços de saúde? É muito difícil sempre olhar para os serviços da saúde mental. É uma coisa muito difícil e têm sido feitas experiências terríveis. Fecharam-se os hospitais psiquiátricos, depois abriram-se os serviços, depois não há onde ir, e depois as famílias que têm um problema desses. E eu acho que essa é uma das questões.

Desculpem, eu vou regressar da minha tosse, mas isto que a Zita está a dizer sobre a questão dos hospitais psiquiátricos, há coisas que são lindíssimas no papel. E no papel, qualquer um de nós pensa: tudo é melhor a um hospital psiquiátrico. Mas a verdade é que acreditar que as famílias existem e existindo, têm capacidade para levar as pessoas a fazer um tratamento e acompanhar um tratamento, é uma ideia um pouquinho mirífica, para não dizer completamente mirífica.

Mesmo com tratamento, Helena, eu conheço famílias que têm um problema, por exemplo, de esquizofrenia de um rapaz e que têm que ir interná-lo à Espanha, que em Portugal não existe. E eu lembro-me de existir aqui ao lado o Júlio de Matos. Eu tive um tio que era psiquiatra e foi diretor do Hospital Júlio de Matos. Lembro-me disso existir e realmente é dramático ver um hospital psiquiátrico, mas esta situação que existe agora torna muito difícil a reação. A outra questão que eu gostaria de colocar é em relação à tragédia americana.

Os Estados Unidos foi um dos países onde esse desmantelar das unidades psiquiátricas foi levado de uma forma.