Série “Os quatro picaretas”, Parte 3 · documentos exclusivos da justiça americana. Na última terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro abriu o segundo dia da audiência pública sobre o tarifaço, em Washington. Teve cinco minutos, como todos os participantes, par…
Série “Os quatro picaretas”, Parte 3 · documentos exclusivos da justiça americana.
Na última terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro abriu o segundo dia da audiência pública sobre o tarifaço, em Washington. Teve cinco minutos, como todos os participantes, para falar sobre a tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos ameaçam impor aos produtos brasileiros.
O senador usou o tempo para falar contra o próprio país. Dos 34 brasileiros que se manifestaram, ele foi o único que não pediu a anulação das tarifas. Em vez de contestá-las, avalizou as acusações americanas contra o Brasil.
Flávio pediu apenas o adiamento, para depois da eleição de outubro. O raciocínio dele é abertamente eleitoral. Taxar o Brasil agora fortaleceria Lula e prejudicaria a oposição, ou seja, a candidatura dele próprio. A atuação rendeu ao senador uma nota de repúdio do governo brasileiro.
A audiência foi convocada pelo USTR, o escritório comercial da Casa Branca, para colher subsídios técnicos antes da decisão final, prevista para 15 de julho.
Mas no mundo político de Washington ninguém acredita que o tarifaço será decidido por notas técnicas. Os analistas concordam que Trump não lê pareceres. Ouve lobistas, e apenas os da casa, aqueles que têm relação partidária com o presidente.
É o caso de Jason Miller, queridinho de Trump desde que trabalhou nas suas primeiras campanhas. Lobista profissional, Miller é agente oficial do governo da Índia em Washington, contratado pela embaixada do país e registrado na lei americana de agentes estrangeiros. Recebe 150 mil dólares por mês, cerca de R$ 810 mil, para defender os interesses indianos junto ao governo Trump.
No Brasil, porém, ele é conhecido por outra função. Miller é o principal elo político entre o núcleo duro do bolsonarismo, autoexilado nos Estados Unidos, e a Casa Branca. Por esse trabalho, não há registro de pagamento algum.
Mas Miller já fez negócios com o bolsonarismo. Como O Cafezinho contou na parte anterior desta série, ele tentou implantar no Brasil a Gettr, a rede social da qual era o chefe, e contratou para a missão um operador que o leitor conhece bem, Paulo Figueiredo. O dinheiro que bancava a operação, a Justiça americana estabeleceria depois, era roubado.
Hoje vamos trazer mais detalhes desse personagem. Como já parece ser tradição na extrema direita brasileira e americana, ele carrega um longo histórico de picaretagens, todas devidamente registradas na Justiça. Comecemos pelo que ele tentou fazer com o Brasil.
A operação Brasil, assinada por ele
Paulo Figueiredo, neto do último general da ditadura militar, é o influenciador bolsonarista que vive nos Estados Unidos e hoje está foragido da Justiça brasileira. Em agosto de 2021, Miller o contratou para ser o representante e principal operador da Gettr no Brasil.
O contrato, de 35 mil dólares por mês, na época cerca de R$ 180 mil, foi assinado de próprio punho por Miller, como chefe da rede. A missão da empresa de Figueiredo era implantar a Gettr no coração da política brasileira, na véspera da eleição de 2022.
Os relatórios internos da operação, entregues à Justiça americana pela própria defesa de Figueiredo, registram como o dinheiro foi gasto. A Gettr comprava espaço publicitário em portais e emissoras que davam apoio editorial e político a Jair Bolsonaro, caso da Jovem Pan, da Gazeta do Povo e do canal 4×4.
A compra de inserções na Jovem Pan foi negociada pelo próprio Figueiredo, que era comentarista da emissora. Um relatório de dezembro de 2021 registra até o atraso no pagamento e a rádio reduzindo a oferta em cerca de cem inserções.
A rede patrocinava eventos de Eduardo Bolsonaro e de Carlos Jordy. Bancou a transmissão de um congresso de médicos do “tratamento precoce”, em plena pandemia. Chegou a negociar patrocínio para o Carnaval.
E encomendou uma pesquisa presidencial com regra combinada de antemão. A ordem, registrada por escrito no mesmo relatório interno, foi do próprio Miller. Se o resultado desfavorecesse Bolsonaro, a pesquisa ficava na gaveta.
O plano previa ainda recrutar influenciadores pagos, incluindo, com todas as letras, “government officials”. Agentes públicos brasileiros na folha de uma rede social bancada por dinheiro de fraude.
Há um pedido de Miller nesse relatório que merece atenção especial. Ele mandou Figueiredo procurar, no Brasil, “eventos relacionados a criptomoedas”.
O leitor entenderá o peso disso em um instante. Nos Estados Unidos, o esquema que bancava a Gettr vendia às vítimas pacotes que combinavam 5% da rede social com 5% de uma criptomoeda chamada Himalaya. Era exatamente essa mercadoria que procurava palco no Brasil.




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