Documentos revelam que Brasil e Estados Unidos retomaram em 2025 as discussões, interrompidas em 2023, sobre cooperação bilateral para combater o crime organizado; tratativas continuam, apesar de o governo Trump ter classificado organizações criminosas brasileiras como terroristas, a contragosto do governo Lula

BRASÍLIA – Antes da decisão que classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, os governos do Brasil e dos Estados Unidos haviam retomado conversas para firmar acordos de cooperação nas áreas de defesa e segurança. Com a medida de junho, o governo de Donald Trump desconsiderou as iniciativas dos agentes dos dois países para aperfeiçoar o compartilhamento de informações e ferramentas que podem frear o crime organizado internacional.

Documentos acessados pelo Estadão revelam que as tratativas de cooperação entre os dois países foram abordadas em oito telegramas produzidos durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e enviados de forma mais intensa no início da nova gestão de Trump.

Apenas dois dos oito telegramas que abordam os diálogos entre Brasil e Estados Unidos datam de 2023, primeiro ano da gestão petista e quando Joe Biden ainda era presidente. O restante é referente ao período entre abril de 2025 e abril de 2026, o que demonstra a retomada dessa agenda como prioridade após o retorno de Trump ao governo.

Os telegramas enviados nos últimos dois anos tratam de “cooperação bilateral em defesa e segurança”, “cooperação para combate ao crime organizado” e “cooperação bilateral contra ilícitos transnacionais”. O governo brasileiro defendia a colaboração e via a ideia de designar as facções de terroristas como risco à soberania. Mesmo assim, Trump colocou a medida em vigor a partir de 5 de junho, em aceno à direita brasileira representada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).

As informações, obtidas pelo Estadão, correspondem ao período do início do governo Lula até 10 de junho. Nos cinco dias após medida dos EUA, não houve envio de correspondência aos americanos.

Com as discordâncias de parte a parte na área do enfrentamento ao crime organizado, as iniciativas de cooperação seguem somente no papel, mas representantes dos dois governos insistem em tentativas de diálogo para costurar esses acordos.

Na semana passada, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, se reuniu com o subsecretário de Defesa para Política dos Estados Unidos, Elbridge Colby, no Peru, para debater sobre medidas de cooperação no combate ao narcotráfico. Conforme o governo brasileiro, o encontro foi solicitado pela gestão Trump, que vê no País um parceiro em potencial para atuar no continente na questão da segurança.

Em resposta ao Estadão, o Ministério das Relações Exteriores mencionou uma proposta de cooperação internacional, na área de inteligência, apresentada pelo Brasil ao Departamento de Estado dos EUA. Segundo a pasta, o objetivo do acordo é ampliar os controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e o tráfico de armas enviadas ao Brasil.

“O Brasil entende que o enfrentamento ao crime organizado transnacional exige ação conjunta e cooperação internacional”, afirmou a pasta. “O Brasil e os Estados Unidos possuem uma tradicional cooperação em matéria de combate ao crime organizado”, acrescentou.

O Itamaraty também destacou que, na mais recente viagem do presidente Lula a Washington, em maio deste ano, duas iniciativas foram apresentadas para aprofundar essa cooperação. Porém, segundo a pasta, “não houve, até o momento, reação do governo dos Estados Unidos às propostas apresentadas”.

No fim do seu primeiro ano de mandato, Trump apresentou ao mundo sua Estratégia de Segurança Nacional, um documento que define o realinhamento da política externa dos EUA sob a doutrina do “America First” (América Primeiro). A medida implica em um aprofundamento da presença militar do país na América Latina para combater o narcotráfico e outras frentes consideradas ameaças.

Em maio deste ano, Trump publicou uma nova estratégia nacional antiterrorismo que estabelece como principal prioridade do governo o combate aos cartéis de drogas no Hemisfério Ocidental – termo utilizado pelos EUA para se referir às Américas.

Hoje, a cooperação entre Brasil e Estados Unidos nas áreas de defesa e segurança pública é considerada reduzida, focada no entrosamento entre as respectivas Forças Armadas e forças policiais. A avaliação consta em artigo do professor Humberto José Lourenção, da Academia da Força Área, que apresenta o histórico de cooperação dos dois maiores países das Américas nas áreas de defesa e segurança.

Em 2015, os dois países firmaram um acordo na área de defesa que contempla uma variedade de outros acordos e iniciativas de cooperação em segurança, como a promoção de exercícios conjuntos e a facilitação do compartilhamento de capacidades e tecnologias sofisticadas.

Já na área de segurança pública, há acordo vigente desde 2019 entre o Ministério da Justiça, a Agência Federal de Investigações (FBI) e o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos para o compartilhamento de informações sobre a atuação de grupos criminosos e terroristas.

A íntegra dessas comunicações está sob sigilo imposto pelo Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty alega que a medida é necessária porque a divulgação das informações poderia “prejudicar ou pôr em risco a condução de negociações ou as relações internacionais do País”. Outro argumento é de que podem conter informações “fornecidas em caráter sigiloso por outros Estados e organismos internacionais”, o que é amparado pela Lei de Acesso à Informação (LAI).

Como revelou o Estadão, o Ministério das Relações Exteriores vem adotando medidas para aprofundar o sigilo sobre as suas atividades. Em novembro do ano passado, o ministro Mauro Vieira publicou uma portaria que amplia o rol de dados que podem ser classificados pela pasta como sigilosos, quando forem identificadas possibilidades de “graves danos, tangíveis ou intangíveis, para a sociedade e o Estado”.

Além da cooperação bilateral, Brasil e EUA trataram de temas como a candidatura brasileira ao comando da Interpol e o programa “Recompensas por Justiça”, do governo americano, que remunera pessoas e instituições que fornecem informações sobre terrorismo e atividades cibernéticas maliciosas executadas no exterior contra os Estados Unidos.

Os crimes ambientais também foram assunto das comunicações diplomáticas. Em um dos dois telegramas sobre o tema, há menção expressa ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), órgão vinculado ao Ministério da Defesa que utiliza satélites, radares e geotecnologias para monitorar e fiscalizar atividades no bioma amazônico.

Ao todo, 22 telegramas foram produzidos nos últimos quatro anos para tratar da questão do crime organizado. Somente cinco documentos permanecem públicos. Eles tratam, por exemplo, de uma menção ao Brasil em sessão do Senado americano a respeito de países que enfrentam a internacionalização de grupos criminosos.