Fernando Moreira afirma que falso alerta pode abalar a confiança da população em avisos reais de enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos

Fernando Moreira afirma que falso alerta pode abalar a confiança da população em avisos reais de enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos

Eduardo Perry de Brasília

28.jun.2026 (domingo) - 6h00 Siga o Poder360 no Google

A invasão ao sistema de alertas da Defesa Civil pode comprometer a resposta da população em emergências reais, como enchentes, deslizamentos e tempestades severas. A avaliação é do professor de Direito da FGV (Fundação Getulio Vargas), especializado em cibersegurança, Fernando Silva Moreira dos Santos.

“A confiança é o principal ativo de um sistema de alerta. Quando o cidadão recebe um aviso oficial, ele precisa acreditar que há uma razão real para interromper o que está fazendo”, disse em entrevista ao Poder360.

A plataforma Defesa Civil Alerta foi retirada do ar na madrugada de sábado (20.jun.2026) depois de disparar uma mensagem falsa com a palavra “misantropia” para celulares em diversas regiões do país. Segundo o MIDR (Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional), o alerta foi enviado remotamente por alguém sem vínculo com o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil. A pasta acionou a Polícia Federal para investigar o caso e afirmou que o sistema só seria religado quando as condições de segurança fossem restabelecidas.

Para Moreira, o episódio afeta principalmente a credibilidade do sistema de emergência. Segundo ele, após um falso alarme, parte da população pode passar a duvidar de novos avisos, mesmo em situações de risco real.

“Quando essa confiança é abalada, o próximo aviso verdadeiro pode ser recebido com dúvida, ironia ou demora na reação. E, em situações como enchentes, deslizamentos ou eventos climáticos extremos, essa hesitação pode custar vidas”, disse.

Segundo o especialista, o potencial de dano foi reduzido porque a mensagem enviada pelo invasor era confusa, não indicava ameaça concreta e não trazia orientação prática à população.

Ele afirma que o cenário poderia ser mais grave caso a mensagem simulasse uma emergência real.

“Se o alerta falso tivesse determinado evacuação imediata, permanência em determinada área, deslocamento para um falso abrigo ou bloqueio de rotas, o dano físico poderia ter sido muito maior”, disse.

Moreira avalia que alertas oficiais têm capacidade de provocar reação imediata porque são percebidos como comunicação de autoridade pública. No caso da Defesa Civil, esse efeito é ampliado pela natureza emergencial do serviço e pela possibilidade de envio de alertas extremos com aviso sonoro em celulares no modo silencioso.

O especialista também aponta risco de golpes financeiros. Segundo ele, uma mensagem enviada por canal oficial poderia ser usada para direcionar cidadãos a cadastros falsos, telefones fraudulentos, sites criminosos ou mensagens complementares falsas, explorando medo e urgência para obter dados pessoais ou dinheiro. “A fórmula é perfeita para engenharia social”, disse.

Para Moreira, a resposta institucional nesses casos precisa ser convincente. Ele afirma que é necessário explicar, dentro dos limites da investigação, o que ocorreu, quais regiões foram afetadas, quais controles foram revistos e como novos disparos indevidos serão evitados.

O especialista diz que a recuperação da confiança depende de transparência e prestação de contas. “A credibilidade não se recupera com silêncio”, disse.

Na avaliação de Moreira, sistemas públicos críticos não podem ser tratados como ferramentas administrativas comuns. Segundo ele, uma plataforma capaz de enviar alertas extremos para milhões de celulares deve ter padrões de proteção semelhantes aos aplicados a sistemas bancários, de energia, saúde, transporte e segurança pública.