Regras engessadas e participação de nanicos esvaziam o interesse pelo que já foi o grande evento das eleições. Tanto do público quanto dos candidatos

Virou tradição nas campanhas a presidente no Brasil há pelo menos duas décadas: time que está ganhando não se expõe.

Mesmo que não esteja ganhando de muito, caso do presidente Lula (PT), que na última pesquisa Datafolha viu a vantagem para Flávio Bolsonaro (PL) recuar para quatro pontos (47% a 43%).

Lula sabia que seria caçado por todos os participantes do debate promovido no domingo (23) pela TV Bandeirantes e tirou o time de campo. Flávio viu que, sem o oponente principal, herdaria o alvo na testa e também refugou.

Sem ter o que fazer por lá, até Romeu Zema (Novo) declinou.

Assim, a emissora levou ao ar uma miada disputa de terceiro e quarto lugares que fez dormir até Gilberto Kassab (PSD), vice de Ronaldo Caiado (PSD) – este sim presente em corpo e espírito no palco no estúdio.

Nem o peladão da Copa de 2026, com uma frustrada França contra uma desinteressada Inglaterra, foi tão vergonhoso – ao menos no Mundial a desobrigação de vencer rendeu dez gols. 

Caiado, Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Podemos) fizeram o esperado. Criticaram os ausentes e tentaram mostrar ao público que não estavam ali para brincadeira. Teve quem acreditou. Mas era meia dúzia de gatos pingados.

Lula, que não queria apanhar, foi malhado de todo jeito. Ao menos pouca gente viu.

A estratégia é compreensível, como é compreensível também questionar se não era hora de mostrar força e encarar todo mundo com números e a defesa de seu governo. Pontos certamente ele não iria perder. A paciência, talvez. 

O que era pra ser o primeiro grande evento da campanha virou, assim, um desfile de constrangimento.

E não há sinal de que os próximos serão mais empolgantes. Primeiro porque sentar diante da TV aberta já não é mais o programa de domingo à noite nem quando Silvio Santos ainda era vivo.

Hoje a grande aposta de presentes e ausentes são os canhões disparados nas redes sociais. A TV, que deveria ser linha auxiliar, virou uma arapuca em que perguntas capciosas e possíveis embaralhos viram piadas nos perfis digitais.

Sinais dos tempos, mas que dizem muito sobre a rejeição ao confronto dos postulantes. Sem debates do tipo, cada candidato só diz o que quer sem ouvir o que não quer. É um conjunto de monólogos que joga por terra as teses, antíteses e sínteses da dialética política.

Ajudaria, no caso das emissoras, se o campo político não estivesse tão fragmentado a ponto de permitir a participação, em um programa dito sério, de palhaços que estão ali para provocar, fazer bancada ou negociar apoio no segundo turno.

Em 2024, não teve um debate que não foi emporcalhado por Pablo Marçal (PRTB). Já que não dá para debater ideias complexas em segundos, o negócio é chamar a atenção pelo deboche. E isso ele soube fazer isso muito bem. José Luiz Datena, hoje no PSB, que o diga.

Enquanto as regras, e o sistema partidário, funcionar desse jeito, debates na TV aberta terão cada vez menos interesse. Tanto da plateia quanto dos candidatos.