O investigador brasileiro Anderson Bueno falou com a Green Savers sobre o seu mais recente estudo científico, que considera ser um sinal de esperança para a conservação das aves num mundo em que as florestas continuam a ser fragmentadas e perdidas.

O investigador brasileiro Anderson Bueno falou com a Green Savers sobre o seu mais recente estudo científico, que considera ser um sinal de esperança para a conservação das aves num mundo em que as florestas continuam a ser fragmentadas e perdidas.

Perto de metade das florestas da Terra estão nos trópicos, regiões conhecidas pela grande variedade de formas de vida, pelo que se consideram indispensáveis para a conservação da biodiversidade do planeta, além de importantes aliados no combate à crise climática.

Pelo mundo fora, a conversão de florestas em zonas de pasto ou em áreas de cultivo de alimentos, por exemplo, está a fragmentar esses ecossistemas, criando “ilhas” florestais isoladas numa paisagem despida de árvores, ou com apenas uma mão-cheia delas, muito afastadas umas das outras, como torres solitárias que se erguem num “mar” de vegetação rasteira.

É uma teoria relativamente bem estabelecida na Ecologia que os fragmentos florestais têm menos diversidade de espécies quanto menores forem. Contudo, uma investigação recentemente divulgada na revista ‘PNAS’ vem mostrar que, mesmo sem ampliar a área de um fragmento, é possível aumentar o número de espécies de aves que nele vivem melhorando a qualidade da paisagem envolvente.

Com esse trabalho, foi possível quantificar o quanto “o que está do lado de fora do fragmento florestal influencia o número de espécies de aves que vivem dentro dele”, explica-nos Anderson Bueno, primeiro autor do estudo que envolveu mais de meia centena de investigadores.

Detalha o ecólogo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (IFFar), no Brasil, que “a perda de espécies que seria esperada apenas com base no tamanho do fragmento pode ser atenuada quando a paisagem envolvente é mais favorável, especialmente em fragmentos florestais pequenos”. Assim, se a paisagem envolvente for adequada, a perda de espécies de aves nos fragmentos pode ser reduzida.

Os cientistas reuniram dados de quase duas mil espécies de aves documentadas em mais de mil remanescentes de florestas tropicais e subtropicais em 17 países diferentes, das Américas à Ásia, passando por África. Mais especificamente, olharam para a diversidade de espécies de aves em 669 fragmentos com envolvente terrestre, como áreas de pasto, agricultura ou cidade, e 336 com envolvente aquática, como em reservatórios de centrais hidroelétricas.

Para perceber como é que a paisagem envolvente afeta o número de espécies de aves, foram comparados fragmentos florestais cercados por ambientes terrestres modificados pela pecuária, pela agricultura e pela urbanização com “ilhas” florestais rodeadas por água em reservatórios de centrais hidroelétricas.

A equipa acredita que os resultados obtidos são sinais de esperança para a conservação da biodiversidade, uma vez que, mesmo em fragmentos pequenos, é possível ter uma grande quantidade de espécies distintas de aves.

Envolventes de alta qualidade

Tudo depende da qualidade da paisagem que envolve os fragmentos de floresta, asseveram os investigadores. E nem todas as envolventes têm os mesmos efeitos.

Diz-nos Anderson Bueno que a paisagem circundante “mais favorável” a uma maior diversidade de espécies de aves nos fragmentos florestais é “um ambiente terrestre em que há maior presença de vegetação arbórea na vizinhança”, como árvores dispersas, arvoredo que cresce nas margens de massas de águas, como rios e lagos, ou outros fragmentos próximos.

“Os nossos resultados não indicam a existência de um nível mínimo de cobertura arbórea”, esclarece o investigador. “O que observámos foi uma relação gradual”, acrescenta: “quanto maior a presença de vegetação arbórea no entorno dos fragmentos florestais, maior tende a ser o benefício para a biodiversidade”. E esse benefício é ainda mais notório em fragmentos florestais de pequenas dimensões, explica-nos.

O estudo centrou-se em florestas na América Central e do Sul, na África Ocidental e Oriental, na Índia e em países do sudeste asiático, onde se regista uma grande biodiversidade e onde há “um histórico mais recente de perturbações ambientais causadas por atividades humanas”.

Questionado sobre se algo semelhante poderia acontecer em zonas temperadas, como na Europa, Anderson Bueno recorda que, nessas regiões do planeta, há “uma menor variedade de espécies”, comparando com os trópicos, e “um histórico mais antigo do uso da terra”. Por isso, considera que “embora os padrões observados no nosso estudo possam ser aplicáveis a outras regiões do mundo, é provável que os efeitos da qualidade do entorno sobre as espécies que vivem em fragmentos florestais sejam mais pronunciados nas regiões tropicais e subtropicais”.

O investigador refere que práticas que aumentam a presença de árvores na paisagem, como sistemas agroflorestais, em plantações de café e cacau, por exemplo, ou o uso de árvores em “sebes vivas”, podem criar “um entorno mais favorável para espécies silvestres associadas aos fragmentos florestais próximos”. No entanto, o cientista avisa que, dessa forma, “é possível reduzir, mas não eliminar, os impactos da perda de habitat sobre a biodiversidade”.

Assim, para realmente proteger a biodiversidade a solução é preservar a floresta, recuperá-la e reunir os seus fragmentos numa só rede contínua de vida.

A grande maioria das paisagens fragmentadas são compostas por pequenas “ilhas” florestais, pelo que, para Anderson Bueno, a “mensagem de esperança” trazida por esta investigação “reside no facto de que esses pequenos pedaços de floresta poderem abrigar mais espécies do que seria esperado com base apenas no seu tamanho, desde que o entorno seja mais favorável à biodiversidade”.

“Ao combinar a proteção da floresta com a melhoria do seu entorno, estaremos a aumentar o valor de conservação dos fragmentos florestais”, sentencia o líder deste estudo.

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