Em um ateliê de moda na Venezuela , as linhas de cores vibrantes usadas para confeccionar vestidos foram deixadas de lado. O preto passou a predominar. Agora, o local produz sacos funerários para doá-las a equipes de resgate e familiares que recuperam corpos dos escombros após os dois terremotos. Leia mais (07/17/2026 - 04h00)
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Maracay (Venezuela) | AFP
Em um ateliê de moda na Venezuela, as linhas de cores vibrantes usadas para confeccionar vestidos foram deixadas de lado. O preto passou a predominar. Agora, o local produz sacos funerários para doá-las a equipes de resgate e familiares que recuperam corpos dos escombros após os dois terremotos.
Em 24 de junho, quando dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram Caracas e devastaram o estado vizinho de La Guaira, o estilista venezuelano Efraín Mogollón se perguntou como poderia ajudar diante da emergência. Ao menos 4.930 pessoas morreram nos sismos, segundo balanço divulgado pelo regime nesta quinta (16).
"Estávamos em estado de choque porque era uma tragédia devastadora e precisávamos entender o que poderíamos fazer a partir daquilo que sabemos fazer", contou Mogollón, 44, à agência AFP durante uma visita a La Guaira.
"E, neste caso, era costurar, colocar minha equipe para trabalhar e colocar esse plano de ação em prática", explicou. Na primeira semana após os terremotos, "começamos a fazer sacos funerários".
A grife ByEfraínMogollón foi criada há 15 anos na cidade de Maracay, no estado de Aragua, no centro do país. Desde então, suas peças características, com mangas amplas de babados e saias drapeadas, conquistaram reconhecimento internacional e desfilaram em importantes passarelas.
Mas o foco do trabalho mudou temporariamente após a catástrofe provocada pelos dois terremotos, ocorridos com menos de um minuto de intervalo.
O regime da líder interina, Delcy Rodríguez, evita falar em desaparecidos, mas a ONU estimou que o número pode chegar a 50 mil e anunciou o envio de 10 mil sacos para cadáveres.
Diante da superlotação dos hospitais e do necrotério, o governo improvisou um depósito de corpos nos silos do porto de La Guaira. Também ampliou um cemitério para sepultar centenas de vítimas, que ainda não foram identificadas.
As 22 costureiras do ateliê guardaram a seda, o linho, o tafetá e o algodão e passaram a trabalhar com polietileno de alta densidade de 500 micras e um tecido impermeável com revestimento especial, para confeccionar sacos funerários de três metros de comprimento por 90 centímetros de largura.
Ao lado dos manequins, estão expostos sacos pretos envoltos em plástico, com uma imagem do Sagrado Coração de Jesus colada na superfície.
"Foi um impacto quando nos deram a notícia do que iríamos fazer. Mas, ao mesmo tempo, sentimos que estamos fazendo o bem", afirmou Grismary Villegas, de 21 anos, enquanto costurava um saco com linha azul-escura. "É uma forma de apoiar as pessoas neste momento de dor."
Villegas trabalha no ateliê desde os 17 anos, seguindo os passos da avó e da tia, também costureiras. Ela costura desde os oito anos, mas diz que jamais imaginou realizar esse tipo de trabalho.
"Há muita gente ajudando e isso é o mais importante. Nos momentos mais difíceis, um país precisa permanecer unido (...) Vou continuar colaborando", acrescentou, esperançosa de que "não sejam necessários mais sacos, que não haja mais tragédias".
Até segunda-feira (13), o ateliê de Mogollón havia confeccionado mil sacos. Metade foi doada ao serviço nacional de medicina e ciências forenses em Caracas, e o restante foi entregue diretamente a equipes de resgate e familiares das vítimas.




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